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Mostrando postagens de 2008

O pranto

Ontem quando estava já bem escuro, ela chorou. Chorou por tudo e por todos. Uma lágrima para cada um deles, uma lágrima para cada dia vivido até então. Um choro longo, longo, longo tão longo que logo amanheceu. Quando o sol já tingia de lilás as paredes do quarto, ela finalmente adormeceu. Mais tarde quando acordou, era uma nova mulher. A nova mulher não pertencia mais a ninguém e também não pertencia nem mais a si mesma: ela pertencia ao mundo e, em troca, o mundo lhe pertencia. Adquirira novos olhos para visualizar esse mundo tão novo e tão seu, e assim sendo, prometeu que jamais encharcaria esses novos olhos com o aguado de um pranto entrecortante numa noite qualquer. E foi o que ela fez.

For Sale - sem ironias

Essa semana estive limpando e tocando alguns LP's antigos e me peguei lendo a divertida introdução do estimado " Beatles For Sale ". Transcrevi-a aqui resumidamente, na íntegra ela é um bocoado extensa demais para o propósito da postagem: "Esse é o quarto LP dos Beatles (...) Beatles For Sale – Os Beatles à venda. Não quer dizer que os Beatles estejam á venda. Mesmo porque, não há dinheiro que pague. Trata-se apenas do LP, e esse você pode comprar. O dinheiro não é tudo. Quando daqui a 20 anos ou mais, uma criança, entendida em música, estiver num pique-nique em Saturno, e lhe perguntar quem eram os Beatles – “Você conheceu a época?” – não tente explicar tudo sobre os cabeludos e sua turbulência! Basta à criança tocar algumas faixas deste LP e logo entenderá tudo. Os jovens do ano 2000 extrairão da música mais sensação de bem-estar e ardor do que sentimos hoje, porque a mágica dos Beatles, desconfio, não tem limite de tempo nem idade. Ela venceu todas as barreiras. A...

Resenhando um estado

Se o amor fosse assim tão volúvel ou mesmo recíproco, não seria uma norma lingüística verbalizá-lo. O amor não seria um sentimento e sim, uma sensação ou até mesmo um estado. Se físico ou psíquico, não importa, o que realmente nos interessa é como o termo deve ser aplicado: ‘em estado de amar’. Todo estado é mutável, é apenas uma maneira de apresentar uma imagem ou coisa que o valha, nem sempre é sincero e quase nunca é verdadeiro. Todo estado é mutável pois está subordinado à exposição que sofre, ou seja, é frágil e influenciável, é destrutível e suscetível ao meio. O amor não tem estado. O amor não nasce e nem morre, ele simplesmente existe. Tudo o que existe é mutável, mas não no caso do amor. O amor não muda, ele se transforma. Mudar é deixar de ser algo para tornar-se outra coisa, é abandonar a formação original e abraçar uma nova composição. Transformar é continuar sendo na essência e apenas adaptar-se às circunstâncias. A diferença pode ser tênue, mas existe e é plausível. O que...

Tão longe

E desde a última vez que estive ali, nada parecia ter mudado, nem mesmo o cheiro de almoço que escorria por todas as partes da casa desde muito cedo, até o barulho de folhas ao vento, vindo do lado de fora, e a ligeira gritaria com as crianças. Vó Rosa cerzia fundilhos e velhas meias, enquanto vô José recontava histórias e mais histórias aos netos. Histórias dos dias de glória no futebol, quando foi chamado para jogar na seleção e só não aceitou porque já estava de casamento marcado. Repetia a história com o mesmo vigor de quando a contara pela primeira vez e de frase em frase lançava um olhar sorrateiro à velha esposa que fingia não perceber. Os meninos corriam pelo quintal, joelhos ralados, pés descalços sujos de terra vermelha, cabelos grudados no suor da testa. O dia parecia não ter mais fim. O sol modorrento pairava tranqüilo e muito vagarosamente ia tornando alaranjado o azul do céu que cobria a todos. Longe das ruas, das buzinas dos carros, da mudança climática, dos tantos apare...

