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Carta de mil anos

Querido Miguel, Fico me perguntando onde é que você está, o que anda fazendo ou quem esteve conhecendo nos ultimos tempos. Fico imaginando o que fez no ultimo natal, com quem foi ao cinema num dia qualquer, as pessoas pra quem você ligou... Coisas que não me dizem muito respeito, mas que ficam ainda rondando meus pensamentos ás vezes uma vez a cada três meses e vez ou outra dia sim e dia não. Coisas das quais nunca vou me desligar totalmente. Cheguei aqui há tanto tempo e ainda não me adaptei totalmente, acho que nunca vou me adaptar. Não fiz novos amigos, acho que estou velha demais para isso. Em todos esses anos, conheci gente de tudo que é canto, de tudo que é jeito, de toda espécie e sem igual, contudo, ninguém com quem conversar as tantas longas horas dizendo muita coisa sobre nada, como nós costumavamos fazer. Acho que abstive-me dos amigos por sua causa. Esqueço-me que não vou mais encontrá-lo, que não estou simplesmente a algumas quadras de distancia de sua casa, ...

Pequeno pensamento sobre as raízes (ou a falta delas).

Uma vez algu é m a quem amei muito me disse que eu parecia n ã o ter ra í z alguma. Pensei por muito tempo que que isso me definisse. N ã o crio ra í zes... Transito num espa ç o tempo complexo e independente, vazio, imprevis í vel, quase surreal. Nunca num lugar s ó . Isso sempre soou triste e abstrato, confuso, meio paradoxal... Até o dia em que resolvi assumir para mim mesma: eu gosto mesmo é de viajar. Estar por a í no mundo sem hora pra voltar pra casa, desbravando chuva, sol ou tempestade. Dia ou noite, s ó n ã o gosto de perder tempo. O meu lance é nunca ficar parada. Se eu paro, morro aos poucos. É como se o ato de criar ra í zes num ú nico lugar sorvesse algo de minha ess ê ncia, de minha alma. Parece po é tico e rom â ntico teorizar sobre isso, uma vis ã o narcisista de meu estado eterno de n ã o pertencimento, de cidad ã do mundo... Mas no fundo, é uma forma bastante polêmica de pensar a vida. Somos condicionados a criar v í nculos, construir cois...

Ensaio sobre como a loucura levou Alice ao abismo

Na lápide dela, num cemitério esquecido ao fundo do sanatório, uma carta esculpida em pedra, com letras desgastadas pelo tempo e pela amargura, iluminadas no clarão de um dia frio daquele mês de inverno, confissão sincera recolhida num breve momento de sanidade meses antes de sua queda fatal: "Conhecer-te foi um deleite. Paixão explosiva, imediata, quase como um raio. Um relâmpago de um amor que exasperava por ser vivido, consumido, que não podia ser contido, que não podia esperar. Necessidade desenfreada para que nossos corpos estivessem juntos, estivessem unidos num só. Minha alma bebia em sua alma a força para seguir em frente, minha visão turvou-se, todos os caminhos pareciam errados a não ser aqueles que me levariam até você. Vejo no que me tornei. Sou um rastro daquilo que um dia fui. Você me tomou tudo, não só o meu coração. Você tomou meu orgulho, meu sono e minha paz. Você tomou meu comedimento, minha disciplina, meus focos. Você deturpou meus sonhos e objetivos. Vo...

Esperar e partir.

