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Mostrando postagens de abril, 2007

Ortografia mineirinha

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Viagem frustrante a cidade de Monte Sião, em Minas Gerais, em algum ano anterior. Os maiores achados do passeio foram lugares inusitados para se fotografar, e casquinhos de lã a um preço exorbitantemente razoável. Foto tirada na manhã de nossa partida. Não satisfeita, dirigi-me à banca de jornal localizada em frente à praça da igreja e mostrei ao jornaleiro, um simpático senhor muito bem humorado. A princípio ele não encontrou o erro, tamanho talvez fosse o seu costume em relação àquela placa. Depois que eu o evidenciei, perguntei se nenhum morador nunca o percebera e fora até à alguma unidade responsável por isso para buscar a correção. Ele, com muita delicadeza, deu uma breve gargalhada e justificou: - Uai moça, mas isso tudo ia dar um trabalhão, porque teríamos que ir ateeeeeeeeeé a prefeitura e falar com um monte de camaradas, e esperar um monte de dias ateeeeeeeeeé eles resolverem arrumar... - Entendo... - E além do mais, essa daí nem é a rua principal, esse presidente aí até já ...

Chinelinhos de preconceito

Lá estava o boneco de plástico. Grande e brilhante. Colorido. Por detrás do vidro daquela grande vitrine no centro da cidade. A mais recente febre juvenil, não havia um só garoto que não tinha aquele boneco, ou algum similar. Nenhum, a não ser Gustavo. Lá estava Gustavo descalço. Sujo e mirrado. Pobre. Enfrente ao vidro daquela grande vitrine no centro da cidade. O mais sutil retrato da realidade, não havia muitos como ele por ali tampouco pelos arredores. Ninguém, morava longe. Todos os dias andava até ali, saía de casa bem cedo, ainda manhãzinha para que não tomasse muito sol durante o caminho. Chegava sempre perto da hora do almoço, quando podia ali ficar tempos e tempos observando cada detalhe, sonhando com cada acessório. Aproximou-se aindamais da vitrine, as mãozinhas sujas tocando o vidro e deixando algumas marcas, o hálito quente turvando a visão. Um brilho no olhar. Talvez um dia poderia chegar a tocá-lo! O filho de uma das mulheres para quem sua mãe lavava a roupa tinha um bo...

Logan e Nicole

Por um instante tudo parou. Era como se um grande véu de silêncio se apropriasse de todo o espaço, de modo que, nem os ponteiros do relógio conseguiam se fazer ouvir. Ele mostrava-se assustado, quase estranho, porém, não menos afoito do que ela própria. Ambos estavam ali, somente ali e bastava. Para ela bastava. Para ele não bastaria antes que estivesse dentro dela. As mãos buscavam a exploração daquele corpo, tão pálido, ardente. Suspiros. O fato de tudo ser tão arriscado era o que tornava cada minuto mais intenso. Nicole sentiu-se depravada, desprovida de toda, e qualquer, moralidade que pudesse ainda existir para com Beatriz. Para com ela mesma. Logan parecia não se importar, não pensar. Há tanto tempo almejara aquele momento que não seria a sua consciência que estragaria tudo. Ela entregara-se completamente ao seu domínio, isso o agradava, talvez fosse o que mais o excitava. Ter aquela mulher, tão madura e independente, em seus braços causava-lhe uma sensação de superioridade quase...

Terceiro Reich

Duas vezes, ela pensou. Duas vezes. Mas não havia meios. Ele sabia demais, e isso era um fato. Fato que não poderia ser negado, por mais que seu coração lhe gritasse para que o fizesse. Fez as malas cuidadosamente, ocupando-se em selecionar somente o estritamente necessário. Não poderia atrair olhares suspeitos na estação. Por um momento deteve-se ali, frente ao retrato do marido, que um dia a fizera feliz. Um dia. Suspirou. Não havia alternativa, ela sabia. Era uma questão de tempo até que ele os trouxesse ali. Sim, definitivamente ele sabia demais. Pensou em dar um telefonema ou dois, mas conteve-se ao concluir que poderia acarretar em questionamentos desnecessário e assim concomitantemente em preocupação demasiada. Colocou o retrato na mala três vezes e o retirou outras três. Teria de abandonar a tudo, não poderia dar-se ao luxo de ter lembranças, por mais que fossem distantes. Andou pelo quarto um pouco apreensiva, repassando cada passo que daria ao deixar a casa. Elaborou estrateg...

Pretensão [somente] pretensão

O que aconteceu com a gente? Ela perguntou com a voz pastosa. Ele continuou a encará-la. Silêncio. Um suspiro doloroso daqueles lábios ainda rubros de batom. Ela ainda usava os brincos da festa. O espaço de tempo entre suas ultimas palavras aumentava a cada instante, assim como a expressão de seu rosto. Não havia o que dizer. Ela virou-se de costas e foi até a varanda. Sem se importar com o que trajava, debruçou-se no peitoril e ficou a observar o mar. Eu não sei... Augusto disse-lhe com enorme hesitação. Ele realmente não sabia. Resposta errada. Ou talvez não, talvez não haveria ali uma resposta certa ou uma resposta errada, haveria somente uma resposta, ou nem isso. Não era preciso, no fundo, ambos sabiam de tudo. Mais algumas lágrimas daqueles olhos castanhos. Um momento de reflexão e foi a vez dela de encará-lo. O sol quente que a adornava na varanda fazia com que seu corpo começasse a transpirar. Os volumosos cachos que emolduravam seu rosto, agora grudavam em suas costas. Mas não...

