Perecível

Um envelope amarelo com duas passagens para Portugal, uma carta e um embrulho de presente.
No embrulho, um par de sapatinhos vermelhos feitos em tricot.
Na carta uma linha trêmula, como de alguém que se despede:
"Não tão perecível".

-Manhê, vem ver isso aqui! - Marta gritou do porão à mãe que estava na cozinha, sua voz reverberando pelas paredes.

[...]

Os quadros na parede escondiam fundas marcas de bolor que a umidade causou anos antes.
Os livros empilhados já faziam parte da decoração do quarto, bem como as roupas penduradas na cadeira da escrivaninha.
Alguns filmes para assistir, algumas anotações de compromissos futuros.
Telefones perdidos pelos cantos, poeira, uma vasta coleção de bons CD's e pôsteres de bandas ultrapassadas.
Um violão sobre o guarda-roupa, uma guitarra sem cordas e a pretensão de um dia voltar a estudar música.
Porta-retratos angulares enquadrando fotos em preto e branco, lembranças alegres, lembranças melancólicas, apenas lembranças.
O quarto de Ivan não passava disso: lembranças.

Na prateleira ao lado da cômoda, uma infinidade de troféus e medalhas, bem como certificados e congratulações pelo seu bom desempenho no judô.
Numa linha cronológica, as faixas de graduação em ordem crescente ilustravam toda a sua trajetória, toda a sua paixão.
Faltava apenas uma.
Na mesma prateleira, mais à esquerda, uma presilha de Natália. O quarto vivia cheio delas.
Um cinzeiro nunca usado, presente de algum amigo distraído que partiu em alguma viagem para algum local bastante peculiar e acabou esquecendo que Ivan não fumava.
Alguns outros presentes enfeitando as superfícies ainda vazias: chaveiros, garrafinha de vidro com desenhos em areia, miniaturas de judocas, uma vela decorativa, coisas do tipo.

Livros da faculdade, muitos deles. Folhas soltas com cálculos aqui e ali, sabe como é.
Aquela correria infernal estava transformando tudo em desordem.
A carteira, perdida na quarta gaveta, ainda guardava o vale refeição não usado e a foto da namorada.

Saía cedo para o trabalho, chegava tarde ora da faculdade, ora do treino. Aos fins de semana eram viagens, competições e certa cobrança saudável.
Nunca deixava a desejar, pelo menos parecia não deixar.
Os amigos idolatravam-no. Um piadista nato.
Senhor de seu próprio destino, tinha apenas mais duas parcelas do carro para pagar e então sobraria espaço para outros planos.
Os sonhos eram altos, sobrecarregados, idealistas.
Os objetivos eram plausíveis.
Natália era perfeita.

A vida de Ivan era, sem sombra de dúvidas, intensa.
Intensa e feliz.
Ou pelo menos parecia ser.

O que será que pareceu ser quando, na manhã de 22 de março, a mãe deparou-se com o filho enforcado próximo a janela?
Enforcado com a faixa branca do judô. A faixa inicial. O princípio de tudo.
Olhos vidrados, expressão estarrecida. Tudo em Ivan contrastava com aquele cenário aconchegante, representado pelo quarto.
Era quase uma colagem.
Dona Rita certamente perdeu os sentidos, por sorte, Seu Rafael estava em casa.

O que significava ser feliz, afinal, quando alguém como Ivan comete suicídio?

No funeral, palavras vagas de rostos entristecidos, alguns indignados, outros ainda descrentes.
Ninguém era capaz de aceitar.
A dor maior, senão a dos pais, era a de Natália.
Natália, a jovem namorada do rapaz suicida trazia no ventre o fruto de um amor sem muitos cuidados.
Ninguém sabia.
Descobrira a gravidez há cerca de quinze dias e desde então, esperava pelo momento adequado para anunciá-la. Tarde demais.
Acaso soubesse que em breve seria pai, Ivan teria agido da mesma maneira?
Natália nunca saberia. Nunca.
Era muito estranha aquela sensação. Há pouco mais de vinte e quatro horas eles haviam saído como sempre o faziam nas sextas-feiras. Domingo, ela estava vendo-o ser sepultado.
O que era aquilo?

