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Mostrando postagens de 2009

Gente

Querido Miguel, Eu não mudei quase nada. Estou aqui do mesmo jeito que você me viu pela ultima vez. Algo de mais maduro no olhar. Algumas pretensões esquecidas. Conquistas listadas, perdas e saudades. Quando percebi como estava o ‘dentro de mim’ preocupei-me. Tudo era carregado demais, pesado demais, imaginário demais. Tinha gente que ia e vinha por toda parte, ocupando espaço, causando espasmo, faltando o ar. Gente que causou mágoas profundas com palavras tão curtas e certeiras. Gente que partiu rápido demais. Gente que demorou tanto pra partir que acabou ficando. Gente pequena que uma vez eu encontrei na fila do teatro e me deu bala de goma. Gente que foi tão próxima e tão vital, mas que a vida afastou quase que definitivamente. Gente que se afastou porque quis, gente que se afastou porque o mundo quis, gente que se afastou porque a gente quis! Gente que ria um riso tão profundo como um rio e que causa lagrima nos olhos da gente só de lembrar como era sentir. Gente que fez mal, muito...

No espelho.

Ela olhou no espelho e contemplou o reflexo de uma mulher linda. Linda como uma rosa. Os cabelos lindamente despenteados, os lábios entreabertos, os olhos profundos e a face rósea. Um leve ar de cansaço e de insegurança juvenil na testa. Um arquear de sobrancelhas charmoso. O corpo, como uma construção curvilínea, no limite do excesso. Porém, tudo aquilo não passava de uma imagem. Dentro, era muito diferente. Pensou por um tempo o modo com que as mulheres estão sempre insatisfeitas com o que possuem. O modo com que estão sempre escondendo o pranto por trás do riso histérico. A paixão que as mulheres parecem ter pela mágoa, pelo rancor, pelo sofrimento. O poço que as mulheres cavam para se atirarem quando apaixonam-se por algum homem. O escárnio com que repelem as palavras amigas, criando um universo desconfiado e desiludido. As estratégias de depreciação que uma mulher cultiva dentro de si. O ódio mortal que nutrem umas pelas outras, sendo raras exceções quando permitem amizades verdad...

Na praça.

Raul sentado. Na praça. Raul sentado no banco da praça. Violão no colo. Gaita no bolso. Cartas na memória. As pessoas. Ir e vir sem razão. Gente que passa com pressa. Gente que canta em silêncio. Gente que chora escondido. A moça sentada. Na praça. A moça sentada no banco da praça. Sozinha. Bolsa no colo. Esperança nos lábios. Coração palpitando. O moço que chega. Na praça. O moço que chega na praça, vê a moça e não sorri. Pescoço tenso. Dentes rangendo. Língua áspera. A esperança da moça espreme, escapa. O moço senta. A moça fala. O moço parece não ouvir. A moça parece não entender. Corações pulsantes. Ruídos dissonantes. As mãos do moço. Gesticulam. As mãos da moça. Frias. Os olhos de Raul. Observam. O sol se pondo. No céu. Na praça. Na vida da moça. O moço levanta. Sai. Some na esquina. Os cílios da moça. Encharcam. A esperança da moça morre, evapora. Bolsa no colo. Esperança distante. Coração que se acalma. A moça sentada. Na praça. A moça sentada no banco da praça. Sozinha. Enxuga...

Clandestinas

Hoje, voltando pra casa, fiquei um tempão pensando naquele tempo. No tempo das grandes descobertas e mutações. No tempo em que tudo era intenso, irreversível, efêmero. Quando, em noites como esta ou qualquer outra, íamos sem medo ou receio, pra qualquer lugar, pra todos os lugares (e sem dinheiro também!). Se eu dissesse: "Quero conhecer a Lua!" você dava um jeito de conseguir uma passagem. Se você dissesse, quero pintar o céu de amarelo, eu roubava o maior pincel que encontrasse. E assim a gente ia. Nos tortos e direitos de nossa vida adolescente, sem hora marcada pra sair, sem dia certo pra voltar. Íamos intensas e glamorosas... Muitas vezes sem trocar de roupa! Éramos as verdadeiras estrelas no abismo do espaço. Fiquei pensando em quantas vezes fizemos tudo com uma discrição de gângsteres, mais sutis que matadoras de aluguel... E todas as vezes que causamos o furor de parar o mundo, nem que fosse por um milésimo de segundo. Quando descemos aquele tapete vermelho, vaporosas...

Pequena Laura

Já fazia muito tempo que ela chorava assim, tão de repente. Desde que tudo aquilo tivera início, alguns anos antes ela já sabia em que buraco estava se metendo. Buraco? Talvez esse não fosse o melhor termo, mas foi o primeiro que lhe veio em mente. É muito complicado viver nesse mundo de gigantes quando não se tem muito mais de um metro e sessenta. As coisas costumam tomar rumos que nos fogem o controle algumas vezes, isso em todos os sentidos da vida. O problema com Laura é que ela nunca tivera controle nem sobre a própria respiração, agora então, sentia-se completamente desamparada. Não saberia descrever se era tristeza ou algum vestígio de orgulho ferido. Ela gostava de acreditar que era arrependimento, mas no fundo sabia que não era. Sim, admitia que muitas vezes sentira-se tremendamente traída consigo mesma por ter decidido ficar quando teve a oportunidade de partir, mas ela sabia que não trocaria tudo o que tinha construído, tudo o que ruíra e tudo o que vinha ainda acontecendo p...

