Esperar e partir.
Passava das onze horas de noite na rodoviária e de longe já
era possível ouvir o cricrilar dos grilos que viviam nas árvores ao redor.
Poucas pessoas se aglomeravam debaixo de um velho toldo amarelo, desbotado pelo
sol e enferrujado pelo tempo. Caia uma garoa fina e chata, daquelas sorrateiras
que quando menos se espera, ensopa roupas e malas. Todos procuravam se proteger
do granulado d’agua ao mesmo tempo que tentavam não encostar uns nos outros.
“Porque será que as pessoas tem tanto medo do toque?” Pensou Sofia que
observava de longe o jeito e a posição do aglomerado de pessoas que aguardava
pelo ônibus da meia noite. Ajeitou a mochila nas costas, já fazia algum tempo
que a estava carregando e conforme os minutos no relógio aumentavam noite
adentro, aumentava também o peso sobre seus ombros. Olhou ao redor, nenhum
lugar adequadamente seco para pousar a bagagem e dar folga ao corpo, o jeito
era deixar como está. Suspirou. Espreguiçou-se levemente e pôde sentir um leve
estralo na lombar. “Amanhã vou me arrepender de carregar tanto peso dentro
desse troço...” pensou um tanto apreensiva consigo mesma.
Já fazia alguns anos
que viajava sozinha e tentava, a cada nova oportunidade, ser um pouco mais
econômica... Aprendera na prática que nesse tipo de viagem, não se pode levar
muita coisa. Aliás, em qualquer viagem muitas vezes não importa aquilo que você
carrega na mochila, mas sim aquilo que você leva dos lugares em que passou,
coisas que não tem peso e nem valor, pessoas e memórias para guardar no
coração. Sempre que viajava, Sofia procurava trazer um pouquinho do mundo para
dentro de si e abandonar um pedacinho dela mesma como moeda de troca... “Um dia
serei como uma grande colcha de retalhos, costurada de lembranças e só”.
Gostava de metáforas sinestésicas. Suspirou outra vez, mudando o peso de seu
corpo para a perna direita e estralando o pescoço. De repente, começou a sentir
fome, mas a preguiça de desvenciliar-se das alças e fivelas ao redor de seu
abdome e ombros a fez pensar duas vezes antes de fuçar algum pacote de bolacha
socado no fundo da bagagem. “Preciso aprender a ser mais prática...” disse para
si mesma como uma espécie de nota mental. Nos últimos dia, estava colecionando
notas mentais.
A garoa pareceu apertar e agora, a folhagem da árvore na qual
ela estava abrigada já não era suficiente para impedi-la de se molhar. Pensou
em se juntar às demais pessoas que aguardavam debaixo do velho toldo amarelo,
mas calculou vagamente que o tamanho da mochila iria reduzir ainda mais o
espaço já suficientemente reduzido em que as pessoas estavam. Desistiu. “É só
agua” murmurou para si mesma passando as mãos pelo casaco e verificando que ele
estava começando a ficar ligeiramente úmido, assim como seus pés dentro dos
velhos tênis de basquete. Tudo o que mais queria naquele momento era poder
tomar um banho... Um banho decente, não precisava nem ser um banho daqueles
demorados e cheios de vapor. Apenas um banho num local familiar, onde não
precisasse usar chinelos. Se tinha uma coisa que detestava, era ter de usar
chinelos no banho. Elemento incoerente e desconfortável para a ocasião, mas
necessário quando não se sabe exatamente quem pisou naquele ralo nos últimos
dias. “Preciso parar de me hospedar em albergues...” pensou enquanto escondia
um longo bocejo com a mão direita. Riu de si mesma. Já fazia anos que pensava
sobre isso, contudo, não havia maneira mais econômica e divertida de viajar sem
hospedar-se num albergue. Por um momento refletiu sobre todos os lugares em que
já havia estado, todas as pessoas que tinha conhecido e situações que tinha
vivido desde que decidira viajar sozinha por aí. Perdeu a conta. Desistiu de
lembrar.
Conferiu as horas no grande relógio na entrada da estação. Ainda tinha
mais de meia hora até o próximo ônibus e não tinha um só banco seco em que
pudesse se sentar e esperar com algum conforto. Por um milésimo de segundo
sentiu-se extremamente desanimada. Às vezes, quando se viaja sozinho, pode
acontecer isso. As pessoas se perdem numa divagação futura sobre o longo
caminho que as aguarda para chegar ao próximo destino e nesse meio tempo
sentem-se intensamente cansadas e sozinhas, com uma vontade insuportável de
desistir. É um desespero silencioso e infinito que dura apenas um instante e
desaparece com a mesma destreza com que apareceu. Estranho, mas é comum. Outro
suspiro e mais um estralo, dessa vez no pescoço. “Maldito travesseiro
inflável”, ela praguejou. Poderia ler mais um capítulo de seu livro se o clima
não estivesse tão úmido. No fundo, só queria mesmo era comer alguma coisa.
