Carta de mil anos

Querido Miguel,

Fico me perguntando onde é que você está, o que anda fazendo ou quem esteve conhecendo nos ultimos tempos.

Fico imaginando o que fez no ultimo natal, com quem foi ao cinema num dia qualquer, as pessoas pra quem você ligou... Coisas que não me dizem muito respeito, mas que ficam ainda rondando meus pensamentos ás vezes uma vez a cada três meses e vez ou outra dia sim e dia não. Coisas das quais nunca vou me desligar totalmente.

Cheguei aqui há tanto tempo e ainda não me adaptei totalmente, acho que nunca vou me adaptar.

Não fiz novos amigos, acho que estou velha demais para isso. Em todos esses anos, conheci gente de tudo que é canto, de tudo que é jeito, de toda espécie e sem igual, contudo, ninguém com quem conversar as tantas longas horas dizendo muita coisa sobre nada, como nós costumavamos fazer.

Acho que abstive-me dos amigos por sua causa. Esqueço-me que não vou mais encontrá-lo, que não estou simplesmente a algumas quadras de distancia de sua casa, mas sim há milhares de quilometros de uma vida já vivida, esqueço-me que temos todo um imenso oceano de escolhas já feitas entre nós dois.

Fico assustada ainda com todas as luzes e cores que  por vezes se destacam no breu da noite dos meus dias, principalmente aquelas que quase dizem o meu nome e parecem me perseguir tentando dizer o quão errada eu estava a respeito disso tudo, mas não posso mais voltar atrás. Ninguém pode.

Posso dizer que desde que nos vemos pela última vez eu conheci um bom pedaço do mundo, mas de vez em quando percebo que mesmo assim, sempre algo me falta. Por mais que eu esteja sempre rodeada de lindos olhos e que não faltem em minha vida mãos e abraços para me acolher, em muitos momentos percebo que nunca estive tão sozinha e vazia.

Sei que você diria que tudo isso é fruto dos meus anseios, da minha força e liberdade que sempre foi maior do que todas as coisas, por vezes maior do que mim mesma. E você teria toda a razão.

Por mais que a vida seja plena e um futuro interessante me motive a seguir em frente, são em noites como essa e em muitas outras que penso em você. Penso com tanta força que é quase como se eu pudesse ouvir sua voz do outro lado da linha telefônica outra vez ou ver seus olhos me contemplando do lado oposto da mesa naquele café que tanto amamos.

Sinto saudades das noites de inverno da nossa juventude, quando ficavamos sentados conversando por longas e longas horas até chegar o frio da madrugada que estalava os ossos e mesmo assim, continuavamos ali quebrando o silencio aterrador da rua já deserta. Saudades de cigarros que nunca paravam de serem acesos e da busca por lugares inusitados para estacionarmos o carro e simplesmente divagarmos sobre a brevidade da vida e a intelectualidade das coisas. Saudades simplesmente de quando nos abraçavamos e ficavamos juntos apenas, da sensação daquele beijo que nunca vinha e daquela amizade que ninguém entendeu.

Ainda é dificil acreditar que você deve estar seguindo sua vida, assim como eu segui a minha. Nesse quesito todo ainda não mudei nada: continuo a mesma alma egocêntrica de sempre. Bobeira da minha parte pensar que talvez você sinta a mesma coisa, que talvez nalgum dia desses você gostaria de receber um telefonema meu, nem que fosse no seu aniversário ou mesmo em nenhuma data especial.

As vezes é quase impossível reprimir o ímpeto que sinto em buscar maneiras de ter notícias de você. Acredito que tudo isso é o reflexo do medo, de não saber o que lhe dizer, como dizer ou o que fazer, medo de você não se lembrar de quem eu realmente fui, medo de telefonar para sua casa e ser atendida pela sua esposa ou sei lá quem for. Confesso.

Imagino que as crianças daquela rua em que você morava já devem estar crescidas, talvez dirigindo seus carros por aí, assim como os mais adultos talvez já devem ser avós.

É uma lista muito imensa de talvezes que me persegue quando penso em você e tem dias que eu simplesmente não sei como lidar. Por mais que o tempo passe eu tenho quase certeza de que nunca encontrarei alguém que me olhe do jeito que você olhava, com tanta verdade e atenção.

Você foi uma das poucas pessoas a enxergar quem eu verdadeiramente sou e querer ouvir com paciencia tudo o que sempre tive a dizer, seja lá sobre o que quer que fosse. E confesso que eu também ouviria você, na sua confusão geminiana tão  única e particular, por todas as noites ou dias, quentes ou frios da nossa existência.

Engraçado como não somos capazes de prever o momento exato em que alguma coisa muito preciosa está deixando de existir para que outra tome o seu lugar. Seja a nossa nova coisa mais valiosa ou não, não importa.

São as separações que não permitiram despedidas, aquelas que mais me fascinam, pois o vazio que elas acabam deixando, vão nos perseguir por muito mais tempo do que talvez durariam os momentos presentes antes da ausência.

Agora que tudo isso foi dito, escrito e publicado para nunca mais ser lido nem por mim e muito menos por você, me sinto um tantinho mais leve e um pouquinho infeliz. Bem pouquinho.

Após revisitar tudo aquilo que nunca fomos e nunca seremos, consigo fechar os olhos e dormir tranquila sabendo que independente de quem você seja e onde esteja no dia de hoje, eu sempre o terei e você sempre me terá como a lembrança mais eterna e confusa, mas ao mesmo tempo real e breve que um ser humano poderia almejar possuir depois de tantos e tantos anos de estradas e curvas no tempo e no caminho.

Obrigada por ser para sempre os meus mais lindos verdes olhos azuis.


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