Gente

Querido Miguel,

Eu não mudei quase nada. Estou aqui do mesmo jeito que você me viu pela ultima vez.
Algo de mais maduro no olhar. Algumas pretensões esquecidas. Conquistas listadas, perdas e saudades.
Quando percebi como estava o ‘dentro de mim’ preocupei-me.
Tudo era carregado demais, pesado demais, imaginário demais. Tinha gente que ia e vinha por toda parte, ocupando espaço, causando espasmo, faltando o ar.
Gente que causou mágoas profundas com palavras tão curtas e certeiras. Gente que partiu rápido demais. Gente que demorou tanto pra partir que acabou ficando.
Gente pequena que uma vez eu encontrei na fila do teatro e me deu bala de goma.
Gente que foi tão próxima e tão vital, mas que a vida afastou quase que definitivamente.
Gente que se afastou porque quis, gente que se afastou porque o mundo quis, gente que se afastou porque a gente quis!
Gente que ria um riso tão profundo como um rio e que causa lagrima nos olhos da gente só de lembrar como era sentir.
Gente que fez mal, muito mal, mas que no fundo foi o mal que mais fez bem pra gente.
Gente que contava sempre a mesma piada sem graça, mas que quando não contou mais tudo ficou muito quieto, estranho e triste.
Gente que foi viajar pra bem longe e nunca mais voltou. Gente que voltou depois de muito tempo e já não sentia mais a mesma coisa. Gente que fez escolhas diferentes das escolhas da gente. Gente que é só gente e nada mais, que a gente nem sabe o que faz aqui.
Gente que não nos vê, por mais que estejamos assim tão perto. Gente que a gente finge que não vê por medo de não saber o que fazer. Gente que a gente nunca viu, mas que com certeza vê a gente todo o tempo.
Gente que secretamente a gente queria que morresse. Gente que secretamente a gente sente ciúme. Gente que secretamente a gente sente pena.
Gente que telefona de madrugada num dia qualquer, só pra falar sobre nada.
Gente que escapa da gente, que cria caso e faz bagunça. Gente que nem é gente, mas que mesmo assim a gente carrega. Gente que se mostra indiferente. Gente que a gente nem teve. Gente que a gente esqueceu. Gente que se esqueceu da gente.

Toda a gente no ‘dentro de mim’ fazendo barulho, querendo atenção, perdão, amor, explicação ou simplesmente paz.
Era braço de gente, palavra de gente, perna de gente, sentimento de gente, língua de gente. Gente que não acaba mais e que aos poucos acaba engolindo a gente...

Foi então que eu gritei, gritei um grito fundo e alto para o ‘dentro de mim’ e até mesmo para o ‘fora de mim’. Queria espaço, queria ar, queria tempo e queria mundo. Queria na verdade, ninguém. Chega de gente, chega de tanta gente.
Aí aos poucos, eles se foram. No instante seguinte eu estava ali no ‘dentro de mim vazio’. Reinava um silêncio cortante e tudo parecia maior e distante.
Confesso que não funcionou, porque no outro minuto, eu já me sentia sozinha.


Escreva-me quando puder, sinto muito a sua falta.
Sua,
Lara

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