Olhou para as pessoas paradas debaixo do velho toldo amarelo. Era um grupo
eclético e desinteressante ao mesmo tempo, mas Sofia os achou fascinantes.
Gostava de observar o jeito das pessoas e eventualmente imaginar que historias
carregavam em suas próprias bagagens. De onde vinham, para onde iam...
Colecionava expressões dos mais variados aspectos e já sabia identificar de
pronto aqueles que estavam voltando para algum lugar e aqueles que estavam partindo
para uma nova experiência. Fossem quais fossem os motivos que levavam as
pessoas a locomoverem-se e transitarem por entre os lugares, havia sempre um
brilho inquietante no olhar daqueles que desconheciam seu destino e uma aura
cansada naqueles que ansiavam por chegar em casa. Outro suspiro, um ronco no
estômago e um leve formigamento nas mãos. De repente outra vez aquele flash. Já
fazia alguns dias que Sofia estava sofrendo espasmos causados por esses flashes
intrometidos em sua mente. Um par de mãos perfeitas cujo toque ela desejava a
cada instante. Aquela lembrança já tinha sido tão explorada por sua cabeça
cansada que já nem parecia mais uma lembrança... Nem ela mesma podia distinguir
a diferença entre o fato e a dimensão que tudo tomava dentro do universo
particular da sua cabeça. Dois corpos nus entrelaçados, uma sucessão de gemidos
roucos, atração magnética e inexplicável, um desejo interminável, o salto
brusco, repentino, o chão sumindo sob seus pés e um beijo. “É...” ela disse
reticente para si mesma deixando escapar um sorriso malicioso. “Santo Deus,
porque estou pensando nisso agora?”. Olhou para os lados outra vez. Tinha
sempre essa sensação estranha de que as pessoas ao seu redor eram capazes de
ouvir e traduzir o que ela estava pensando. Que mania de perseguição!
Irritou-se por um minuto e meio. Aquele olhar profundo e enigmático, um par e
lábios perfeitos, a necessidade de ser preenchida por inteiro... Desde o
momento em que se conheceram alguma coisa mudara dentro dela e todos os seus esforços
para tentar compreender o que estava acontecendo foram em vão. Espreguiçou-se
outra vez e cogitou mais um instante alcançar aquelas bolachas, mas desistiu em
seguida. Uma voz que, se fosse uma música, certamente seria a mais ouvida em
sua playlist. Os cabelos, a barriga e os pés... Língua. “Ok, chega. Eu vou
comer essa porra dessa bolacha agora...” decidiu-se fingindo ser esse o
pensamento central do momento. Contrariada, soltou o emaranhado de fivelas e
alças e tentou equilibrar a mochila no colo erguendo uma das pernas. Como podia
desejar tanto a companhia de alguém naquele momento... Alguém que poderia
ajuda-la a alcançar a porcaria da bolacha, ou que poderia dividir um pouco
daquele peso todo. Qualquer pessoa! Qualquer um... “A quem estou pretendendo
enganar? Não poderia ser qualquer um... Não poderia ser outra pessoa! Só
poderia ser uma única pessoa... Só poderia ser ele... Cadê essa merda dessa
bolacha?”. E por instante, Sofia caiu em si e percebeu que pela primeira vez em
muito tempo não estava sentindo o mesmo prazer em estar ali sozinha. E também
não sentiria prazer algum se estivesse acompanhada por outras pessoas, a não
ser... Ele. O que estava procurando afinal? “As bolachas... Encontre as
bolachas!” ela ordenava para si enquanto vasculhava fundo aquela mochila que,
de repente parecia muito maior do que era, parecia quase infinita. “Isso é um
buraco de minhoca, não é possível...”. Porque estava se sentindo assim, numa
fração de segundos tão dependente de alguém que nem fazia assim tão parte da sua
vida afinal. “Queria que fizesse parte!”. Ela que nunca se deixara cair em
armadilhas, que andava taciturna e desconfiada, segura de si e da vida, não
conseguia nem ao menos controlar seus próprios pensamentos. Se ela ao menos
pudesse falar com ele, nem que fosse só um pouquinho... Não! Um pouquinho não!
Muito! Queria falar tudo! Queria entrar em detalhes... Queria dividir cada
pedacinho da sua historia pessoal com ele e vice versa. “Achei!”. Finalmente o
pacote de bolachas aparecera terminando parcialmente sua agonia. Parcialmente.
A agonia seguinte seria fechar a mochila e colocar nas costas outra vez com
todo aquele rebuliço de fivelas... “Droga!” reclamou em voz alta. O ônibus
estacionava na estação, bem em frente ao toldo amarelo. As pessoas aglomeradas
movimentavam-se freneticamente, conferindo suas bagagens e pretendendo formar
uma fila. Ninguém estava disposto a ficar para trás. “Não vai dar tempo de
comer isso agora... Péssimo timing! Péssimo...” constatou enquanto tentava
chegar ao ponto de parada ao mesmo tempo que colocava a mochila e segurava as
malditas bolachas que a essa altura do campeonato mais pareciam uma colônia de
farelos.
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