Na praça.

Raul sentado. Na praça.
Raul sentado no banco da praça.
Violão no colo. Gaita no bolso. Cartas na memória.

As pessoas. Ir e vir sem razão.
Gente que passa com pressa.
Gente que canta em silêncio.
Gente que chora escondido.

A moça sentada. Na praça.
A moça sentada no banco da praça. Sozinha.
Bolsa no colo. Esperança nos lábios. Coração palpitando.

O moço que chega. Na praça.
O moço que chega na praça, vê a moça e não sorri.
Pescoço tenso. Dentes rangendo. Língua áspera.

A esperança da moça espreme, escapa.
O moço senta. A moça fala. O moço parece não ouvir. A moça parece não entender.
Corações pulsantes. Ruídos dissonantes.

As mãos do moço. Gesticulam.
As mãos da moça. Frias.
Os olhos de Raul. Observam.
O sol se pondo.
No céu.
Na praça.
Na vida da moça.

O moço levanta. Sai. Some na esquina.
Os cílios da moça. Encharcam.
A esperança da moça morre, evapora.
Bolsa no colo. Esperança distante. Coração que se acalma.

A moça sentada. Na praça.
A moça sentada no banco da praça. Sozinha.
Enxuga as lágrimas.
Recolhe a tristeza, põe na bolsa e vai se embora.

Raul sentado. Na praça.
Raul sentado no banco da praça. Pensa.
‘Qual é o pecado de amar alguém?’

As pessoas. Olham, mas não vêem.
Gente que passa sorrindo.
Gente que passa sonhando.
Gente que passa perdida.

O menino sentado. Na praça.
O menino sentado no banco da praça. Sozinho.
Pés descalços. Boneco na mão. Alegria infantil

O homem que chega. Na praça.
O homem que chega na praça, vê o menino e chama.
Calças compridas. Gravata apertada. Testa franzida.

O boneco do menino, sujo, velho.
O menino corre. O homem alcança.
Calçar o menino. Tomar o boneco.

Os pés do menino. Sufocam.
Os pés do homem. Repreendem.
Os olhos de Raul. Observam.
O sol se pondo.
No céu.
Na praça.
Na vida do menino.

O homem se afasta. Vai. Leva o menino.
Os ombros do menino. Questionam.
O boneco do menino. Sem vida.
Pés calçados. Livro na mão. Saudade do boneco.

O menino indo. Na praça. Com o homem.
O menino indo no meio da praça com o homem.
Sente saudades. Engole as perguntas, afoga o riso e vai se embora.


Raul sentado. Na praça.
Raul sentado no banco da praça. Pensa.
‘Qual o pecado de não querer crescer?’

As pessoas. Já não passam mais.
Gente que passa o café.
Gente que passa a roupa.
Gente que passa fome.

Violão no chão. Gaita no bolso. Cartas na memória.
Raul deitado. Na praça.
Raul deitado no banco da praça. Sonha.
Raul vai às estrelas num vôo sem tempo e não volta.
Enquanto o dia não amanhece.
Sozinho.

Raul.
A moça.
O menino.

Comentários

Anônimo disse…
amei.....

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