Pombos

Nicole esperou. As horas corriam no relógio enquanto se encontrava sentada em sua mesa, no prédio onde trabalhava. Desenhos espalhados, esperando para serem terminados. Não tinha vontade. Brincava com o lápis por entre os dedos e observava com uma ligeira atenção, o balanço dos arbustos que o vento fazia dançar na pequena varanda. Olhou à volta, as mesas vazias. Estranho tudo aquilo. Estranho o fato de que preferia trabalhar sozinha numa manhã de domingo ao invés de realizar outros planos, como costumava fazer. Durante muito tempo ficou ali, fixada em pensamentos, era uma situação confortável, o silêncio, a tranqüilidade. Era quase uma hipnose. O telefone tocou estridentemente quebrando a atmosfera e tirando Nicole de suas reflexões num sobressalto. Atendeu ao gancho quase que imediatamente, o coração acelerado. - Alô? - Sim? -Nicole... Você vai...Vai ficar por aí muito tempo? Era Beatriz. Nicole pôde sentir o tom irritado de sua voz, irritado pelo fato de não estarem juntas naquele mo...

Final alternativo - O mistério da Família Cantrakart - parte I

A noite era clara e escura ao mesmo tempo...clara pelo prateado da lua que se refletia no lago do jardim como um espelho e causava uma iluminação natural naquele lugar...Um jardim tão vago, onde se escondiam lembranças por entre os canteiros... Onde risadas silenciadas grotescamente pela súbita frieza da morte estavam guardadas...Guardadas na memória de Alice... Guardada no vazio de seu coração... Nada mais lhe importava. O céu não tinha a mesma cor há anos, e os pássaros não cantavam mais, ela sabia... Mas mesmo assim lutara contra sua própria alma para esconder a ferida e a deixar sangrar lenta e dolorosamente. Por debaixo de tantas saias havia ali um coração, um coração sedento pelo sangue que vinha perdendo durante todo esse tempo. Podia olhar pra trás, afinal seus olhos ainda eram os mesmos... Mas o modo como via as coisas não. O mundo já não mais a inspirava. Viver de nostalgias não lhe era mais confortável... Tudo crescera a um ponto que se tornava insuportável... Desistira de t...

Possibilidades.

Beatriz se mostrava impaciente. Andava de um lado para o outro ficando atenta à qualquer indício do telefone tocar. Sentia-se errada. Não era do tipo que se contentava simplesmente em esperar. Costumava agir. Mas não seria ela quem agiria primeiro, sendo que não fora ela quem se propusera a fazê-lo. Antes tê-lo feito. Agora, só lhe cabia esperar. Uma certa ansiedade apoderava-se dela. Um certo receio. E se o telefone não tocasse? A resposta era simples: ela ficaria ali, as coisas continuariam como estavam. Nada que não fosse acontecer de qualquer modo, mas iria sentir-se muito contrariada. Definitivamente seria-lhe uma espécie de decepção. Precisava simplesmente, não pensar. Sentou-se na poltrona vermelha da sala de estar e esticou o braço para apanhar um livro na estante ao lado. Tentou, inutilmente, ler algumas linhas, mas o silêncio da casa, quebrado apenas pelos ponteiros do relógio na parede e pela algazarra nas casas vizinha naquele final de tarde de domingo, a impacientavam aind...

O despertar de Isadora - Noite das memórias

Fecha os olhos Isadora! Consegue ver os pares dançando? Ali! Ali! Veja Isadora... o desabrochar de uma rosa naquele salão, os pedaços de um coração...Esfarelado! Veja como brilham! Como é lindo! É linda a amargura alheia... As cores! Os vestidos! Consegue sentir os tecidos com teu simples olhar? E a imensidão de perfumes no salão de baile...Que rodopiam pouco a pouco lhe entontecendo, entorpecendo, enlouquecendo. E então há risos, sorrisos e olhos. Olhos famintos, famintos para vê-la tropeçar. Não deixe! Não deixe! E aqui está a caixa de jóias com a bailarina vermelha, que gira e gira, assim como tua cabeça, tua cabeça e o mundo...Era uma vez! Era uma vez e contam de novo. É uma noite extravagante. Alguém lhe abraça forte e segura. Sente tuas mãos Isadora! Sente! Sente e acorda! A carruagem vai longe, o galope dos cavalos estremece. O vento nos cabelos, o peito arfando. Entre veludo e fitas de cetim, era uma vez! É A NOITE DAS MEMÓRIAS! As memórias dançam no salão, saltitando, ao lado ...