Sem data
Querido Miguel,
A última coisa que faltei em responder-lhe foi o motivo pelo qual pedi que me devolvesse todas as cartas que um dia lhe escrevi.
Não há uma boa explicação para isso, assim como não há explicação contestável sobre os porquês de gostarmos ou não de uma pessoa logo na primeira impressão.
Logo que recebi de volta minhas próprias cartas, recolhi todos os envelopes datados pelo correio e me desfiz destes. Nunca coloco data naquilo que escrevo, é talvez um mau hábito que adquiri nos últimos anos e do qual não abdico e nem pretendo.
Gosto de ler o que escrevi sem saber ao certo quando foi ou porque foi feito. Gosto das angulações que minhas frases no papel causam ao se refletirem nos meus sentidos e sentimentos. Gosto de perceber que muitas vezes não cheguei a terminar as idéias, Miguel, e o texto acaba no vago, sem pontuação, nexo ou coordenada.
Devo gostar disso porque se assemelha à minha vida. O ir e vir de sensações e mesmo melancolias. A falta de sono por banalidades e indecências. O jeitão que o mundo impõe seus desafios e o modo como acatamos com todos eles, seja nas conveniências, na dor, no amor, na mágoa, na esperança, na desilusão ou simplesmente no cotidiano.
É tudo tão doido, Miguel! E o modo como me sinto, como encaro, como me concentro demais em determinadas coisas... De repente, aquela pequenininha tornou-se soberana e decidida e depois se mostrou vulnerável e machucada para enfim tornar-se indiferente.
O poço do amor incondicional secou, a dependência total que antes reinava, não passa de uma lembrança...
Somos muito mais auto-suficientes do que imaginamos, tão afogados em nossa arrogância e nosso egoísmo que quase perdemos a luta por não ver o tempo passar: ficamos cegos de tanto enrijecer nossa fortaleza de areia.
Passou um vendaval. Acabou. Nada a perder, nada a ganhar. Não vale a pena sofrer sem ter por onde.
Os inimigos, de repente são aqueles que nos são mais caros e próximos, os que mais sabem de nós.
Quando você não é aquilo que gostariam que você fosse, quando você sabe que tem papel ou quem sabe até uma parcela de culpa numa situação que está diretamente ligada à você mas onde tudo é subjetivo, evasivo. Talvez eu esteja enlouquecendo depois de tanto tempo, ou então, talvez eu seja um bocado distraída por não ter enxergado o que é óbvio.
Eu alimento sonhos, construo bases fantasmas, projetos invisíveis e ainda espero o mesmo olhar, os mesmos sorrisos, todas aquelas divagações que algum dia já foram muito importantes, muito presentes, muito nossas, uma vez que agora pertencem ao tempo. Sou uma prostituta do amor que sinto, vendo minha personalidade e minhas esperanças em função de uma recíproca nula, por motivos baratos. Depredo minha auto-estima e concordo com o crime, assumo as punições.
Hoje é uma noite de terça-feira de um céu limpo e uma lua cheia.
Hoje é a declaração do fim de uma era e do início de uma guerra.
Uma guerra de nós contra nós mesmos e todos os comodismos e as indulgencias.
Seja como for, eu estou aqui e vou armada até os dentes.
No outono frio do mês de junho de um ano qualquer.
Sua,
Luíza
A última coisa que faltei em responder-lhe foi o motivo pelo qual pedi que me devolvesse todas as cartas que um dia lhe escrevi.
Não há uma boa explicação para isso, assim como não há explicação contestável sobre os porquês de gostarmos ou não de uma pessoa logo na primeira impressão.
Logo que recebi de volta minhas próprias cartas, recolhi todos os envelopes datados pelo correio e me desfiz destes. Nunca coloco data naquilo que escrevo, é talvez um mau hábito que adquiri nos últimos anos e do qual não abdico e nem pretendo.
Gosto de ler o que escrevi sem saber ao certo quando foi ou porque foi feito. Gosto das angulações que minhas frases no papel causam ao se refletirem nos meus sentidos e sentimentos. Gosto de perceber que muitas vezes não cheguei a terminar as idéias, Miguel, e o texto acaba no vago, sem pontuação, nexo ou coordenada.
Devo gostar disso porque se assemelha à minha vida. O ir e vir de sensações e mesmo melancolias. A falta de sono por banalidades e indecências. O jeitão que o mundo impõe seus desafios e o modo como acatamos com todos eles, seja nas conveniências, na dor, no amor, na mágoa, na esperança, na desilusão ou simplesmente no cotidiano.
É tudo tão doido, Miguel! E o modo como me sinto, como encaro, como me concentro demais em determinadas coisas... De repente, aquela pequenininha tornou-se soberana e decidida e depois se mostrou vulnerável e machucada para enfim tornar-se indiferente.
O poço do amor incondicional secou, a dependência total que antes reinava, não passa de uma lembrança...
Somos muito mais auto-suficientes do que imaginamos, tão afogados em nossa arrogância e nosso egoísmo que quase perdemos a luta por não ver o tempo passar: ficamos cegos de tanto enrijecer nossa fortaleza de areia.
Passou um vendaval. Acabou. Nada a perder, nada a ganhar. Não vale a pena sofrer sem ter por onde.
Os inimigos, de repente são aqueles que nos são mais caros e próximos, os que mais sabem de nós.
Quando você não é aquilo que gostariam que você fosse, quando você sabe que tem papel ou quem sabe até uma parcela de culpa numa situação que está diretamente ligada à você mas onde tudo é subjetivo, evasivo. Talvez eu esteja enlouquecendo depois de tanto tempo, ou então, talvez eu seja um bocado distraída por não ter enxergado o que é óbvio.
Eu alimento sonhos, construo bases fantasmas, projetos invisíveis e ainda espero o mesmo olhar, os mesmos sorrisos, todas aquelas divagações que algum dia já foram muito importantes, muito presentes, muito nossas, uma vez que agora pertencem ao tempo. Sou uma prostituta do amor que sinto, vendo minha personalidade e minhas esperanças em função de uma recíproca nula, por motivos baratos. Depredo minha auto-estima e concordo com o crime, assumo as punições.
Hoje é uma noite de terça-feira de um céu limpo e uma lua cheia.
Hoje é a declaração do fim de uma era e do início de uma guerra.
Uma guerra de nós contra nós mesmos e todos os comodismos e as indulgencias.
Seja como for, eu estou aqui e vou armada até os dentes.
No outono frio do mês de junho de um ano qualquer.
Sua,
Luíza
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