Algum dia
Não sei se era pelas meias, ou então pelas calcinhas. Talvez pelas meias e calcinhas com que ela costumava dormir, não importava o tempo: sempre meias e calcinhas. Quem sabe foram as roupas jogadas no chão, aquelas que deveriam ser lavadas, ou pelo acúmulo de livros, papéis, desenhos e anotações que cobriam cada superfície vaga dos móveis de seu pequeno apartamento. Acho até que pode ter sido aquele apartamento pequeno e bagunçado, ao mesmo tempo gigantesco nas formas e cores que viam-se espalhadas por todo canto, formando uma vastidão de gostos e desgostos, gestos, sonhos e oportunidades, tentativas, abatimentos, preocupações, desleixo... Mas, apesar de toda a confusão, tudo parecia estar ocupando seu devido lugar na mais perfeita ordem do universo caótico que era o apartamento de Lia. Ainda não sei dizer o que foi que aquela mulher despertou em mim, desde o primeiro momento em que a vi. Suas caras e bocas para o mundo, seus sentimentos reservados e suas preocupações infantis preenchi...