Sem data
Querido Miguel, A última coisa que faltei em responder-lhe foi o motivo pelo qual pedi que me devolvesse todas as cartas que um dia lhe escrevi. Não há uma boa explicação para isso, assim como não há explicação contestável sobre os porquês de gostarmos ou não de uma pessoa logo na primeira impressão. Logo que recebi de volta minhas próprias cartas, recolhi todos os envelopes datados pelo correio e me desfiz destes. Nunca coloco data naquilo que escrevo, é talvez um mau hábito que adquiri nos últimos anos e do qual não abdico e nem pretendo. Gosto de ler o que escrevi sem saber ao certo quando foi ou porque foi feito. Gosto das angulações que minhas frases no papel causam ao se refletirem nos meus sentidos e sentimentos. Gosto de perceber que muitas vezes não cheguei a terminar as idéias, Miguel, e o texto acaba no vago, sem pontuação, nexo ou coordenada. Devo gostar disso porque se assemelha à minha vida. O ir e vir de sensações e mesmo melancolias. A falta de sono por banalidades e in...