Algum dia

Não sei se era pelas meias, ou então pelas calcinhas.
Talvez pelas meias e calcinhas com que ela costumava dormir, não importava o tempo: sempre meias e calcinhas.
Quem sabe foram as roupas jogadas no chão, aquelas que deveriam ser lavadas, ou pelo acúmulo de livros, papéis, desenhos e anotações que cobriam cada superfície vaga dos móveis de seu pequeno apartamento.
Acho até que pode ter sido aquele apartamento pequeno e bagunçado, ao mesmo tempo gigantesco nas formas e cores que viam-se espalhadas por todo canto, formando uma vastidão de gostos e desgostos, gestos, sonhos e oportunidades, tentativas, abatimentos, preocupações, desleixo... Mas, apesar de toda a confusão, tudo parecia estar ocupando seu devido lugar na mais perfeita ordem do universo caótico que era o apartamento de Lia.
Ainda não sei dizer o que foi que aquela mulher despertou em mim, desde o primeiro momento em que a vi.
Suas caras e bocas para o mundo, seus sentimentos reservados e suas preocupações infantis preenchiam o espaço vazio que o cotidiano refletia ao seu redor. Onde quer que fosse, quando quer que chegasse, Lia sempre brilhava sozinha, jamais desapareceria em meio à multidão de rostos que cruzamos todos os dias.
Impulsiva, dinâmica, teimosa, explosiva, forte, decidida e ao mesmo tempo pequena e delicada, era tão diferente de mim, para não dizer diferente por inteiro.
Eu já estava formado há alguns anos, possuia um cargo notório e pensava em me casar. Ela fazia desenhos num papel de pão de um lanche qualquer que comera durante a tarde. De todas as coisas que se apagam em nossas mentes quando algo cicatriza com o passar do tempo, aquele memorável dia seria talvez o unico flash emotivo que me restaria, mesmo que quando aconteceu eu jamais poderia supor que aquela mulher transformaria minha existencia em algo muito maior do que eu poderia sonhar, contudo, ela já sabia de tudo isso naquele momento em que nos vimos.
O modo como tudo transcorreu, o jeito que nossa história começou a ser ilustrada pelas mãos de algum desenhista amador foi um período espaçado, do qual evito me lembrar em noites como essa, quando já nem sei se o que estou vivendo são lembranças felizes ou frustrações do passado.
Só sei que, num instante eu estava ali, na minha posição de homem bem resolvido, livre de anseios e contradições, com uma vida estruturada, mantendo meu posto de soberano em relação às mulheres, como todos os homens costumam fazer, acreditando que são elas que devem se render, elas que devem vir até nós e nós, como bons estrategistas deveriamos nos manter ali distantes de qualquer correlação e envolvimentos emocionais profundos... No momento seguinte era Lia de meias e calcinha, dormitando em meu apartamento, em seu apartamento, em algum hotel meia boca que nos metemos em noites chuvosas e eu completamente reduzido à fazedor de suas vontades.
Que noites foram todas aquelas! E quando eu digo 'que noites' espero que o leitor compreenda que não insisto somente no fator do sexo, mesmo o sexo sendo um dos mais maravilhosos que eu havia experimentado, mas também nos encantos e desencantos que aquela personalidade inquietante revelava para mim, segundo após segundo, fosse em seus medos, seus poucos planos, suas angústias ou mesmo suas carícias.
Lia era como uma flor vibrande numa natureza morta. Artista algum conseguiria captá-la em sua essencia: era mutável demais.
Suas histórias, seu riso, o modo como se entregava à mim sem receios ou lutas, sem impecilhos, cobranças ou falasas promessas, tudo isso me fazia acreditar que eu estava no comando, eu estava domando-a, eu a tinha minha e a teria para sempre, mesmo se não estivesse disposto a permanecer ali tanto tempo assim. Enquanto eu desdenhava, ela sabia exatamente quanto tempo tudo iria durar. Tanto mais eu confiava, mais eu a perdia.
Eu jamais poderia citar suas cores preferidas, suas bandas favoritas ou os pratos que preferia, ela parecia gostar de tudo e ao mesmo tempo, de absolutamente nada.
Parece estranho eu estar aqui, sozinho num dia como esse, em minhas condições não só financeiras mas também fisiológicas como um homem, senhor de seu domínio martirizado pela falta de uma mulher, mas não seria estranho se o leitor houvesse conhecido Lia como eu a conheci, se é que eu soube conhecê-la.
Gostava do modo como ela parecia fazer das coisas ruins uma espécie de aventura fantástica, como a rotina se transformava num monstro gigante com quem ela batalhava e destruía sem muitos esforços, como um passeio simples se tornava a maior viagem de todos os tempos ou como um dia de chuva podia ser a melhor coisa que poderia ter nos acontecido.
Ao mesmo tempo que também gosto do modo como ela transformava uma discussão num fuzilamento e um pequeno problema na dissolução de sua existência. Era dramática, profana, poética, culta e viril. Ao mesmo tempo que não era mais do que uma menina desgarrada nalgum momento da juventude.
Era um baú com segredos e segredos que não davam fim, mas era transparente, sincera, lívida e pura, leve e até distraída tamanhas eram suas observações.
Não sei se eram os cigarros mal ajeitados no maço que carregava no fundo da bolsa, ou na coleção de chaves que perdia e encontrava dia a dia.
Quem sabe era o jeito que gostava de ficar deitada na cama, com as mãos segurando o queixo e os pés a balançar no ar enquanto ouvia vorazmente eu intitular minhas opiniões, meus gostos, meus trejeitos, sem nunca questionar os seus, sem nunca me aproximar suficientemente para ver a verdadeira cor de seus olhos.
Lia chegou em minha vida como uma frente fria no verão, causando uma certa tempestade gradativa e ao mesmo tempo, tornando as coisas tão melhores e mais propícias à uma boa noite de sono.
Ela partiu da mesma forma com que o calor volta a se apresentar alguns dias depois, sorrateira e sutilmente, de modo que eu somente percebi quando ela já acenava longe, sorrindo um sorriso entristecido e ao mesmo tempo intenso, ansioso pelo próximo passo, extasiado pela libertade que enlaçava-lhe as pernas.
Não houve brigas ou discussões, na verdade muito pelo contrário. Houve paixões avassaladoras, cumplicidade, carinho, apoio, consideração e amizade, acima de tudo houve amizade.
Fiquei me perguntando se relamente houve amor. De sua parte eu sei que houve, da minha parte ouso confessar que sim. Não foi apenas um envolvimento de longa data, eu realmente fui e continuo sendo apaixonado por aquela mulher de tons e sobretons que há muitos anos não vejo e nem ouço falar.
Ela partiu numa brisa fresca, num fim de tarde ensolarado, após alguns cigarros, risos e talvez um ímpeto de redenção: confessei-lhe que queria algum dia casar-me com ela.
Ela nada respondeu, riu seu riso melodioso e tradicional e depois de algum tempo, fitou meus olhos com piedade e um quê de ressentimento. Demorei muito tempo para compreender.Vivi desde então acreditando que minha impulsão por querê-la verdadeiramente minha era o que tinha-a afugentado, quando que na verdade, e esse é meu grande martírio, não era a minha pretensão que a desligou de mim, mas sim o modo como foi feita a minha colocação, o modo como aquelas palavras foram pronunciadas...

O que levou Lia de mim foi o desdenhoso suplemento de 'algum dia eu me casarei com você'.


Sei que ela não voltará e nós não ficaremos juntos novamente tampouco. Não espero por isso.
Mas espero conscientemente que algum dia eu volte a esperar.


Algum dia.

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