Ana por suas linhas
"Não é preciso dizer nada, basta olhar pela janela: o tempo esconde tudo. Nuvens brancas enfeitam o céu que, um ano atrás, era o mais estrelado, o mais limpo, mais profundo e mais feliz". Essas eram as palavras que piscam no viso do celular enquanto ele lia aquela mesma mensagem pela enésima vez. Golpe baixo, pensou, em todo caso, ela sabia o que dizia, sabia fazê-lo sentir-se um lixo completo. Não, na verdade, não era bem um lixo... Tratava-se da putrefação presente no lixo velho e amontoado ou, quem sabe ainda, pior que isso. Nunca mais sorrisos entre cortantes, nunca mais mãos entrelaçadas. Se já não se viam, falavam ou tinham qualquer outro tipo de contato que não fosse as frustrantes e ignoradas tentativas da parte dela, a culpa era toda dele. Culpa e indiferença resumiam tudo. Ela era inocente, ele tinha certeza disso. Quando finalmente colocou o celular de lado, lembrou-se que deixara alguma panela queimando no fogo. Bingo: o cheiro de queimado empesteava a cozinha qua...