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Mostrando postagens de 2010

(Pequena) Carta para minha mãe

Querida irmã, amiga, companheira e mãe, Gosto de escrever cartas, sempre gostei. Acho os cartões muito breves e os emails muito impessoais. Gosto mais ainda de escrever cartas para aqueles que me são caros, importantes e amados. Escrevo-lhe, não porque é natal ou qualquer coisa que o valha, mas pelo simples fato de me sentir intuída a isso, pelo fato de nos conhecermos há tantas eternidades. Vivemos num mundo de leões e cordeiros onde nada é o suficiente: já nascemos todos levemente insatisfeitos. Pessoas compram carros, casas, fazem viagens, se casam, têm filhos, abrem empresas, estudam, aprendem uma nova língua... Cada um tem a sua maneira de realizar seus sonhos e desejos. De um tempo pra cá, aprendi verdadeiramente o que é a vida: um constante realizar de sonhos. Sonhos de todos os tipos, cores, sabores, estilos e tamanhos. às vezes realizamos alguns, às vezes os transformamos, reformulamos, às vezes os guardamos para outra oportunidade, mas eles existem e estão al...

A última lembrança.

A última lembrança que tenho de Victor data de quase dez anos atrás. Eu estava vestindo pijama, chinelos de flanela e meias coloridas quando ele tocou a campainha sem sucesso, pois o som estava um pouco alto e não pude ouvir a campainha nem seus gritos. Sua chegada foi anunciada pelo cachorro que corria agitado pela casa, latindo freneticamente e logo imaginei que alguém esperava no portão. Quando olhei pelo pequenino olho mágico, não pude reconhecer aquela figura maltrapilha e molhada, fazia um tempo cruel de forte chuva e vento frio, o céu estava bastante cinza e a visão da gente fica um pouco embaçada nesse ambiente. Sem reconhecê-lo, imaginei que fosse alguma entrega dos correios ou coisa que o valha e, envergonhada pelos meus trajes amarrotados, corri até o quarto e vesti um moletom sobre o pijama enquanto gritava para que aguardasse por um instante o visitante incógnito. Ao abrir a porta foi como se meu coração parece por um segundo e eu não sabia muito bem o que fazer, o que diz...

Do you wanna revolution?

Engraçado como as pessoas têm a palavra 'doido' ou 'maluco' como uma denominação pejorativa e até agressiva ou humilhante em algumas de suas aplicações. Às vezes fico pensando se essas pessoas, seja quem for esse coletivo anônimo e inigualável, conhecem o verdadeiro sentido dessas reais palavras. Não sei, há alguns anos eu não tenho tido mais sangue ou mesmo determinação para ser mais uma difusora de idéias incompráveis, uma inimiga do 'sistema' que se diz qualificada para apresentar às pessoas as 'verdades' que o mundo esconde. Não tenho qualquer vocação para tornar-me uma vegetariana convicta ou aquela coisa vegan (com todo o respeito aos adeptos desse 'estilo' ) simplesmente porque sou bacana e quero um mundo mais justo e bonito que respeita todos os seres existentes a começar pelos animais e a natureza. Também não estou disposta a comprar a briga do Greenpeace e ir pichar plataformas petroliferas ou fazer denuncias em monumentos internac...

Quando eu era menino (última parte)

Observei com certa sensibilidade aquela minha situação. O pequeno e caro café que havia acabado de tomar por quatro dólares, o interessante chocolate mentolado que o acompanhara e o maravilhoso cigarro que precedera á ambos foram sem duvidas as melhores escolhas para a satisfação dos meus desejos até então. Apesar da interferência sonora causada pela infinidade de carros e pessoas e vozes e passos e celulares ali atuantes , eu podia sentir e ouvir o som do vento que corria gélido esvoaçando árvores e cachecóis. No céu, a lua em C parecia sorrir para mim, para mim apenas. Dividindo com ela o cor-de-rosa do crepúsculo , algumas estrelas convencidas que lutavam para imporem seu brilho distante ao céu ainda claro de poente. Apesar do peso dos pacotes e das responsabilidades, eu me sentia leve e se o vento fosse mais ameno, poderia me imaginar flutuar sobre os fios e calçadas daquele mundo de concreto e luzes que era Nova York. Já não sentia mais saudades de casa ou de qualquer nostalg...