Passava das onze horas de noite na rodoviária e de longe já era possível ouvir o cricrilar dos grilos que viviam nas árvores ao redor. Poucas pessoas se aglomeravam debaixo de um velho toldo amarelo, desbotado pelo sol e enferrujado pelo tempo. Caia uma garoa fina e chata, daquelas sorrateiras que quando menos se espera, ensopa roupas e malas. Todos procuravam se proteger do granulado d’agua ao mesmo tempo que tentavam não encostar uns nos outros.  “Porque será que as pessoas tem tanto medo do toque?” Pensou Sofia que observava de longe o jeito e a posição do aglomerado de pessoas que aguardava pelo ônibus da meia noite. Ajeitou a mochila nas costas, já fazia algum tempo que a estava carregando e conforme os minutos no relógio aumentavam noite adentro, aumentava também o peso sobre seus ombros. Olhou ao redor, nenhum lugar adequadamente seco para pousar a bagagem e dar folga ao corpo, o jeito era deixar como está. Suspirou. Espreguiçou-se levemente e pôde sentir um leve estralo ...

O maior tesouro da Terra

La estava eu buscando algo que parecia praticamente impossível de ser encontrado: o porta incenso. Havia desaparecido desde a última mudança e eu nunca havia me dado conta disso, só agora que estava cansada de acender incensos em saleiros antigos ou tampinhas de garrafa, estava completamente disposta a encontrá-lo custasse o que custasse. E custava. Ele deveria estar, de acordo com meus cálculos, em algum lugar socado no sótão. Subi as escadas como quem vai fazer uma grande expedição e o aspecto geral lá em cima era mais ou menos esse mesmo. Sobre uma cadeira, comecei a vasculhar a prateleira empoeirada repleta de caixas, sacos e pacotes, repleta também de teias de aranha e das mais asquerosas residências de insetos bizarros. Foi como xeretar pela tumba do mais antigo faraó de todo o Egito Antigo, tal era a variedade de coisas estranhas e esquecidas que lá se encontravam. Alguns minutos e eu já estava completamente desligada da minha busca inicial pelo porta incenso, tamanha era a surp...

Como é que era mesmo?

Mais ou menos assim. Noite fria. Ele estava arrogante. Ela, bonita. Sorrisos dispersos, olhares difusos. Evitavam estar ali, pareciam tentar de uma maneira cruel e insana transportar-se para bem longe, longe um do outro. Era evidente. Isso no caso dele. No dela, era diferente. Foi ele quem começou. -Olha, eu não quero magoá-la ainda mais... Frio e calculista. Ela observou irritada. Qual era a daquele jogo todo? Ele parecia ter pressa, parecia querer distância. Depois de tudo... -Se tem uma coisa que eu não sou, é oferecida. Você não precisa ficar assustado. - Ela interrompeu. Posso ser bem jovem ainda, mas eu bebo, fumo e não sou mais virgem. Se isso vai contra os seus princípios, ou se não é bom o suficiente para você, já não é mais problema meu. Deu-lhe as costas e desatou a subir a rua escura e deserta. Se ele realmente quisesse, viria atrás dela. Ela não podia mais esperar. Por dentro, ardia. Foi o único. O único que ela desejou ardilosamente que a seguisse, que f...

Minha.

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E lá estava ela. Os olhos fechados, a expressão suave num sono profundo. Aproximei-me lentamente, com passos leves, taciturnos. Aos poucos ela percebeu minha presença. Abriu os olhos com dificuldade por conta da claridade. Contemplou-me sonolenta, a cara amassada de quem dormira um longo e gostoso cochilo. Quase sorria. Sentei-me ao seu lado enquanto ela se espreguiçava com vigor. Aos poucos foi se aninhando junto a mim, natural e carinhosamente. Acariciei sua cabeça, orelhas, seu pequeno corpo. Ela contraiu-se levemente como sinal de aprovação, como sinal de prazer. Seus olhos negros feito jabuticabas oscilavam entre a curiosidade em me observar e a força intransponível do sono. O sol de inverno ia e vinha por entre as nuvens, aquecendo-nos timidamente. Podia sentir sua respiração muito próxima de mim, observar a palidez de seu corpinho refletida na luz solar. Ficamos ali por muito tempo, juntas, enroscadas naquela modorra sonolenta e prazerosa, em meio a carinhos e cochilos. Pude ou...