Alô, alô

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...testando: tem alguém aí? Puxa vida, já fazia um bom tempo que eu não me dava ao luxo de postar alguma coisa aqui. O fato é que as coisas andavam realmente bagunçadas (literalmente também). A última semana foi, sem dúvida, muito esbanjadora, uma vez que não trabalhei (santíssima semana do saco cheio) e logo no início eu era uma pessoa cheia de planos e programas para realizar até o fim dela, ou seja, até hoje. No plano geral, conservo ainda o mesmo bom humor e empolgação, porém os planos e programas foram para o espaço e deixaram uma dúvida nada plena: o que é que está acontecendo com as horas do nosso dia? Sempre acreditei no fato de que o tempo deve ser algo psicológico (assim como dinheiro, já percebeu?) agora estou começando a acreditar que é na verdade, uma espécie de coelho branco com colete e relógio que não anda e sim salta apressado por aí nos deixando na mão (assim como dinheiro, já percebeu?)² Sinceramente, sim eu sei que tudo se trata de uma questão de manter ORGANÍ-ZADO,...

Dolor interior

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Angústia, crime, volúpia, paixão contida, desejo inflamável, tudo, nada, tudo outra vez e o vácuo. Uma tristeza repentina que promete domínio, loucura, promete ser eterna, tão eterna quanto um minuto pode ser. Palavras ao vento e sonhos despedaçados. Solidão. Ela olhou para o lado e ele não estava ali, e nem chegaria tampouco. Clara suspirou, observou ao redor e constatou que toda a vastidão do mundo se anulara por completo para seus olhos. Num instante ela tinha em seu campo de visão muito mais do que todo o ar que preenchia seus pulmões, ela o tinha fisgado ali, totalmente com ela. Seria isso verdade? No outro instante, ele ia para longe, afastava-se fisicamente do seu alcance e ficava cada vez mais aprisionado em sua mente. Clara amava uma imagem, essa imagem era clara. Clara, e não Clara. Tratava-se de uma utopia redundante e exagerada, apenas mais um ideal alimentado por suas fantasias de menina, já não tinha retorno e nem idade. Rendera-se ao ponto de crer que qualquer cor ou tom...

Banal(idade)

Sabe quando você assim de repente tem vontade de ser outra pessoa? Você deseja ser o homem bem vestido que viu na fila do banco, chegar em casa e combinar com os filhos de ir ao cinema no próximo domingo. Ou então a atendente da loja da esquina que vai passar o final de semana na praia junto com as irmãs. Quem sabe até um cara qualquer que anda de moto o dia todo pela cidade fazendo entregas ou buscando coisas. Não importa. Você simplesmente gostaria de viver como aquela pessoa por alguns instantes. Só isso. Não, não é culpa sua. Não é falta de interesse em sua própria vida, ou mesmo qualquer fuga referente a um problema ou obrigação pendentes, é um ato para simplesmente abandonar a rotina por um momento. A maioria das pessoas sempre parece ser tão decidida naquilo que faz ou que vai fazer. Parece saber exatamente o que quer ou para onde vai, sem nunca hesitar. Eu sou uma hesitação ambulante. E ainda por cima, gosto disso. Por mais que o ritmo do mundo seja diferente do meu, não está e...

Almoço conjugal em Los Angeles

- Arthur, eu não sei o que dizer... - Você sonha alto demais, Norma, não sabe o que quer e precipta-se nas cobranças erradas. O que deseja de mim? - Eu não desejo nada, querido. Eu simplesmente busco. - Busca o quê? - São banalidades, Arthur, banalidades necessárias para que uma mulher como eu sobreviva à um casamento. Nos dias de hoje, estar casado é trancar-se com um monstro entre quatro paredes sem janelas, não precisa ser assim com todo mundo... Eu não acho que precisa. - E o que é que eu devo fazer para tornar mais agradáveis essas quatro paredes, já que é impossível destruí-las do seu imaginário, suponho. - Eu não lhe peço nada, a não ser que não faça aquilo que não pretende e nem diga aquilo que não sente. Não é preciso muito mais do que carinho e compreensão Arthur, o desejo é consequencia disto e o amor, fruto da convivência. Dá-me um beijo com ternura antes de deitar-se mesmo que seus intentos sejam os de possuir meu corpo e calar-me com o calor de teu sexo enfurecido. Sorri...

(In)acreditável

Ontem foi o show do The Hives. Ontem. Foi. Show. The Hives. The Hives. The Hives. Falo sobre isso mais tarde, no momento só consigo pensar em uma coisa: Ontem foi o show do The Hives. Oh yeah.

