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Mostrando postagens de fevereiro, 2008

De M. para R.

Caro doutor, Resolvi escrever-te esta manhã para agradecer-lhe as bonitas flores que me mandou semana passada. Sei que estou um pouco atrasada com essa gratidão, porém acredito que, como sabe, já era de se esperar. Na verdade, também lhe escrevo para confessar alguns pensamentos sombrios que passaram pela minha cabeça na tarde de ontem. A suíte do hotel já não me é tão sufocante agora que tenho tempo para circular pelos arredores . Faz alguns dias que reduzi a dose dos calmantes que costumava tomar antes de dormir. Como você mesmo me disse, admito que acordei mais disposta. Isso não significa que as coisas estão bem . Significa apenas que estão bem melhores desde a última vez. Não gosto nem de lembrar. Pois bem, peguei o trem em W. e fui até K. logo depois do almoço. Foi um passeio solitário, mas agradável. Estou reconhecendo a cidade aos poucos. Enquanto aguardava na plataforma, tive um súbito desejo de atirar-me nos trilhos quando o trem estivesse bem próximo. ...

Saudar saudade

Não era a primeira vez que eu via essa cena. Já era quase um clichê. Olhava no relógio de dois em dois minutos e constatava que a melhor maneira de alongar o tempo é usar-se da ansiedade. Ele estava atrasado poucos minutos. Não que eu estivesse realmente esperando pontualidade do serviço aéreo, em absoluto. Era realmente ansiedade. Tive medo de não reconhecê-lo, passar batido ou coisa que o valha, já fazia um bocado de tempo. Um ano e meio muda bastante coisa. Estava apreensiva, no duro. Quando finalmente seu vôo chegou, meus receios diluíram-se na excitação: eu o vira. Jamais poderia deixar de reconhecer aquela figura tão alta, tão esguia, tão familiar. O sorriso era o mesmo, assim como o olhar. Um pouco mais de cabelo, a barba ainda por fazer. Veio ao meu encontro com uma pressa que parecia tangir com a minha empolgação. Corri até ele. O abraço que eu estava esperando durante muito tempo, todos os dias, sem deixar passar um. Um beijo apertado. -Você cortou o cabelo! - censurou, sabia...

Conciliações

Conclusão da tragédia aquática: O terror durou mais cerca de duas horas , quando a água finalmente baixou e eu pude me esbaldar com o rodo e tudo o mais. A rua já estava vazia d'agua mas eram tantos carros que parecia quase a mesma coisa, pelo menos a angústia o foi. Encontrei dois amigos perdidos pelo turbilhão e juntos, rumamos para o outro lado da cidade em busca de abrigo e descanso. Tenho de admitir que foi um bocado engraçado. Todo mundo parecia estar fugindo de algo ou coisa que o valha. O melhor de tudo é que a aparência real das pessoas era a de quem fugia, assim como a minha: cabelos bagunçados, roupas encharcadas, sujeira até o pescoço, sapatos parecendo verdadeiras esponjas, relógios estragados e uma tentativa desenfreada de salvar os pertences mais valiosos, menos impermeáveis e devidamente eletrônicos em qualquer esconderijo possível, fosse em mochilas, malas, bolsos, decotes e aquela coisa toda. Ao mesmo tempo que todo mundo estava estressado com o trânsito, as ruas...

Natação

Preciso registrar isso. Onde eu estava? Trabalhando como de costume, talvez um pouco mais distraída ao som de 'Let the Sunshine in' da Julie Driscoll quando começou uma chuva torrencial por todos os lados. [Ok, minhas experiências com chuva não são lá das melhores, na verdade são bastante ruins, no duro, mas eu já me habituei a lutar pela sobrevivência até então.] De tempo em tempo, observava o chão ao meu redor para ver se não havia qualquer indício de alagamento ou coisa que o valha. A porta estava com a comporta e tudo, mas realmente estava (está?) chovendo um bocado. Não encontrei nada suspeito, compenetrei-me no que estava fazendo. Quando olhei pela segunda vez, não vi nada de diferente, a não ser o fato de que uma superfície bastante espelhada havia aparecido magicamente. Acredito que pessoas distraídas são comuns, mas o tipo de distração que eu costumo ter certas vezes, é fora de brincadeira. O que eu fiz? Não dei trela à superfície espelhada, 'Talvez já estivess...

