Postagens

Mostrando postagens de maio, 2008

Ana por suas linhas

"Não é preciso dizer nada, basta olhar pela janela: o tempo esconde tudo. Nuvens brancas enfeitam o céu que, um ano atrás, era o mais estrelado, o mais limpo, mais profundo e mais feliz". Essas eram as palavras que piscam no viso do celular enquanto ele lia aquela mesma mensagem pela enésima vez. Golpe baixo, pensou, em todo caso, ela sabia o que dizia, sabia fazê-lo sentir-se um lixo completo. Não, na verdade, não era bem um lixo... Tratava-se da putrefação presente no lixo velho e amontoado ou, quem sabe ainda, pior que isso. Nunca mais sorrisos entre cortantes, nunca mais mãos entrelaçadas. Se já não se viam, falavam ou tinham qualquer outro tipo de contato que não fosse as frustrantes e ignoradas tentativas da parte dela, a culpa era toda dele. Culpa e indiferença resumiam tudo. Ela era inocente, ele tinha certeza disso. Quando finalmente colocou o celular de lado, lembrou-se que deixara alguma panela queimando no fogo. Bingo: o cheiro de queimado empesteava a cozinha qua...

Catarina

Catarina abriu os olhos com dificuldade, desde que saíra do hospital e fora mandada de volta à clínica, tinha grande dificuldade em dormir mas quando adormecia era praticamente impossível acordar novamente. Seu corpo sofria pequenos flagelos interiores, dos quais ela estava já tão habituada que não se importava mais com a dor. A dor se tornara, desde então, sua única companhia naquele quarto limpo de paredes brancas. Tudo o que desejava era que as coisas pudessem ser como antes, obviamente esse desejo era uma demonstração da pura indiferença que sentia em relação aos terceiros envolvidos, que seria sempre classificada como egoísmo e/ou ingratidão. Era ingrata? Em absoluto. A quem é que deveria agradecer quando em sua maioria estavam distantes e os poucos que restavam serviam-se descaradamente de sua dor para aumentar o falso patamar de superioridade onde se impunham? Ninguém podia lhe responder. Se estava arrependida? A que é que devia redenção? Tudo o que fizera, tudo o que causara nu...

Envelope

E se ela pudesse ler a carta, fosse quando fosse, saberia exatamente o que dizer em sua defesa. Saberia perfeitamente os argumentos que usaria para tentar colocar em palavras, ato simplório e de grande risco, aquilo que dentro dela aos poucos se tornava perpétuo, uma vez que nunca seria dito. O que ela quisera dizer com aquelas palavras era, abstratamente contraditório ao que sentia, jamais pretendeu encarar aquilo de uma maneira tão literal e mesmo convencional, como ele certamente o fez. Não o culpava, na verdade era grata. Tudo correra exatamente como planejara, talvez pelo fato de conhecê-lo assim, tão bem. Na menor das hipóteses, seu sofrimento fora e continuava sendo penosamente tão presentemente forte para não dizer mais do que o dele era. Isso não era mentira. O que aconteceu na verdade, fora uma sucessão de acontecimentos que, misturados à velocidade das coisas e à ferocidade de seus próprios sentimentos, fizeram-na temer desesperadamente a inconcebível postura que estava pres...

Processo retrocesso

"Na primeira noite ele se aproximam e colhem uma flor de nosso jardim. E não dizemos nada. Na segunda noite, já não se escondem, pisam as flores, matam nosso cão. E não dizemos nada. Até que um dia, o mais frágil deles, entra sozinho em nossa casa, rouba-nos a lua, e, conhecendo nosso medo, arranca-nos a voz da garganta. E porque não dissemos nada, já não temos nada a dizer". Maiakovski "Primeiro levaram os negros Mas não me importei com isso Eu não era negro Em seguida levaram alguns operários Mas não me importei com isso Eu também não era operário Depois prenderam os miseráveis Mas não me importei com isso Porque eu não sou miserável Depois agarraram uns desempregados Mas como tenho meu emprego Também não me importei Agora estão me levando Mas já é tarde Como eu não me importei com ninguém Ninguém se importa comigo". Bertold Brecht

Ora pois...

Eu e Pedro estávamos em busca de qualquer lugar que vendesse caldo de cana. No caminho, paramos numa Sebo/Livraria já muito estimada de nossa parte. - Olá, você tem alguma coisa do "..." ? - Do "..."? - Isso, ele mesmo. - Só um minuto, vou dar uma olhada. - Tudo bem. Tempo. - Olha, eu só vou ter o "...". - Nossa, jura? E onde é que está? - Está aqui mesmo. A vendedora foi até uma prateleira, voltou com o livro nas mãos. Eu nem acreditei. Gente, que coisa fantástica. - Quanto custa? - Oito reais. - Eu vou levar! Mal olhei o livro direito. Porra, trata-se de "..." por OITO REAIS! Paguei o livro. No caminho, folheei-o rapidamente. - Nossa, Pedro, olha só que edição legal! - Puxa, é verdade! Você vai ter que me emprestá-la depois. É de 64... E, olha! 12/12 é QUASE no seu aniversário... - É!!! Aquela coisa toda de sentir que se tem um grande tesouro nas mãos, um livro raro e maravilhoso de um autor tão singular quanto. Não via a hora de sentar e dev...

Fora da área de cobertura

Ontem à noite, voltei mais cedo do trabalho por conta da impossibilidade de participar de uma aula devido ao pescoço torcido. Grosso modo , é o velho clichê da Lei de Murphy . Isso vive acontecendo comigo. Imagine-se numa semana muito importante, uma semana onde tudo pode acontecer mas nada pode estar relacionado ao seu quadro de saúde, caso contrário as conseqüências poderiam ser no mínimo desastrosas. A maioria das pessoas prefere não pensar nos riscos e possíveis problemas, portanto, continuam agindo de acordo com seu modo de vida cotidiano o que induz somente a dias corriqueiros sem grandes alterações em seu curso a não ser aquela ansiedade interior. Comigo é ligeiramente diferente. Eu me conheço o suficiente para ter em mente que, quando é preciso estar por assim dizendo em segurança ou seja lá o termo que se aplica nesse sentido, o universo todo passa a conspirar para que o contrário aconteça, isso simplesmente porque eu começo a prestar mais atenção do que deveria. É um bocado c...

Lilian

Queridos mamãe e papai, Por favor, perdoem a demora em escrever-lhes, reconheço que já passou meses desde que recebi sua última carta, as coisas andaram um bocado tumultuosas, confesso com franqueza, mas podem ficar descansados uma vez que tudo já está em seu devido lugar (ou pelo menos caminhando para isso). Admito que eu poderia ter-lhes enviado um e-mail ou pelo menos telefonado mais periodicamente nos últimos tempos, porém devo ressaltar que sou totalmente contra qualquer espécie de contato limitado por alguma instância (no meu caso de recessão, o custo da tarifa telefônica e mesmo a impessoalidade contida numa narrativa que não foi escrita por meu próprio punho, mas sim pela ponta de alguns dedos - um bocado vagarosos, aliás - pressionando teclas sujas de qualquer computador de qualquer café ou coisa que o valha já que, há algumas semanas, vendi o note book que trouxe comigo quando mudei-me para cá). Enfim, como é que vocês estão? Espero que tudo esteja bem e que todos estejam fel...