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Mostrando postagens de agosto, 2008

Notas

Miguel, Já ia deitar-me quando lembrei de escrever-lhe. Peço desculpas por não ter sido assim tão clara em minhas idéias no último telefonema, os dias passados por aqui têm me deixado um bocado confusa. Obviamente eu já esperava um certo estranhamento ou coisa que o valha, afinal, passado tanto tempo não seria de se admirar, na verdade seria hipocrisia da minha parte acreditar que nossos gestos e mesmo convivência continuaria a mesma. Na verdade, tudo está exatamente em seu devido lugar. Logo que cheguei encontrei os mesmos bancos na praça, o mesmo jardim bem cuidado e as mesmas casas, uma ou outra com uma nova mão de tinta pelas paredes e qualquer inovação em se tratando de portas e janelas e todo o resto. O mercado continua igualzinho ao dia em que parti, assim como o clube com o grande gramado de futebol e o velho parquinho com as balanças de pneu. Os mesmos velhos com suas bicicletas enferrujadas e suas cartas amassadas sentados próximos à granja tomando qualquer coisa e jogando do...

A única menina perdida

Havia tantas feridas naquele coração, que mais parecia um mosaico turvo em remendos. Um pequeno coração para uma pequena garota: não tinha mais de um metro e sessenta. Fatalmente magoada, ela vagava o mundo em busca deles. Eles? Que eles? Quem eles? O quê eles? Aqueles que a deixaram aqui. Tudo era um grande jogo infantil e inocente (ou não tão inocente quanto se imagina, mas ainda assim, inocente). Sempre fora uma brincadeira de esconde-esconde. Sua solidão não tinha tempo para durar bem como o jogo não tinha tempo para acabar. Eles estavam por aí: os meninos perdidos que ela buscava. Não sabia quanto ia demorar. Eles estavam, talvez, perdidos não só em sua mente e lembrança, mas também pelo mundo inteiro. Não havia hora e nem lugar marcados para um encontro. Tudo seria fruto, não só da sua perseverança mas também do acaso. Uns ela encontrara facilmente. Outros ela perdera para sempre. Poucos era seria incapaz de enxergar. Besteira, uma coisa dessas, não é? Ou então a mais ingênua...

Espectro

Ela não queria nada muito além do que um espectro. Um simples espectro já seria capaz de enganar sua adoração aflorada, já seria capaz de embriagar-lhe os sentidos e camuflar, em partes, a dependência insanamente cruel à que ela estava destinada em se tratando dele. Seria impossível sobreviver se não houvesse pelo menos um espectro. Quem sabe assim, as horas passariam mais devagar e seus dias teriam um sentido menos lógico do começo ao fim: nada mais seria mecânico. Os impulsos eram imediatos, queria ligar, queria falar, queria mostrar e sentir o tempo todo, nunca estava contente com o que já possuía e suas pretensões eram infinitas. Seria-lhe mais adequado deitar-se e morrer do que continuar vivendo daquela maneira tão pungente e limitada. O espectro seria o ideal. Poderia então colocá-lo e mesmo carregá-lo por todas as partes e lugares por onde fosse. Deus! Será que era pedir demais? Não era questão de um capricho, era um necessidade. Fora mal acostumada desde o início e agora não sa...

Good Bye Norma Jeane

Loneliness was tough The toughest role you ever played Hollywood created a superstar And pain was the price you paid Even when you died Oh the press still hounded you All the papers had to say Was that Marilyn was found in the nude Há extatos 46 anos, Marilyn Monroe foi encontrada morta em seu apartamento, em Los Angeles. As causas e hipóteses de sua morte são infinitas, os argumentos são tamanhos e as provas são tão vastas, que a verdade tornou-se mito e para tal, pouco importa o que realmente ocorreu, uma vez que a simples imagem de Norma Jeane, é imortal. Já faz algum tempo, tenho estudado o assunto. De tudo o que li, vi, ouvi e intuí, não houve uma única vez em que deixei de me comover. Não se trata de uma estrela do cinema, trata-se antes de tudo, de um ser humano deturpado por sua posição, situação, atitudes e mesmo sua própria fraqueza de espírito. Não consigo deixar de achar um pouco cretino qualquer coisa que alguém escreva a esse respeito, mas encontrei algumas linhas num ...

Pena

E de repente, as pessoas perdem tudo simplesmente por não serem capazes de engolir o orgulho evidentemente exacerbado presente em sua personalidade ou mesmo fruto da própria teimosia que as lidera como um piloto-automático. Obviamente, eu não cheguei a essa conclusão por mim mesma. Ele me ajudou nisso tudo. Há alguns dias reli todas as cartas endereçadas por ele à mim. Elas estavam todas lá: amontoadas numa pasta larga de elástico vermelho, remexidas solenemente pelas mesmas mãos e perpassadas pelos mesmos olhos, porém talvez ainda um pouco imaturos ou muito sonhadores. Fiquei admirada que, por muito pouco, eu não reconheci a caligrafia, e depois dizem por aí que somos incapazes de esquecer determinadas coisas, isso é relativo. É evidente que pode ser quase impossível desligar-se de alguma lembrança por vontade própria ou simplesmente por excesso de sensibilidade a respeito, ou mesmo falta de. O fato é: as coisas só ficam de lado verdadeiramente quando encontramos algo para colocar em ...