Alucina -a- ação

Só acontece em dias como hoje. A cabeça parece ter sofrido uma espécie de pancada muito forte, a dor vem em movimentos sistemáticos, como se seguisse as notas de uma partitura musical. De dentro para fora. Pesa. As mãos estão quentes, tão quentes que aparentar estarem envolvidas por uma espécie de luva invisível, irreiterável. Estão quentes e ásperas também. É a mesma coisa com os pés. Os lábios parecem emitir silvos a cada palavra, ou então, assovios involuntários. Tudo se torna tão incômodo a ponto de não repararmos. Os olhos lutam para não se fecharem, lutam para enxergar, quase ardem. A respiração espaçada acompanha a latência na cabeça e aos poucos ambas convertem-se numa sonolência enigmática, invencível. Surgem seqüências de imagens. Minha mãe sentada no sofá, o aparelho televisor emitindo sons abafados pela forte chuva que alaga o quintal e escorre pelo vidro da janela mal trancada. O material do tapete deixa marcas dolorosas nos meus joelhos nus. O antigo agasalho feito de lã ...

C'est passionnant

Sempre fui do tipo que acredita que a insônia poderia ser uma grande vantagem, apesar de deveras desagradável em determinadas circunstâncias. Mudei de idéia durante algum tempo, mas não demorou muito e eu tornei a encará-la como aliada. Nas últimas semanas, comecei a estudar francês. Oui, monsieur, sempre tive uma gana para com essa língua, mas por falta de tempo e verba, abdiquei-me disso até então. Descobri que no site da BBC Inglesa , encontram-se cursos de línguas estrangeiras, disponíveis on-line, e o melhor: gratuitamente. À princípio, não dei muito crédito à simplicidade do vocabulário que ele apresenta. É um curso, literalmente, para você se virar pela França, nada mais. Situações como pegar um táxi, visitar um museu, ir ao restaurante, iniciar um diálogo e a frases de praxe para demonstrar cordialidade e aquela falsa facilidade com o idioma que qualquer curso rápido para turistas oferece de mão cheia. A parte interessante de tudo isso, é que realmente funciona. E-mails semanai...

Verdade (in)conveniente

Só hoje dei por mim e percebi que eu quase me acostumei à habitual organização que perdurou sobre meu quarto nas últimas semanas. Há menos de um mês joguei fora quilos e quilos de quinquilharias que estavam superlotando gavetas, prateleiras e cantos escuros. Praticamente todo ano faço isso, é quase um ritual de purificação se quiser usar um conceito esotérico. Se preferir um conceito habitual, é uma questão de asseio. Sou desorganizada por natureza, isso é fato, mas não significa que não sei viver com isso, em absoluto! Vivo muito bem. Tá, ok. Devo admitir que (talvez) tudo não passe de uma questão de preguiça algumas vezes, mas também é por falta de tempo e até praticidade. Por mais que tudo pareça estar claro e cristalino, não ouse abrir os armários ou coisa que o valha se não quiser saber de uma verdade tão inconveniente quanto a de Al Gore . É isso aí. Acredito que um quarto deve ter, não apenas os pertences pessoais da pessoa que o habita, mas também qualquer coisa na estética qu...

Boa noite, Moscou*

“ Acorde!”. Uma voz familiar sussurrou enquanto mãos indelicadas tocavam-lhe. Assustada, Ana vestiu-se às cegas, em meio à escuridão que calava o dia ainda não nascido. Estava confusa. Na cozinha, Walter conferia os armários enquanto Leonor, no andar de cima, certificava-se de que as janelas estavam bem fechadas. Um amontoado de malas e pacotes feitos com papel pardo aguardava-lhes na entrada da sala. Não levariam muita coisa. Ana sentou-se à mesa e não conseguiu comer, observava a movimentação silenciosa como quem assiste a um espetáculo. Voltariam ali algum dia? Era pouco provável. Desde a morte dos pais, tudo o que os dois irmãos faziam comentar era que a cidade tornara-se grande demais, aos poucos ia engolindo-os. Ana sabia que não esse não era o motivo da partida. Sabia que Leonor perdera o emprego na tecelagem e a deficiência na mão direita de Walter, causada pelo acidente, arruinava qualquer tentativa de conseguir algum emprego. As coisas não iam nada bem e, de fato, a cidade c...