Uma questão (pouco) importante

As coisas não costumam seguir um único fluxo. Por isso não a credito em destino, e nem em formulações pressupostas . Se não fosse isso, seria outra coisa, ponto final. As vezes nos comprometemos, nos incumbimos de presentear o mundo com nosso sucesso, seja lá o que isso significa, custe lá quanto isso deve custar. E, por mais ridículo que tudo isso soe, no nosso inconsciente, é isso o que nos move, é isso que invoca em cada pessoa a angústia, a impotência , a incerteza de não saber do amanhã, não saber do resultado, do produto final, de todas as apostas. E então os riscos parecem maiores, as preocupações parecem gigantes, as responsabilidades parecem não ter mais fim. E todos nós ficamos pequenininhos e insignificantes . Mas, de repente, num momento qualquer você acorda e percebe quanto tempo perdeu durante sua vida dormindo (não no sentido literal da coisa) mas dormindo em suas expectativas, seus planos e suas funções como ser integrante de um meio único que interfere em todos ...

Horizontes clandestinos

Quantas noites mal dormidas, Alice tivera desde então. Era como se, a qualquer instante, veria surgir no horizonte a silhueta daquelas compridas velas ou a bandeira Jolly Roger estampada. Histórias de pirataria existem em todos os livros, porém viver uma era completamente diferente de tudo o que se pode ler sobre o assunto. A sensação de fazer parte de um submundo marítimo, exerce muito mais estranheza do que fascínio. O misto de expectativa e de pavor está sempre presente. Alice caminhava afoita pela cidade, como se cada rosto, cada olhar ali a condenasse, como se desenterrassem seu passado com sopros de hipocrisia e assim, julgassem-na injustamente por aquilo que ela fez e também deixou de fazer. Agora entendia porque Lockery dissera: "Uma vez pirata, para sempre pirata." Já não vivia em um navio, não acatava ordens ou comandos nem participava de pilhagens ou visitava horizontes clandestinos, porém era uma pirata nata e não havia o que fazer para destituir isso de seu passa...

Quando a voz da gente falha

Ela espreguiçou-se demoradamente sobre o estofado macio do novo sofá da sala. Por um momento deixou que o silêncio daquele ambiente lhe trouxesse alguma coisa parecida com paz, alguma coisa diferente da solidão e da melancolia que vinha sentindo há tantos anos. Fechou os olhos por alguns instantes e deixou-se entregar a algumas memórias, recordações felizes que eram capazes de trazer calor ao seu coração, mesmo que fosse por uma ínfima parte de segundo. De repente, estremeceu. A sala ampla e silenciosa, de móveis novos e modernos, aparelhos tecnológicos e uma decoração de alto estilo e bom gosto talvez fosse grande demais para abrigar uma única pessoa, parecia que uma massa fria vagava por aquelas paredes e por mais quente que o dia estivesse, aquelas paredes eram sempre frias e difusas. Apesar dos quadros nas paredes, dos pôsteres finamente escolhidos e de todo o acabamento interior que possuía naquele ambiente, era como se Laura estivesse num galpão de concreto, frio e rústico, vazio...

Algum dia

Não sei se era pelas meias, ou então pelas calcinhas. Talvez pelas meias e calcinhas com que ela costumava dormir, não importava o tempo: sempre meias e calcinhas. Quem sabe foram as roupas jogadas no chão, aquelas que deveriam ser lavadas, ou pelo acúmulo de livros, papéis, desenhos e anotações que cobriam cada superfície vaga dos móveis de seu pequeno apartamento. Acho até que pode ter sido aquele apartamento pequeno e bagunçado, ao mesmo tempo gigantesco nas formas e cores que viam-se espalhadas por todo canto, formando uma vastidão de gostos e desgostos, gestos, sonhos e oportunidades, tentativas, abatimentos, preocupações, desleixo... Mas, apesar de toda a confusão, tudo parecia estar ocupando seu devido lugar na mais perfeita ordem do universo caótico que era o apartamento de Lia. Ainda não sei dizer o que foi que aquela mulher despertou em mim, desde o primeiro momento em que a vi. Suas caras e bocas para o mundo, seus sentimentos reservados e suas preocupações infantis preenchi...

