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Mostrando postagens de julho, 2007

A curto prazo

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A maçã sobre a mesa. O casaco vermelho. A xícara de porcelana. O cinzeiro vazio. O calendário na parede anunciava que julho se despedia. No rádio, uma antiga canção conhecida. No céu, o sol embolorado de inverno. Oh, se ela pudesse voltar... Ah, se ela pudesse morrer... Não podia. Não era tarde, mas ficaria. Não era velha, mas ficaria. As coisas tomavam formas, cores, tamanhos... Depois, desapareciam. Engraçado. Ele sumia com aquele vento, ele sumia como suas mãos naqueles bolsos. Será que sumia? Não sabia, mas sentia. Talvez doesse um tantinho, um tantinho só... A velha mania de se apegar às pessoas! Não nascera para gostar de ninguém. Ou nascera? É sempre o ir e vir... O mesmo ir e vir. Droga! Se, ao menos, tivesse tentado... Quem sabe se, com um pouco mais de esforço, com um pouco mais de coragem... Não. De manhã estava frio, frio, tão frio que ela quase desistiu. Eu disse, quase. O metrô lotado, tudo sempre igual. Sempre, a não ser, os rostos. Os rostos estavam sempre mudando, mas ...

Promotoria de vendas

Todas as segundas, quartas e quintas-feiras durante a noite (sempre por volta das 19:42 e 19:47 para ser mais precisa) um senhorzinho muito humilde, vestido com a mesma blusa de lã marrom e seu bonézinho azul, passa com um carrinho de feira vendendo amendoins daqueles que ainda estão na casca, igual aos que os elefantes comem nos desenhos animados. Ele vende a um real o pacote. Eu particularmente adoro amendoins, principalmente aqueles cobertos com uma casquinha doce e bem colorida que mancha os dedos devido ao corante e arrebenta os dentes devido à sua densidade, mas nunca me interessei muito por esses dos elefantes de desenhos animados, de modo que nunca comprei. Todos esses mesmos dias ele toca a campainha e me oferece os tais amendoins, desde que comecei a trabalhar por lá sempre agradeço e ele vai embora um pouco menos contente. Semana passada eu estava com uma vontade do cão de comer balas de goma, infelizmente não tive tempo de correr até a lojinha de doces da esquina para compr...

Coisas

Viver era isto. Sem tirar nem pôr. Carlos escovou os dentes como todas as noites. Apertou bem a torneira para evitar vazamentos, depois se arrastou até o quarto e arrumou sua cama. Verificou se o vidro da janela estava fechado e sem mais hesitar, deitou-se. Esticando vértebra por vértebra no colchão, sentiu um intenso prazer em finalmente poder estar ali. Por um minuto ele pôde esquecer que já era madrugada alta de domingo e que em poucas horas seria segunda-feira. Carlos detestava segundas-feiras. Sempre dias corridos e atrasados, onde se precisa recuperar o tempo perdido com o final de semana, tendo de lidar com pessoas em ritmo lento e também com trânsito infernal. Escapou o braço esquerdo das cobertas e apagou a luz. Tinha sono, mas não foi de imediato que dormiu. Fora um final de semana e tanto, aquele, coisas em excesso aconteceram e ele demorava a acreditar que foram apenas dois dias. A notícia da gravidez de sua irmã lhe atingira com um choque e tanto. É claro que, por ela est...

Fatos inacabados

Queria saber todas as histórias. Queria ler todos os livros. Queria poder cantar todas as canções. Queria conhecer todos os lugares. Marília queria muitas coisas, desde muito jovem. Sentada sobre o tapete da sala, mergulhava nas lembranças que aqueles antigos álbuns de fotos guardavam. Era difícil encontrar alguém que ainda se interessasse por eles, os dias andavam modernos demais. Engraçado era a facilidade com que Marília ia e vinha no tempo através daqueles retratos... Fechava os olhos por um instante e podia reviver, com riqueza de detalhes, cada vão momento que estava ali registrado, por mais singelo ou distante que fosse. Talvez esse fosse um dom humano que poucos ousavam explorar, talvez fosse apenas um sentido nostálgico de seu espírito. Algumas fotos lhe traziam à tona sensações das mais indescritíveis... Outras, indiferença. Quase conseguia ouvir vozes, sentir cheiros, estremecer. Fizera bem em manter tudo aquilo intacto, na verdade fizera muito bem. Ali estavam escritas, mil...

Daquela que já foi sua

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Uma terça feira cinzenta. Experimento a sensação da morte. Talvez dramatizando em excesso, quem sabe? Isso é pessoal, extremamente pessoal, tão suficientemente pessoal que meu desejo é tornar público. Quando digo morte quero ser obscena, afinal, nada de pungente me afeta, nada violento me domina. Eis a morte para mim: falta de desconforto. Não dói, não sofre, não amargura, é uma simples irrelevância, uma indiferente sensação, o fato de deixar de existir, apenas. Estranho que tudo se passou numa terça feira cinzenta, por escolha, unicamente. Não poderia ser mais cinematográfico. A arte imita a vida ou é a vida que imita a arte? Eu não poderia supor, não hoje. É quase como uma canção do Frank Sinatra, ou uma frase de efeito num filme do Stanley Kubrick: contrastante para alguns, para outros casual. Houve um tempo onde o abalo seria evidente, é claro. Nas atuais circunstâncias, ele é estático. O que estou querendo dizer? Existem coisas que devemos fazer pessoalmente. O que será daqui a um...