Tardiamente, o que restou da família de ivan pôde voltar para casa e recolherem-se em sua dor interna, afim de expurgar o choque e tentar compreender como acontecera.
Natália não conseguia extrair de sua cabeça a triste imagem do rapaz que tanto amava: pálido, sereno, vestido cruelmente com o terno que ele mais detestava, exibindo uma coloração escura em torno do pescoço, por conta do colar da morte que ele ousou experimentar.
Dona Rita chorava baixinho enquanto Rafael segurava sua mão. Cássia e o marido preparavam algo na cozinha, para quando alguém se lembrasse de sentir fome.
Ela não via o irmão há meses. Ivan telefonou-lhe dias antes e pediu que viesse com o marido e filho no final de semana, iriam todos juntos até a praia.

Durante uma semana, por mais incrível que possa parecer, ninguém tocou no assunto do suicídio.
Nem mesmo Natália.
Quando por fim os ânimos acalmaram-se, Dona Rita e Seu Rafael passaram a investigar mais atentos as atividades dos últimos dias de vida de Ivan, afim de sanarem a dúvida desesperada dos sentimentos e angústias que o filho poderia esconder.
Não encontraram nada que incriminasse sua atitude.
Ivan parecia ter pensado em tudo.
Dois dias antes, pedira demissão no trabalho, alegando diferenças profissionais entre sua função e a área de atuação no mercado que ele buscava.
Trancara a matrícula na faculdade, informando falsamente que fora transferido para trabalhar em uma filial da empresa em outro estado.
Transferira todo seu dinheiro na poupança para a conta conjunta dos pais e cancelara todos cartões de crédito e talões de cheque que estavam em seu nome.

Nada mais podia ser feito.
Ivan cometera suicídio por um motivo incognito e tudo fora estratégicamente peparado para evitar quaisquer problemas alheios.
Porque ele fizera isso?
Natália sofria em silêncio. Estava no impasse profundo entre uma gravidez ou um aborto ilegal.
Ter ou não o filho de um rapaz suicida.
O que fazer?
Como Ivan conseguira ser tão frívolo ao pensar que, tirando sua própria vida não estaria arruinando outras total ou parcialmente ligadas à dele?
Se ele estivesse vivo, decidiriam juntos.

Os pais de Ivan venderam a casa em que moravam desde o casamento. Dona Rita adoeceu mentalmente após aquela manhã sombria. Seu Rafael cuidou para que as coisas do filho fossem muito bem encaixotadas e ficassem guardadas em algum canto do apartamento, onde morariam a partir de agora.
Foi encontrada uma caixa lacrada, identificada com uma inicial 'N' na lateral. Supondo serem coisas de Natália, Seu Rafael garantiu que ela ficasse com a caixa se quisesse, além de outras coisas de Ivan que ela se sentisse inclinada para guardar consigo.
Natália preferiu não ficar com a caixa ou com qualquer outra coisa que remetesse seus pensamentos à ele. Ivan abandonara-a.
Não teria o filho dele e expulsaria de sua vida qualquer vestigio dele que viesse a persegui-la.

Na caixa 'N' não havia muita coisa. Um envelope amarelo com duas passagens para Portugal, uma carta e um embrulho de presente.
No embrulho, um par de sapatinhos vermelhos feitos em tricot.
Na carta uma linha trêmula, como de alguém que se despede:
"Não tão perecível".

Assim como, talvez, Ivan não suicidara-se voluntariamente, talvez não havia ninguém para explicar o que era aquela caixa velha que Marta encontrou enquanto remexia no porão da casa onde tinham acabado de se mudar.

Talvez.

Comentários

Anônimo disse…
Realmente um dos mais envolventes... não sei ao certo o porquê...