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Mostrando postagens de 2016

Pequeno pensamento sobre as raízes (ou a falta delas).

Uma vez algu é m a quem amei muito me disse que eu parecia n ã o ter ra í z alguma. Pensei por muito tempo que que isso me definisse. N ã o crio ra í zes... Transito num espa ç o tempo complexo e independente, vazio, imprevis í vel, quase surreal. Nunca num lugar s ó . Isso sempre soou triste e abstrato, confuso, meio paradoxal... Até o dia em que resolvi assumir para mim mesma: eu gosto mesmo é de viajar. Estar por a í no mundo sem hora pra voltar pra casa, desbravando chuva, sol ou tempestade. Dia ou noite, s ó n ã o gosto de perder tempo. O meu lance é nunca ficar parada. Se eu paro, morro aos poucos. É como se o ato de criar ra í zes num ú nico lugar sorvesse algo de minha ess ê ncia, de minha alma. Parece po é tico e rom â ntico teorizar sobre isso, uma vis ã o narcisista de meu estado eterno de n ã o pertencimento, de cidad ã do mundo... Mas no fundo, é uma forma bastante polêmica de pensar a vida. Somos condicionados a criar v í nculos, construir cois...

Ensaio sobre como a loucura levou Alice ao abismo

Na lápide dela, num cemitério esquecido ao fundo do sanatório, uma carta esculpida em pedra, com letras desgastadas pelo tempo e pela amargura, iluminadas no clarão de um dia frio daquele mês de inverno, confissão sincera recolhida num breve momento de sanidade meses antes de sua queda fatal: "Conhecer-te foi um deleite. Paixão explosiva, imediata, quase como um raio. Um relâmpago de um amor que exasperava por ser vivido, consumido, que não podia ser contido, que não podia esperar. Necessidade desenfreada para que nossos corpos estivessem juntos, estivessem unidos num só. Minha alma bebia em sua alma a força para seguir em frente, minha visão turvou-se, todos os caminhos pareciam errados a não ser aqueles que me levariam até você. Vejo no que me tornei. Sou um rastro daquilo que um dia fui. Você me tomou tudo, não só o meu coração. Você tomou meu orgulho, meu sono e minha paz. Você tomou meu comedimento, minha disciplina, meus focos. Você deturpou meus sonhos e objetivos. Vo...

Esperar e partir.

Passava das onze horas de noite na rodoviária e de longe já era possível ouvir o cricrilar dos grilos que viviam nas árvores ao redor. Poucas pessoas se aglomeravam debaixo de um velho toldo amarelo, desbotado pelo sol e enferrujado pelo tempo. Caia uma garoa fina e chata, daquelas sorrateiras que quando menos se espera, ensopa roupas e malas. Todos procuravam se proteger do granulado d’agua ao mesmo tempo que tentavam não encostar uns nos outros.  “Porque será que as pessoas tem tanto medo do toque?” Pensou Sofia que observava de longe o jeito e a posição do aglomerado de pessoas que aguardava pelo ônibus da meia noite. Ajeitou a mochila nas costas, já fazia algum tempo que a estava carregando e conforme os minutos no relógio aumentavam noite adentro, aumentava também o peso sobre seus ombros. Olhou ao redor, nenhum lugar adequadamente seco para pousar a bagagem e dar folga ao corpo, o jeito era deixar como está. Suspirou. Espreguiçou-se levemente e pôde sentir um leve estralo ...