Notas

Miguel, Já ia deitar-me quando lembrei de escrever-lhe. Peço desculpas por não ter sido assim tão clara em minhas idéias no último telefonema, os dias passados por aqui têm me deixado um bocado confusa. Obviamente eu já esperava um certo estranhamento ou coisa que o valha, afinal, passado tanto tempo não seria de se admirar, na verdade seria hipocrisia da minha parte acreditar que nossos gestos e mesmo convivência continuaria a mesma. Na verdade, tudo está exatamente em seu devido lugar. Logo que cheguei encontrei os mesmos bancos na praça, o mesmo jardim bem cuidado e as mesmas casas, uma ou outra com uma nova mão de tinta pelas paredes e qualquer inovação em se tratando de portas e janelas e todo o resto. O mercado continua igualzinho ao dia em que parti, assim como o clube com o grande gramado de futebol e o velho parquinho com as balanças de pneu. Os mesmos velhos com suas bicicletas enferrujadas e suas cartas amassadas sentados próximos à granja tomando qualquer coisa e jogando do...

A única menina perdida

Havia tantas feridas naquele coração, que mais parecia um mosaico turvo em remendos. Um pequeno coração para uma pequena garota: não tinha mais de um metro e sessenta. Fatalmente magoada, ela vagava o mundo em busca deles. Eles? Que eles? Quem eles? O quê eles? Aqueles que a deixaram aqui. Tudo era um grande jogo infantil e inocente (ou não tão inocente quanto se imagina, mas ainda assim, inocente). Sempre fora uma brincadeira de esconde-esconde. Sua solidão não tinha tempo para durar bem como o jogo não tinha tempo para acabar. Eles estavam por aí: os meninos perdidos que ela buscava. Não sabia quanto ia demorar. Eles estavam, talvez, perdidos não só em sua mente e lembrança, mas também pelo mundo inteiro. Não havia hora e nem lugar marcados para um encontro. Tudo seria fruto, não só da sua perseverança mas também do acaso. Uns ela encontrara facilmente. Outros ela perdera para sempre. Poucos era seria incapaz de enxergar. Besteira, uma coisa dessas, não é? Ou então a mais ingênua...

Espectro

Ela não queria nada muito além do que um espectro. Um simples espectro já seria capaz de enganar sua adoração aflorada, já seria capaz de embriagar-lhe os sentidos e camuflar, em partes, a dependência insanamente cruel à que ela estava destinada em se tratando dele. Seria impossível sobreviver se não houvesse pelo menos um espectro. Quem sabe assim, as horas passariam mais devagar e seus dias teriam um sentido menos lógico do começo ao fim: nada mais seria mecânico. Os impulsos eram imediatos, queria ligar, queria falar, queria mostrar e sentir o tempo todo, nunca estava contente com o que já possuía e suas pretensões eram infinitas. Seria-lhe mais adequado deitar-se e morrer do que continuar vivendo daquela maneira tão pungente e limitada. O espectro seria o ideal. Poderia então colocá-lo e mesmo carregá-lo por todas as partes e lugares por onde fosse. Deus! Será que era pedir demais? Não era questão de um capricho, era um necessidade. Fora mal acostumada desde o início e agora não sa...

Good Bye Norma Jeane

Loneliness was tough The toughest role you ever played Hollywood created a superstar And pain was the price you paid Even when you died Oh the press still hounded you All the papers had to say Was that Marilyn was found in the nude Há extatos 46 anos, Marilyn Monroe foi encontrada morta em seu apartamento, em Los Angeles. As causas e hipóteses de sua morte são infinitas, os argumentos são tamanhos e as provas são tão vastas, que a verdade tornou-se mito e para tal, pouco importa o que realmente ocorreu, uma vez que a simples imagem de Norma Jeane, é imortal. Já faz algum tempo, tenho estudado o assunto. De tudo o que li, vi, ouvi e intuí, não houve uma única vez em que deixei de me comover. Não se trata de uma estrela do cinema, trata-se antes de tudo, de um ser humano deturpado por sua posição, situação, atitudes e mesmo sua própria fraqueza de espírito. Não consigo deixar de achar um pouco cretino qualquer coisa que alguém escreva a esse respeito, mas encontrei algumas linhas num ...

Pena

E de repente, as pessoas perdem tudo simplesmente por não serem capazes de engolir o orgulho evidentemente exacerbado presente em sua personalidade ou mesmo fruto da própria teimosia que as lidera como um piloto-automático. Obviamente, eu não cheguei a essa conclusão por mim mesma. Ele me ajudou nisso tudo. Há alguns dias reli todas as cartas endereçadas por ele à mim. Elas estavam todas lá: amontoadas numa pasta larga de elástico vermelho, remexidas solenemente pelas mesmas mãos e perpassadas pelos mesmos olhos, porém talvez ainda um pouco imaturos ou muito sonhadores. Fiquei admirada que, por muito pouco, eu não reconheci a caligrafia, e depois dizem por aí que somos incapazes de esquecer determinadas coisas, isso é relativo. É evidente que pode ser quase impossível desligar-se de alguma lembrança por vontade própria ou simplesmente por excesso de sensibilidade a respeito, ou mesmo falta de. O fato é: as coisas só ficam de lado verdadeiramente quando encontramos algo para colocar em ...