Divagação Congelada

Uma vez ou outra, você pára e pensa friamente sobre tudo o que fez ou pensou a respeito de alguma coisa ou de alguém. Um pensamento racional, isento de lembranças saudosas ou sentimentos emotivos. E então você percebe que pode ser que esteja fazendo tudo errado desde o início. Pode ser que essa coisa toda não seja o que que você pensa ser e no fundo, ela seja a causadora do turbilhão de confusões e frustraçãoes que você viveu até então. Aquilo que era um álibi, torna-se na verdade o atestado de invalidez. Você está exposto ao ponto de estar sem rosto, pois até isso já foi arrancado de você, já foi roído e corroído e até a sua exposição é anônima. Você se tornou um merda e a coisa continua coisa, continua ali e você continua acreditando nela sendo que ela o suga, destrói e corrompe em larga escala, escancaradamente deixando o mundo em choque e você, invisivel. Você já teve a sensação de estar caindo num buraco sem fim, até notar que não estava caindo porra nenhuma... Ou então que a sua ...

Sorrisosincerosorrisosincerosorri...

Hoje, no ônibus, pouco antes de descer, num gesto expansivo (como a maioria dos meus gestos costumam ser) e sem querer, esbarrei em uma mulher que estava ao meu lado, de pé, também aguardando a parada do ônibus para descer. Ela me olhou de um jeito não identificável que poderia sugerir desdém ou censura, eu simplesmente olhei em seus olhos e sorri. Ela sorriu de volta espantada e depois ainda tornou a sorrir quando nossos olhares cruzaram-se novamente. Ela parecia na verdade, agradecida pelo esbarrão, e não rancorosa, como se aquele fosse o primeiro sorriso sincero que teve durante o dia. O meu definitivamente não foi o primeiro, nos últimos anos os meus dias têm sido preenchidos de sorrisos sinceros (alguns pavorosos, mas ainda assim sinceros). Nesse momento eu pensei em você. Fazia muito tempo que sua imagem não me vinha em mente e eu estava quase chegando ao ponto de sugerir que eu o havia apagado totalmente da minha memória, mas essas coisas só fazemos em filmes ou coisas que o val...

Quando eu era menino (parte I)

Ainda lembro com certa saudade dos passos firmes de meu pai no velho e barulhento assoalho da casa. Lembro de minha mãe em suas saias de cetim estendendo os lençóis no varal num dia quente de verão. Lembro dos cães deitados no gramado bem cuidado do jardim enquanto o dia morria num fim de tarde ensolarado. Mesmo que fosse grande e vazio, o velho casarão onde morávamos parecia aconchegante e familiar, à mim e meu irmão Heitor. Podíamos correr pelos corredores do segundo andar contanto que não sujássemos os tapetes que mamãe lavava com tanta resignação, por isso, brincávamos descalços. Mamãe era jovem e linda. Das vagas lembranças que me surgem, estava sempre em silencio, trabalhando e cuidando daquela casa imensa. Na verdade, não me recordo muito de sua voz, ela parecia estar sempre calada, até mesmo quando ria. A não ser é claro quando ela cantava. Nem um anjo seria capaz de cantar como minha mãe cantava. Os seus lábios pareciam beijar cada palavra que por eles era pronunciada e seus o...

Comoção

Era uma noite quente de verão. A chuva que caíra com força durante o final da tarde, só fez aumentar ainda mais a sensação térmica, ao menos agora, o ar estava mais úmido e olhos não ardiam tanto. Ardiam talvez em função do quanto ela chorara naquele dia. Aquele choro emocionado e contido, que dói na garganta por não poder soluçar. Não era nada demais, só tinha assistido um filme. Naquele instante, a fronte quente de um dia de sol e os pés doloridos de um sapato mal escolhido, ela parou para ouvir por alguns segundos sua própria respiração: ofegava sem ter motivo. Os olhos ainda um pouco inchados, pareciam um pouco mais aéreos do que de costume, o peito um bocado mais leve. Na boca, ainda o gosto salgado do choro, a pele do rosto retesava lágrimas já secas. Uma sensação momentânea de apatia foi preenchida por um sentimento inédito e ela não soube definir se era contentamento ou comodismo. Achou estranho, ambos não eram similares mas também não poderiam ser classificados como bons ou ru...