Coisas

Viver era isto. Sem tirar nem pôr.
Carlos escovou os dentes como todas as noites. Apertou bem a torneira para evitar vazamentos, depois se arrastou até o quarto e arrumou sua cama. Verificou se o vidro da janela estava fechado e sem mais hesitar, deitou-se.
Esticando vértebra por vértebra no colchão, sentiu um intenso prazer em finalmente poder estar ali. Por um minuto ele pôde esquecer que já era madrugada alta de domingo e que em poucas horas seria segunda-feira.
Carlos detestava segundas-feiras. Sempre dias corridos e atrasados, onde se precisa recuperar o tempo perdido com o final de semana, tendo de lidar com pessoas em ritmo lento e também com trânsito infernal.
Escapou o braço esquerdo das cobertas e apagou a luz. Tinha sono, mas não foi de imediato que dormiu. Fora um final de semana e tanto, aquele, coisas em excesso aconteceram e ele demorava a acreditar que foram apenas dois dias.
A notícia da gravidez de sua irmã lhe atingira com um choque e tanto. É claro que, por ela estar namorando há algum tempo e ter idade suficiente para andar com as próprias pernas - embora adiasse isso de maneira interessantemente perceptível - era quase impossível aceitar o fato de que sua irmã fazia sexo com aquele rapaz, por mais que ela fosse mais velha e assim conseqüentemente mais experiente que um rapaz de 21 anos com ensino superior incompleto e planos desagradavelmente vagos. Ele seria tio, Ana seria mãe.
Definitivamente, tudo era um bocado engraçado.
Talvez ela e Pedro se casassem, seria até um alívio para sua pobre mãe. O mais provável de se acontecer, seria Ana continuar a levar sua vida medíocre de sempre, com a única diferença - quase mínima - de que traria um ser ao mundo. Impossível negar.
Revirou-se na cama antes de conseguir abandonar tal julgamento e prosseguir com seu raciocínio. Outras coisas perturbadoras aconteceram, a notícia da morte de Tia Marta fora o maior baque em muitos anos, afinal Tia Marta era a última pessoa sujeita a morrer de um ataque cardíaco. Ela sempre fora uma mulher sossegada e paciente, cujos maiores atrativos na vida eram todos aqueles quatorze gatos que viviam em sua casa e os tais tapetes de linha que vivia a tricotar para presentear a família.
O funeral fora o mais simplório que ela já estivera presente; no velório a presença de pouquíssimas pessoas, já que TIa Marta sempre fora solitária e nunca constituíra uma família ou cultivara grandes amizades, Freqüentava pouco o círculo familiar, de modo que poucos dariam por sua falta, estar ali era mais uma conseqüência do que um pesar. Carlos nunca tivera realmente muita ligação com ela, mas era quase deprimente pensar que agora ela se encontrava em um caixão de madeira sob a terra e não sentada no velho sofá de couro corroído, rodeada por seus tapetes, traças e gatos. Ele nunca parar para pensar no modo como encarava a morte, mas até então era de uma maneira otimista, ou não era? Procurou não pensar muito no assunto, na verdade não lhe agradava.
Um futuro nascimento e uma morte. Eram coisas exageradamente opostas para estarem juntas em uma manhã turbulenta de sábado, mas estiveram. Outra grande mudança era, sem dúvidas fútil, mas equivalente em questão de contraste, o novo corte de cabelo que Carlos adotara. Num momento de descaso ou simplesmente senso de inovação, ele abandonara os cabelos que quase cobriam os olhos e escondiam as orelhas para desfrutar de um visual totalmente isento de qualquer fio, sem motivação aparente.
Virou-se novamente, dessa vez para consultar o rádio-relógio na cabeceira. Era tarde, na manhã seguinte, com toda certeza, ele amaldiçoaria cada instante de reflexão que privava-o do descanso, aquele descanso artificial que seria violentamente anulado com o alarme do despertador, como todos os dias. Bocejou duas vezes, em pouco tempo o sono o venceria. Em dois dias Carlos ganhara um sobrinho, perdera uma tia e estava careca. Comparando o ritmo desse final de semana com alguns anteriores, onde o máximo de emoção que obtivera fora saber que sua mãe lhe comprara meias novas, estava sendo bastante interessante.
A respiração já estava densa e os pensamentos muito mais leves, quando uma lembrança o trouxe dolorosamente de volta à tona: Amanda.
Amanda vinha sendo o motivo de grande tormento nos poucos instantes que Carlos tinha para divagações nos intervalos de trabalho e faculdade. Era uma garota especial, no duro, era mesmo. Poucas outras conseguiam fazê-lo sentir-se tão à vontade e irritá-lo tão pouco, na verdade nenhuma. Talvez Amanda fosse um bocado desengonçada para gestos mais graciosos e contidos, talvez risse alto demais, não importava. Para Carlos ela era perfeita. Perfeita, a não ser por Marcelo.
Marcelo era aquele a quem Carlos mais invejava desde que conhecera Amanda. Na verdade, Carlos o detestava. Detestava-o, não por Marcelo ser uma pessoa de má índole ou coisa que o valha, muito pelo contrário, detestava-o por ele ser tudo o que Carlos não era: maduro e bem sucedido, e também por ter tudo o que Carlos não tinha: independência e... Amanda.
Não sabia há quanto tempo os dois namoravam, mas era tempo suficiente para estarem viajando juntos há cerca de duas semanas, o que significava que Amanda estava mais longe de seu alcance do que Carlos imaginava. Bem, talvez...
Era esse 'talvez' que o tirava do sério e o fazia desejar nunca tê-la conhecido. Se ela realmente amava Marcelo, porque se mostrava tão cúmplice da cordialidade de Carlos? Talvez ela não o amasse verdadeiramente... Talvez ela só estivesse ali porque nunca encontrara alguém que fosse mais compatível com ela, alguém como Carlos. Ele esfregou os olhos com força, Amanda jamais deixaria Marcelo por um rapaz de 21 anos, jamais. A superioridade de Marcelo era mais do que evidente, e Amanda não sabia o que Carlos sentia por ela, nem saberia. Engraçado que Carlos se dera conta do que sentia, na manhã desse mesmo dia, quando soubera que ela e Marcelo não estavam na cidade.
Ganhara um sobrinho, perdera uma tia, ficara careca e estava apaixonado. Eventos demais para dias tão ordinários. Se o sono não fosse tão perturbador ele se lembraria da bomba que levaria em uma matéria ou outra na faculdade e no possível aumento de salário que poderia acontecer conforme fosse, mas preferiu deixar tudo para depois, afinal haveria ali cinco dias para os próximos dois dias de agitação.
Passou o braço por baixo do travesseiro e adormeceu. Viver era isto. Sem tirar nem pôr.

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