Primavera em 1932

Nós costumávamos rir. Riamos nas noites de sexta feira e esses risos estendiam-se até o domingo á tarde, quando então, sucumbíamos à modorra inevitável sugerida pelos raios de sol amarelado que invadiam o quarto através do vidro da janela e se estendiam sobre a colcha amarrotada sobre a cama. Vez ou outra, raios sorrateiros escapavam pelo espaldar e atingiam o espelho da penteadeira, espalhando fragmentos de seu reflexo pelas paredes e pelo teto. O teto, fosco de madeira, apresentava marcas já inquestionáveis de umidade, fruto da longa data de sua existência, os cantos escondiam vestígios de outras cores de outras tintas outras vezes utilizadas. Os suspiros aumentavam com o pesar dos olhos bem como o calor, que apesar de tênue desconforto, tornava a sensação de estar ali a única digna de verdadeira importância e atenção. Estávamos vivos. Na rua, o dia morria lentamente, tingindo de rosa o azul do céu e de alaranjado as nuvens brancas que adornavam as casas e mesmo as arvores. Tudo era ...

Para Lilian

Lílian, Perdoe a minha ânsia em escrever-te ainda tão cedo, mas se o faço é simplesmente porque não consigo suportar a tua ausência. Hoje pela manhã, encontrei um dos teus pés de meia caído num canto do guarda-roupa, com toda certeza, ele deve ter sobrevivido à mudança no último mês e ficou ali com a enfadonha vocação de causar-me saudades quando eu viesse a encontrá-lo, bem, digamos que ele cumpriu bem o seu devido papel. Não, ainda não conheci outra garota que durma com um único pé de meia, se quer saber, não pude ignorar a lembrança. Sabe que, estou trabalhando num jornal pequenino, coisa cretina mesmo, no duro, aqueles jornais de anúncios sem importância que têm a promessa de serem distribuídos em qualquer estação de trem ou metrô, tudo gratuitamente, mas nunca se tem notícia de onde eles devem estar, as prateleiras de distribuição estão sempre vazias, e o logotipo do nome do jornal, enferrujado logo acima. Não me importo, para ser franco. Reviso os classificados que serão publicad...

Remorso

- Você não pode se comportar assim. - Eu disse a ele enquanto estávamos parados na esquina, aguardando o semáforo do cruzamento tornar a fica vermelho para os automóveis e assim, finalmente conseguirmos atravessar para o outro lado da rua. Nunca havia demorado tanto. Eu não poderia supor que aquela simples frase seria capaz de desencadear tamanho desconforto em Victor, juro. Sim, seria mentira dizer que costumo agir somente de uma maneira pensável e todo o resto, sei muito bem que meus instintos estão muito acima de qualquer discernimento razoável antes de tudo, mas se há algo que costumo fazer muito bem, é compreender quando estou indo longe demais, o único problema é que a proporção dessa compreensão só aparece depois que eu já estou deveras afastada daquilo que poderia ser considerado como um limite plausível numa situação constrangedora. Isso sempre acaba sendo um problema, chato pra burro. Percebi que aquilo o incomodara mais do que qualquer outra coisa que eu viesse a dizer-lhe....

(R)evolução

Meu irmão tem 13 anos. Tem 13 anos e é um cara muito inteligente. Ele fala japonês e manja até o que você nem pode imaginar sobre video-game e computadores. Ok, há dias em que ele não passa de um insignificante insuportável na minha opinião, mas isso é fruto do meu mau-humor diário ou coisa que o valha. Normalmente nos damos muito bem e ele é bastante maduro. Há algumas semanas, quando em férias, estávamos caminhando rumo à casa de minha avó para um almoço majestoso e todas as regalias das quais você pode desfrutar na casa de uma avó que não só é a mulher mais linda e mais doce do mundo como também é a melhor cozinheira que já se teve notícia, sem contar que ela tem uma espécie de sexto sentido e tudo, o que a faz adivinhar exatamente com qual sobremesa você esteve sonhando todas as noites no último mês. Eu me esbaldo com ela. Uma grande pena que não sobre lá muito tempo para visitá-la, mas sempre que possível (quando estou de folga ou mesmo aos domingos em que não há peças em cart...

