A curto prazo




A maçã sobre a mesa. O casaco vermelho. A xícara de porcelana. O cinzeiro vazio.
O calendário na parede anunciava que julho se despedia.
No rádio, uma antiga canção conhecida. No céu, o sol embolorado de inverno.
Oh, se ela pudesse voltar... Ah, se ela pudesse morrer...
Não podia.
Não era tarde, mas ficaria. Não era velha, mas ficaria.
As coisas tomavam formas, cores, tamanhos... Depois, desapareciam. Engraçado.
Ele sumia com aquele vento, ele sumia como suas mãos naqueles bolsos.
Será que sumia? Não sabia, mas sentia.
Talvez doesse um tantinho, um tantinho só... A velha mania de se apegar às pessoas!
Não nascera para gostar de ninguém. Ou nascera?
É sempre o ir e vir... O mesmo ir e vir. Droga! Se, ao menos, tivesse tentado... Quem sabe se, com um pouco mais de esforço, com um pouco mais de coragem...
Não.

De manhã estava frio, frio, tão frio que ela quase desistiu. Eu disse, quase.
O metrô lotado, tudo sempre igual. Sempre, a não ser, os rostos. Os rostos estavam sempre mudando, mas isso não lhe interessava. Estar ali era como passar a perna no tempo. Viver aquilo era como sair do mundo, daquele mundo.
A árvore de galhos secos contrastando com o grande prédio. Fotografou. O casal passando de mãos dadas e os carros ao fundo. Fotografou. O poeta procurando uma maneira de ter seu trabalho reconhecido. Fotografou. Mais algumas fotografias para fazerem companhia à todas as outras em meio as caixas na estante. Precisava parar de gastar seu dinheiro com isso.
Na galeria, os quadros já familiares foram tão indiferentes quanto as pessoas no metrô. A atmosfera era suave, quase gratificante. Na verdade, estar ali o era.
Um suspiro, dois. Um olhar, outro. Bastava.
Na saída, o vento frio cortou-lhe o rosto. Procurou na bolsa o par de luvas... Desistiu.
Porque é que as pessoas insistiam em mostrar-se sempre descontentes?
Porque é que as pessoas insistiam em se acomodar à saudade?
Vá entender.
Se soubesse alguma citação de efeito, com certeza a usaria naquele momento. Absteve-se em caminhar depressa, caso contrário se atrasaria.
Podia parecer ruim, podia parecer mecânico. Podia ser mil vezes pior do que aquilo e continuaria igual. Indiferença é fogo.
Espreguiçou-se. Quantos antes dele? Alguns.
Quantos depois? Por hora, nenhum. Besteira!
Quando se tem um único problema em mãos, todos os outros parecem não existir, pelo menos até que este se resolva.
Era só telefonar. Seriam apenas poucas palavras, isso se um olhar já não lhe denunciasse.
Só, somente só. Descartou a idéia afinal, simples demais.
Não se preocupou. Tudo era a curto-prazo mesmo.

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