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Mostrando postagens de julho, 2008

Primavera em 1932

Nós costumávamos rir. Riamos nas noites de sexta feira e esses risos estendiam-se até o domingo á tarde, quando então, sucumbíamos à modorra inevitável sugerida pelos raios de sol amarelado que invadiam o quarto através do vidro da janela e se estendiam sobre a colcha amarrotada sobre a cama. Vez ou outra, raios sorrateiros escapavam pelo espaldar e atingiam o espelho da penteadeira, espalhando fragmentos de seu reflexo pelas paredes e pelo teto. O teto, fosco de madeira, apresentava marcas já inquestionáveis de umidade, fruto da longa data de sua existência, os cantos escondiam vestígios de outras cores de outras tintas outras vezes utilizadas. Os suspiros aumentavam com o pesar dos olhos bem como o calor, que apesar de tênue desconforto, tornava a sensação de estar ali a única digna de verdadeira importância e atenção. Estávamos vivos. Na rua, o dia morria lentamente, tingindo de rosa o azul do céu e de alaranjado as nuvens brancas que adornavam as casas e mesmo as arvores. Tudo era ...

Para Lilian

Lílian, Perdoe a minha ânsia em escrever-te ainda tão cedo, mas se o faço é simplesmente porque não consigo suportar a tua ausência. Hoje pela manhã, encontrei um dos teus pés de meia caído num canto do guarda-roupa, com toda certeza, ele deve ter sobrevivido à mudança no último mês e ficou ali com a enfadonha vocação de causar-me saudades quando eu viesse a encontrá-lo, bem, digamos que ele cumpriu bem o seu devido papel. Não, ainda não conheci outra garota que durma com um único pé de meia, se quer saber, não pude ignorar a lembrança. Sabe que, estou trabalhando num jornal pequenino, coisa cretina mesmo, no duro, aqueles jornais de anúncios sem importância que têm a promessa de serem distribuídos em qualquer estação de trem ou metrô, tudo gratuitamente, mas nunca se tem notícia de onde eles devem estar, as prateleiras de distribuição estão sempre vazias, e o logotipo do nome do jornal, enferrujado logo acima. Não me importo, para ser franco. Reviso os classificados que serão publicad...

Remorso

- Você não pode se comportar assim. - Eu disse a ele enquanto estávamos parados na esquina, aguardando o semáforo do cruzamento tornar a fica vermelho para os automóveis e assim, finalmente conseguirmos atravessar para o outro lado da rua. Nunca havia demorado tanto. Eu não poderia supor que aquela simples frase seria capaz de desencadear tamanho desconforto em Victor, juro. Sim, seria mentira dizer que costumo agir somente de uma maneira pensável e todo o resto, sei muito bem que meus instintos estão muito acima de qualquer discernimento razoável antes de tudo, mas se há algo que costumo fazer muito bem, é compreender quando estou indo longe demais, o único problema é que a proporção dessa compreensão só aparece depois que eu já estou deveras afastada daquilo que poderia ser considerado como um limite plausível numa situação constrangedora. Isso sempre acaba sendo um problema, chato pra burro. Percebi que aquilo o incomodara mais do que qualquer outra coisa que eu viesse a dizer-lhe....

(R)evolução

Meu irmão tem 13 anos. Tem 13 anos e é um cara muito inteligente. Ele fala japonês e manja até o que você nem pode imaginar sobre video-game e computadores. Ok, há dias em que ele não passa de um insignificante insuportável na minha opinião, mas isso é fruto do meu mau-humor diário ou coisa que o valha. Normalmente nos damos muito bem e ele é bastante maduro. Há algumas semanas, quando em férias, estávamos caminhando rumo à casa de minha avó para um almoço majestoso e todas as regalias das quais você pode desfrutar na casa de uma avó que não só é a mulher mais linda e mais doce do mundo como também é a melhor cozinheira que já se teve notícia, sem contar que ela tem uma espécie de sexto sentido e tudo, o que a faz adivinhar exatamente com qual sobremesa você esteve sonhando todas as noites no último mês. Eu me esbaldo com ela. Uma grande pena que não sobre lá muito tempo para visitá-la, mas sempre que possível (quando estou de folga ou mesmo aos domingos em que não há peças em cart...

Introspecção

A rua esguia, rua de todos os dias, estava como habitualmente, cheia de gente que ia e vinha com ou sem passos apressados e sacolas recheadas. Os carros reduziam a velocidade quando se aproximavam do cruzamento, os estabelecimentos estavam todos abertos e em pleno funcionamento como qualquer outro dia comum. Carmem andava do lado esquerdo da calçada sem notar o que acontecia à sua volta, tinha os pensamentos fixos no que pretendia fazer quando chegasse na próxima esquina, onde Marcelo a estava esperando. Na sarjeta, montes das folhagens do outono davam um tom amendoado ao clima cinzento de um dia nublado, mas esse é o tipo de coisa que passa despercebido aos olhares pouco curiosos de pessoas ordinárias bem como os acasos do cotidiano que aparecem de hora em hora. Ela ia ofegante, vasculhando o fundo da bolsa na procura de cigarros, onde é que eles estavam? Praticamente todos os dias de sua vida, nos últimos quatro anos, Carmem fazia e refazia aquele trajeto até o trabalho de modo que, ...