Primavera em 1932
Nós costumávamos rir. Riamos nas noites de sexta feira e esses risos estendiam-se até o domingo á tarde, quando então, sucumbíamos à modorra inevitável sugerida pelos raios de sol amarelado que invadiam o quarto através do vidro da janela e se estendiam sobre a colcha amarrotada sobre a cama. Vez ou outra, raios sorrateiros escapavam pelo espaldar e atingiam o espelho da penteadeira, espalhando fragmentos de seu reflexo pelas paredes e pelo teto. O teto, fosco de madeira, apresentava marcas já inquestionáveis de umidade, fruto da longa data de sua existência, os cantos escondiam vestígios de outras cores de outras tintas outras vezes utilizadas. Os suspiros aumentavam com o pesar dos olhos bem como o calor, que apesar de tênue desconforto, tornava a sensação de estar ali a única digna de verdadeira importância e atenção. Estávamos vivos. Na rua, o dia morria lentamente, tingindo de rosa o azul do céu e de alaranjado as nuvens brancas que adornavam as casas e mesmo as arvores. Tudo era ...