Ensaio sobre como a loucura levou Alice ao abismo

Na lápide dela, num cemitério esquecido ao fundo do sanatório, uma carta esculpida em pedra, com letras desgastadas pelo tempo e pela amargura, iluminadas no clarão de um dia frio daquele mês de inverno, confissão sincera recolhida num breve momento de sanidade meses antes de sua queda fatal:

"Conhecer-te foi um deleite. Paixão explosiva, imediata, quase como um raio. Um relâmpago de um amor que exasperava por ser vivido, consumido, que não podia ser contido, que não podia esperar. Necessidade desenfreada para que nossos corpos estivessem juntos, estivessem unidos num só. Minha alma bebia em sua alma a força para seguir em frente, minha visão turvou-se, todos os caminhos pareciam errados a não ser aqueles que me levariam até você.
Vejo no que me tornei. Sou um rastro daquilo que um dia fui. Você me tomou tudo, não só o meu coração. Você tomou meu orgulho, meu sono e minha paz. Você tomou meu comedimento, minha disciplina, meus focos. Você deturpou meus sonhos e objetivos. Você me inseriu dentro de um turbilhão e quando me vi, estava envolvida dentro da tua tempestade. Tempestade essa que não só não era minha como não me oferecia opção de saída, não tive escolha e nem abrigo.
Para teus braços eu corri sem pensar, larguei tudo, rompi com o mundo, queimei meus navios e embarcações, desmoronei meus castelos, apaguei a luz. Por você eu fiquei no escuro muitas vezes, sozinha, entregue a angustias e alucinações, entregue aos mais pesados devaneios e vertigens. Você me tornou doente, doente por você e doente das tuas doenças. Sorvi suas inseguranças, seus anseios, seus receios, seus medos e rancores. Ceguei. Ceguei a mim e a todos em teu nome. Sem perceber, andei na corda bamba imaginando que você me acompanhava de perto, imaginando tua força amparando a minha, teus cuidados envolvendo meu corpo nu, exposto e entregue. Quando desequilibrei descobri estar sozinha, como sempre estive desde o início.
Nunca existiu um nós. Nunca houve tempo, espaço, fábula ou poesia para um nós. Sempre existiu eu, sempre existirá você. Não sei como vai ser daqui para frente. Dentre as tormentas e confusões que vivemos, meu mundo se abriu como uma janela para o novo, a porta para o desconhecido, você me deu a chave. Eu escolhi abrir e explorar. Achei que estava fazendo isso por nós, mas no fundo eu fiz tudo só por mim. Tive sede de novidade, fui seduzida pelo estranho, pelo irreverente, pelo surreal, imergi num sonho pitoresco e profundo do qual não sei mais onde fica a saída. Não tem retorno. Daqui para frente, só o amanhã.
Você está no meu ontem e vai ficar aqui no meu hoje que vai ser ontem assim que o dia amanhecer. E os deuses serão testemunhas do quanto me doei, do quanto prosperei e da longa espera que assumi na ilusão de um dia poder conquistar aquilo que eu acreditava querer.
Não quero mais. Não sei o que quero. Já nem sei mais nem quem eu sou. Você consumiu tudo, tudo o que restava de mim eu entreguei, todos os pontos e apostas, as cartas saíram do monte e voltaram para a mesa inúmeras vezes e agora eu já não sei mais jogar. Cansei.
Penso se tudo isso foi um grande erro. As vezes começo a achar que sim. Mas sei que estou enganada. Sei que hoje sou capaz de compreender o que está escrito nos livros que a humanidade lê e preserva desde tempos imemoriáveis. Sei como se sentem os heróis e heroínas, os amantes proibidos, Romeu e Julieta. Sei. Sei profundamente. E me arrisco dizer que sei bem mais do que todos eles, afinal, fomos e sempre seremos de carne e osso, corpo e alma, mente e coração. Nossos corpos entrelaçaram-se nessa dança epiléptica do desejo incontáveis vezes nas mais variadas formas. Tantas vezes perdemos a noção da hora, tantos encontros que ultrapassaram o raiar do dia. Não me arrependo. Não me arrependo de nada. Do que fui, do que fiz, de quem sou. Só não quero mais você.
E não quero mais porque deixei de te querer. Quero-o cada vez mais, com cada vez maior intensidade, com cada vez mais verdade, da forma mais sincera e enigmática que alguém poderia querer. Isso é fato.
Só não quero que esse amor bandido, traiçoeiro e grotesco turve meus dias com sua loucura. Só não quero mais mergulhar nessa tua insanidade, nessa tua antropofagia que me engoliu e mastigou, picando em pedacinhos aquilo que eu tinha de melhor e de pior, transformando-me num conjunto de retalhos de mim. Isso não.
Não quero desvanecer nesse paradoxo, nessa contradição, nessa escuridão. Não quero me perder no mar bravio se sei que você não vai estar lá, tudo o que ouço é só o canto da sereia e quanto mais avanço, mais distante e difícil fica sobreviver para chegar de volta a terra firme.
Não existe mais um porto seguro. Não existe nem ao menos um porto. Engolida pela onda desse sentimento sublime e obsceno eu me afoguei na paixão não consumada a que fomos acorrentados.
Cada dia mais você afunda nesse universo secreto onde eu não posso entrar. Durante algum tempo eu achei que me via ali, mas eu nunca cheguei nem perto. Nunca passou de um reflexo das minhas próprias projeções, da minha busca incessante por esse fogo fátuo que chamam de vida mas que eu já estou desconfiada até do nome.
Confesso que busquei em você aquilo que ninguém pode me dar, o irreal, o inusitado, minhas utopias. Confesso que foram noites demais, sonhos demais, planos demais, palpitações, lágrimas e desvarios que antes nunca existiram. Eu e você fomos demais. Demais apaixonados, demais desiludidos, demais apavorados, demais aniquilados por nós mesmos.
Duas almas perdidas e assustadas que se agarraram pelo caminho a procura de respostas que ninguém poderá nos dar. Duas almas indispostas que encontraram uma na outra o combustível para seguir em frente. Sigamos então. Só que já não seguiremos juntos. Nossos fardos se tornaram pesados, as estradas ficaram íngremes e chegou o momento de livrar-se de peso extra. Você ficou difícil de carregar. E pensar que poderia ser leve.
Dói. Dói profunda e verdadeiramente. Dói de formas indiscretas e inexplicáveis. Dói mas vai passar. Curar não vai, mas vai passar. Você deixou muito pouco de ti e levou quase tudo de mim. Você deixou cicatriz. Você dói, mas vai passar. Você vai passar.

Quando você passar eu não vou ver. 
Quando você passar eu não vou ser. 
Quando você passar eu não vou estar. 

Mas quando você passar, EU vou existir".

A. L. C.

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