Sem data

Querido Miguel, A última coisa que faltei em responder-lhe foi o motivo pelo qual pedi que me devolvesse todas as cartas que um dia lhe escrevi. Não há uma boa explicação para isso, assim como não há explicação contestável sobre os porquês de gostarmos ou não de uma pessoa logo na primeira impressão. Logo que recebi de volta minhas próprias cartas, recolhi todos os envelopes datados pelo correio e me desfiz destes. Nunca coloco data naquilo que escrevo, é talvez um mau hábito que adquiri nos últimos anos e do qual não abdico e nem pretendo. Gosto de ler o que escrevi sem saber ao certo quando foi ou porque foi feito. Gosto das angulações que minhas frases no papel causam ao se refletirem nos meus sentidos e sentimentos. Gosto de perceber que muitas vezes não cheguei a terminar as idéias, Miguel, e o texto acaba no vago, sem pontuação, nexo ou coordenada. Devo gostar disso porque se assemelha à minha vida. O ir e vir de sensações e mesmo melancolias. A falta de sono por banalidades e in...

Escalas de Cinza

Essa noite eu tive um sonho muito estranho. Bom, na maioria das noites eu tenho sonhos estranhos... Sabe quando você é criança e passa o dia brincando com seus primos de super-heróis ou de cabaninha no quintal e então você assiste a algum filme ou desenho na sessão da tarde e daí de noite quando vai dormir tem uma viagem extraordinária num mundo de fantasia que mistura o que você fez durante o dia com aquilo que você gosta (ou não gosta) e com aquilo que você pensou, viu, ouviu ou imaginou e tal, aí na maioria das vezes você pode voar, ou você está em um navio pirata em alto mar, ou até num castelo mal assombrado e todo o resto? Bom, comigo acontece todos os dias, como se eu ainda tivesse seis ou cinco anos (no fundo eu ainda gostaria de ter... Ou não, afinal, ser criança é barra-pesada, muito mais pesada do que ser gente grande - e olha que eu não sou lá tão grande assim...). Enfim, eu costumo ter sonhos mirabolantes e acordar cansada, assustada, contente, triste, fazendo confusão do ...

Querida N.J.

Quando você não é aquilo que gostariam que você fosse, quando você sabe que tem culpa, sabe que tem peso, que tem papel numa situação que está diretamente ligada a você, mas onde tudo é indireto. Talvez seja loucura ou então somente cegueira, pelo fato de não compreender ou enxergar o que é óbvio. Alimentamos sonhos, construimos bases fantasmas, projetos invisiveis e aguardamos pelo mesmo olhar, os mesmos sorrisos, todas as divagações que algum dia já foram muito importantes, muito presentes, muito nossas... Uma vez que, agora pertecem ao tempo. Ter um caso com um homem casado. Há um despudor mútuo onde ele jamais deixará sua vida para compactuar eternamente com o affair. E você não pode demonstrar isso. Você não pode dar o braço a torcer e evidenciar o quanto esse desejo a domina. Não pode por uma questão de dignidade. Para esses homens de menor valor e maior presença, as coisas funcionam de formas diferentes. A única coisa que importa é a somatória de sentimentos alheios que consegue...

Quando o telelfone não toca e a voz da gente falha

Era um dia comum no fim de um mês qualquer e Júlia não queria saber de mais ninguém, só ela já bastava por ela mesma. Os homens são muito complicados em si. Homens no quesito humanidade e não somente as pessoas do sexo oposto. Existir era muito cansativo e a fisiologia dessa existência causava-lhe náuseas. Poderia sentir medo, se quisesse, ou então dor ou solidão, mas ela preferia a abstinência de tudo. Preferia não rezar, não pensar, não sentir sono ou se comunicar. Preferia não dar notícias a ter de encarar tudo e todos por um motivo qualquer. Júlia preferia não vestir roupa alguma a ter de se preocupar com decência ou combinações. Preferia abrir nenhum livro a ter de compreender gramática ou interpretar metáforas. Preferia não se sentar a ter de lembrar que possuía membros dormentes nas laterais de seu corpo. Não importava se era ainda muito jovem ou demasiado madura pra certas idéias e escolhas, já que ela não tinha nenhuma delas: nem idéias, nem escolhas. Júlia preferia naquele mo...

Uma coisa meio louca

ela o odeia tem repúdio por tudo o que ele diz ou representa simplesmente a lembrança da sua pessoa é capaz de lhe irritar profundamente ela é louca por ele e seu desejo é tão forte e tão voraz quanto o ódio sentido uma coisa assim estranha de ver complicada de se explicar e maluca de se sentir uma coisa que existe e é intensa mais intensa do que todas as outras achava que isso era amor amor e ódio como um só sentimento e acima de tudo o desejo pulverizante que nunca cessa ou abandona.