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Mostrando postagens de outubro, 2009

Gente

Querido Miguel, Eu não mudei quase nada. Estou aqui do mesmo jeito que você me viu pela ultima vez. Algo de mais maduro no olhar. Algumas pretensões esquecidas. Conquistas listadas, perdas e saudades. Quando percebi como estava o ‘dentro de mim’ preocupei-me. Tudo era carregado demais, pesado demais, imaginário demais. Tinha gente que ia e vinha por toda parte, ocupando espaço, causando espasmo, faltando o ar. Gente que causou mágoas profundas com palavras tão curtas e certeiras. Gente que partiu rápido demais. Gente que demorou tanto pra partir que acabou ficando. Gente pequena que uma vez eu encontrei na fila do teatro e me deu bala de goma. Gente que foi tão próxima e tão vital, mas que a vida afastou quase que definitivamente. Gente que se afastou porque quis, gente que se afastou porque o mundo quis, gente que se afastou porque a gente quis! Gente que ria um riso tão profundo como um rio e que causa lagrima nos olhos da gente só de lembrar como era sentir. Gente que fez mal, muito...

No espelho.

Ela olhou no espelho e contemplou o reflexo de uma mulher linda. Linda como uma rosa. Os cabelos lindamente despenteados, os lábios entreabertos, os olhos profundos e a face rósea. Um leve ar de cansaço e de insegurança juvenil na testa. Um arquear de sobrancelhas charmoso. O corpo, como uma construção curvilínea, no limite do excesso. Porém, tudo aquilo não passava de uma imagem. Dentro, era muito diferente. Pensou por um tempo o modo com que as mulheres estão sempre insatisfeitas com o que possuem. O modo com que estão sempre escondendo o pranto por trás do riso histérico. A paixão que as mulheres parecem ter pela mágoa, pelo rancor, pelo sofrimento. O poço que as mulheres cavam para se atirarem quando apaixonam-se por algum homem. O escárnio com que repelem as palavras amigas, criando um universo desconfiado e desiludido. As estratégias de depreciação que uma mulher cultiva dentro de si. O ódio mortal que nutrem umas pelas outras, sendo raras exceções quando permitem amizades verdad...

Na praça.

Raul sentado. Na praça. Raul sentado no banco da praça. Violão no colo. Gaita no bolso. Cartas na memória. As pessoas. Ir e vir sem razão. Gente que passa com pressa. Gente que canta em silêncio. Gente que chora escondido. A moça sentada. Na praça. A moça sentada no banco da praça. Sozinha. Bolsa no colo. Esperança nos lábios. Coração palpitando. O moço que chega. Na praça. O moço que chega na praça, vê a moça e não sorri. Pescoço tenso. Dentes rangendo. Língua áspera. A esperança da moça espreme, escapa. O moço senta. A moça fala. O moço parece não ouvir. A moça parece não entender. Corações pulsantes. Ruídos dissonantes. As mãos do moço. Gesticulam. As mãos da moça. Frias. Os olhos de Raul. Observam. O sol se pondo. No céu. Na praça. Na vida da moça. O moço levanta. Sai. Some na esquina. Os cílios da moça. Encharcam. A esperança da moça morre, evapora. Bolsa no colo. Esperança distante. Coração que se acalma. A moça sentada. Na praça. A moça sentada no banco da praça. Sozinha. Enxuga...