Escalas de Cinza

Essa noite eu tive um sonho muito estranho.
Bom, na maioria das noites eu tenho sonhos estranhos...
Sabe quando você é criança e passa o dia brincando com seus primos de super-heróis ou de cabaninha no quintal e então você assiste a algum filme ou desenho na sessão da tarde e daí de noite quando vai dormir tem uma viagem extraordinária num mundo de fantasia que mistura o que você fez durante o dia com aquilo que você gosta (ou não gosta) e com aquilo que você pensou, viu, ouviu ou imaginou e tal, aí na maioria das vezes você pode voar, ou você está em um navio pirata em alto mar, ou até num castelo mal assombrado e todo o resto?
Bom, comigo acontece todos os dias, como se eu ainda tivesse seis ou cinco anos (no fundo eu ainda gostaria de ter... Ou não, afinal, ser criança é barra-pesada, muito mais pesada do que ser gente grande - e olha que eu não sou lá tão grande assim...).
Enfim, eu costumo ter sonhos mirabolantes e acordar cansada, assustada, contente, triste, fazendo confusão do que é real e do que é imaginário logo de início, mas depois as coisas se ajeitam.

Sonhei essa noite que participava de uma festa de aniversário na casa de, ninguém mais e ninguém menos do que Frank Sinatra...
Tá, eu gosto um bocado do Frank, na verdade muito mesmo, mas já faz um bom tempo que não leio/escuto nada dele, por falta de tempo e oportunidade, sei lá, então a primeira coisa que me veio em mente foi "Da onde eu tirei Frank Sinatra no prezado momento?". Não sei.
Ontem, antes de dormir, estava assistindo um documentário no History Chanel que falava de Port Royal e como a cidade portuária foi enriquecida pelos piratas do século XVII que estabeleciam ligações ali e como era uma cidade libertina e blábláblá.
Portanto, se houvesse em meus sonhos alguma coisa relacionada à pirataria, grandes embarcações, prostitutas, Jamaica, rum ou coisa que o valha, não seria tão admirável (e assim sendo, não seria digno de uma notificação qualquer aqui) contudo, lá estava eu na festa de Frank-Blue-eyes.

Tratava-se de uma casa enorme, com uma gramado extenso e muita gente bem vestida e famosa, assim como pessoas 'normais' como eu. Os meus pais e meu irmão também estavam lá, e outras pessoas da nossa geração vestidas como se vestem no seu dia-dia, mas eu não conhecia ninguém além de meus pais e alguns convidados de Frank (os da velha guarda).
Pude ver sentados em sofás e poltronas, jogando cartas, tomando whisky e fumando charutos e cigarros figuras como Rock Hudson, Tony Lee Curtis, Cecil B. Demille, Billy Wilder, Laurence Olivier (sem o sotaque britânico, já que falava português) e enfim, uma infinidade de atores da época de ouro Hollywoodiana.
Transitavam pela casa dignamente vestidas, Ava Gardner (a ex de Frank Sinatra), Vivan Leigh, Grace Kelly, Bete Davis... BETE DAVIS???
Sim, lá estava ela com seu casaco de pele e seu cigarro entre os dedos, aquele olhar de olhos enormes e ar de desdém, logo que acordei pensei "Porra! Porque é que não fui falar com a Bete???".
Andei por toda a magnifica casa de Frank, reparei que numa sala qualquer estavam reunidos os grandões da máfia italiana com suas vozes marcantes e risadas sinistramente altas e longas (não que eu os reconheci de pronto, eu simplesmente sabia que eles eram quem eram... Essa coisa de sonho, saca?)

Logo então eu encontrei Frank Sinatra em pessoa e meu coração teve um disparo: éramos amigos íntimos.
Só quando Frank convidou-me para darmos uma volta aos arredores da casa que eu reparei uma coisa muito peculiar: ele estava em preto-e-branco.
Não só ele, mas todos os grandões de Hollywood nos anos 50 não tinham cor! Bete Davis estava lá com seus lábios rubros de batom, mas não era vermelho, era cinza escuro, assim como a cor de seus olhos e cabelos... Todos eles eram tingidos de escala de cinza enquanto eu, meus pais e os outros convidados que, provavelmente não eram daquela mesma época tinhamos nosso RGB muito bem definido assim como todas as coisas e pessoas o têm.
Fiquei encantadissima com tamanha crianção do meu inconsciente! nada mais lógico, afinal, a maioria dessas figuras eu só conheço em escala de cinza, seja por filmes ou fotos, apesar de todo o glamour, todo o brilho, a Hollywood dos anos 50 não passa de uma massa cinzenta aos olhos do mundo contemporâneo.
Isso é lindissimo! Não haveria melhor tom para definir uma época tão tumultuada, tão cheia de estrelas e ao mesmo tempo tão obscura, tão deprimida e enclausurada, tão cheia de lendas e histórias...

Pude sentir aquela atmosfera de aparencias e melancolias, ébria, falsamente alegre, um desfile de meticulosidades, um jogo de apropriações e favores, uma união de grande de casamentos desconfigurados e status desnecessário.
Ali, na cova das estrelas em preto-e-branco eu podia transitar livremente e quase despercebida, com minhas cores, meus sonhos, minha realidade...

Várias vezes eu percorri a casa com meu olhar procurando aquela loura de cabelos quase brancos que causava engarrafamentos quando saía na rua, mas não encontrei: Marilyn não estava lá.

Logo que acordei, pensei estar ainda presente no sonho, não sabia definir o que era imaginário ou lembrança. Não dei-me por contente.
Pesquisei na internet coisas a respeito de Frank Sinatra em relação á festas de aniversário (tudo indicava que alguém aniversariava ali, eu só não sabia ao certo quem era).
Encontrei algo realmente estarrecedor: Frankie-Blue-Eyes fazia aniversário cinco dias após o dia do meu próprio aniversário... Seria então uma festa de aniversário para ambos???
Não, apesar da magnifica coincidencia, a festa não estava com cara de que era de Frank, parecia mais uma festa surpresa, onde os monstros da atuação em escaletas acinzentadas aguardavam a chegada do homenagiado da noite.

Foi no telefone com uma amiga, narrando os fatos acima descritos que deu-se a hipótese para minha certeza supostamente final:

- Então, Tatá, só a Marilyn Monroe não estava lá... Já pensou se eu encontrasse com ela também?
- Pera, Flá, que dia a Marilyn Monroe faz aniversário?
- Ah, é dia primeiro de junho, só que dia primeiro de junho é... (linha de raciocinio) HOJE!
- Eita porra!!!

Pense o que tiver de pensar. Depois dessa, minha conclusão geral é que definitivamente não há maiores explicações ou coincidencias: essa noite eu fui a uma festa de aniversário-surpresa para Marilyn, e ela não estava lá.
Definitivamente, estava atrasada.
Felicidades, Norma Jeane.

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