Introspecção

A rua esguia, rua de todos os dias, estava como habitualmente, cheia de gente que ia e vinha com ou sem passos apressados e sacolas recheadas. Os carros reduziam a velocidade quando se aproximavam do cruzamento, os estabelecimentos estavam todos abertos e em pleno funcionamento como qualquer outro dia comum. Carmem andava do lado esquerdo da calçada sem notar o que acontecia à sua volta, tinha os pensamentos fixos no que pretendia fazer quando chegasse na próxima esquina, onde Marcelo a estava esperando. Na sarjeta, montes das folhagens do outono davam um tom amendoado ao clima cinzento de um dia nublado, mas esse é o tipo de coisa que passa despercebido aos olhares pouco curiosos de pessoas ordinárias bem como os acasos do cotidiano que aparecem de hora em hora. Ela ia ofegante, vasculhando o fundo da bolsa na procura de cigarros, onde é que eles estavam? Praticamente todos os dias de sua vida, nos últimos quatro anos, Carmem fazia e refazia aquele trajeto até o trabalho de modo que, ...

Preferida

Já fazia muito tempo que eu não entrava naquele lugar. Costumávamos estar ali todas as semanas, não importava a temperatura, a hora ou o dia... Sempre arranjávamos um jeito. Aos poucos, fomos nos tornando meio que ladrões do tempo. As pessoas estavam bitoladas, enterradas até o talo em seus compromissos e preocupações e nós não deixávamos de ter as nossas, porém elas eram simples fatos do cotidiano, não eram vitais para nossa sobrevivência no mundo. Ok, devo admitir que éramos um par de belos vagabundos, isso lá tem seu fundo verdadeiro, mas de toda forma e em todo caso, mesmo os vagabundos de marca maior conseguem ser um bocado ocupados quando não querem, éramos mais ou menos assim, ou coisa que o valha. Se paro e penso por muito tempo, me perco, acabo achando que sonhei, que tudo não passou de uma invenção do imaginário para me enganar e confundir, principalmente nos dias frios. Bobagem, existimos, não há como negar. O pinball estava quente e iluminado, como todas as vezes, de vez em...

Até então

- Vovó, conta uma história? O pedido ressoou na cabeça de Isabel por muito tempo. Conhecia muita histórias certamente, porém todas as quais já havia enjoado há muito tempo. Culpa da mania que as pessoas têm de repetir tantas vezes a mesma coisa. - Que história você quer ouvir, meu anjo? Angélica pensou por algum tempo. Isabel divertia-se com a inocência esbanjadora da neta. - Uma história de amor, vovó... Você conhece alguma? De amor. Aquela singela colocação arrancou um riso de Isabel. Não um riso de desprezo ou desdém, muito menos um riso maduro que os adultos costuma usar para demonstrar como acreditam ser superficial os sentimentos e mesmo opiniões de criaturas infantóides como as crianças, por exemplo. O riso de Isabel exprimia sua memória acima de qualquer sensibilidade aparente, funcionava como uma máquina do tempo onde ela era livre para ir e vir nas entranhas de um passado tumultuado e distante de sua atual realidade. A memória de Isabel vagueou então no mundo fundo que suas l...

Ana por suas linhas

"Não é preciso dizer nada, basta olhar pela janela: o tempo esconde tudo. Nuvens brancas enfeitam o céu que, um ano atrás, era o mais estrelado, o mais limpo, mais profundo e mais feliz". Essas eram as palavras que piscam no viso do celular enquanto ele lia aquela mesma mensagem pela enésima vez. Golpe baixo, pensou, em todo caso, ela sabia o que dizia, sabia fazê-lo sentir-se um lixo completo. Não, na verdade, não era bem um lixo... Tratava-se da putrefação presente no lixo velho e amontoado ou, quem sabe ainda, pior que isso. Nunca mais sorrisos entre cortantes, nunca mais mãos entrelaçadas. Se já não se viam, falavam ou tinham qualquer outro tipo de contato que não fosse as frustrantes e ignoradas tentativas da parte dela, a culpa era toda dele. Culpa e indiferença resumiam tudo. Ela era inocente, ele tinha certeza disso. Quando finalmente colocou o celular de lado, lembrou-se que deixara alguma panela queimando no fogo. Bingo: o cheiro de queimado empesteava a cozinha qua...