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Mostrando postagens de fevereiro, 2010

Algum dia

Não sei se era pelas meias, ou então pelas calcinhas. Talvez pelas meias e calcinhas com que ela costumava dormir, não importava o tempo: sempre meias e calcinhas. Quem sabe foram as roupas jogadas no chão, aquelas que deveriam ser lavadas, ou pelo acúmulo de livros, papéis, desenhos e anotações que cobriam cada superfície vaga dos móveis de seu pequeno apartamento. Acho até que pode ter sido aquele apartamento pequeno e bagunçado, ao mesmo tempo gigantesco nas formas e cores que viam-se espalhadas por todo canto, formando uma vastidão de gostos e desgostos, gestos, sonhos e oportunidades, tentativas, abatimentos, preocupações, desleixo... Mas, apesar de toda a confusão, tudo parecia estar ocupando seu devido lugar na mais perfeita ordem do universo caótico que era o apartamento de Lia. Ainda não sei dizer o que foi que aquela mulher despertou em mim, desde o primeiro momento em que a vi. Suas caras e bocas para o mundo, seus sentimentos reservados e suas preocupações infantis preenchi...

Divagação Congelada

Uma vez ou outra, você pára e pensa friamente sobre tudo o que fez ou pensou a respeito de alguma coisa ou de alguém. Um pensamento racional, isento de lembranças saudosas ou sentimentos emotivos. E então você percebe que pode ser que esteja fazendo tudo errado desde o início. Pode ser que essa coisa toda não seja o que que você pensa ser e no fundo, ela seja a causadora do turbilhão de confusões e frustraçãoes que você viveu até então. Aquilo que era um álibi, torna-se na verdade o atestado de invalidez. Você está exposto ao ponto de estar sem rosto, pois até isso já foi arrancado de você, já foi roído e corroído e até a sua exposição é anônima. Você se tornou um merda e a coisa continua coisa, continua ali e você continua acreditando nela sendo que ela o suga, destrói e corrompe em larga escala, escancaradamente deixando o mundo em choque e você, invisivel. Você já teve a sensação de estar caindo num buraco sem fim, até notar que não estava caindo porra nenhuma... Ou então que a sua ...

Sorrisosincerosorrisosincerosorri...

Hoje, no ônibus, pouco antes de descer, num gesto expansivo (como a maioria dos meus gestos costumam ser) e sem querer, esbarrei em uma mulher que estava ao meu lado, de pé, também aguardando a parada do ônibus para descer. Ela me olhou de um jeito não identificável que poderia sugerir desdém ou censura, eu simplesmente olhei em seus olhos e sorri. Ela sorriu de volta espantada e depois ainda tornou a sorrir quando nossos olhares cruzaram-se novamente. Ela parecia na verdade, agradecida pelo esbarrão, e não rancorosa, como se aquele fosse o primeiro sorriso sincero que teve durante o dia. O meu definitivamente não foi o primeiro, nos últimos anos os meus dias têm sido preenchidos de sorrisos sinceros (alguns pavorosos, mas ainda assim sinceros). Nesse momento eu pensei em você. Fazia muito tempo que sua imagem não me vinha em mente e eu estava quase chegando ao ponto de sugerir que eu o havia apagado totalmente da minha memória, mas essas coisas só fazemos em filmes ou coisas que o val...