Introspecção
A rua esguia, rua de todos os dias, estava como habitualmente, cheia de gente que ia e vinha com ou sem passos apressados e sacolas recheadas.
Os carros reduziam a velocidade quando se aproximavam do cruzamento, os estabelecimentos estavam todos abertos e em pleno funcionamento como qualquer outro dia comum.
Carmem andava do lado esquerdo da calçada sem notar o que acontecia à sua volta, tinha os pensamentos fixos no que pretendia fazer quando chegasse na próxima esquina, onde Marcelo a estava esperando.
Na sarjeta, montes das folhagens do outono davam um tom amendoado ao clima cinzento de um dia nublado, mas esse é o tipo de coisa que passa despercebido aos olhares pouco curiosos de pessoas ordinárias bem como os acasos do cotidiano que aparecem de hora em hora.
Ela ia ofegante, vasculhando o fundo da bolsa na procura de cigarros, onde é que eles estavam?
Praticamente todos os dias de sua vida, nos últimos quatro anos, Carmem fazia e refazia aquele trajeto até o trabalho de modo que, já estivera naquela rua em suas mais variadas formas de humor e clima.
Já sofrera com o sol escaldante e infernal que tornara a caminhada ainda mais penosa e o dia ainda mais preguiçoso. Já sentira os dentes rangerem de frio nalguma tarde gelada onde ela arrependera-se profundamente de não ter se agasalhado o suficiente.
Já passara analisando todas as belezas mais simplórias e delicadas que alguém poderia encontrar num trajeto comercial, devido ao pequeno fato de que suas expectativas pareciam estar caminhando para a concretização mais evidente, daí então seu êxtase e alegria interior.
Também já fizera o mesmo caminho sem dar-se conta da rapidez de seus próprios passos, atenuando a cada instante a tristeza e mesmo melancolia que invadia seu coração.
Fosse como fosse, em quatro anos, muitos dias comuns existem, e em sua ordinatoriedade habitual, sempre há surpresas ou fatos que tornam cada um deles especial em si. É sempre assim.
Carmem poderia dizer que naquela rua, já sentira de tudo, já passara por tudo, já vira o suficiente.
Ledo engano.
Ela poderia sim dizer isto ou coisa que o valha, se estivesse vivendo há dois dias atrás ou um pouco mais. Hoje não.
Avistou Marcelo aguardando sua chegada, alto, magro, sorridente, mãos nos bolsos. Ela ainda procurava pelos cigarros.
Ele sorriu quando ela se aproximou, ela não conseguiu retribuir-lhe o sorriso, parecia um bocado afobada.
- Vamos entrar logo? - Perguntou indicando a padaria na esquina.
- Sim, vamos. Porque a pressa? - Ele perguntou num tom preocupado, era a primeira vez que ele a via nesse estado.
- Preciso falar com você. É MUITO importante... - Carmem confessou e eles entraram enfim.
Na padaria, sentaram-se o mais longe do balcão que conseguiram. Não era um horário de muita movimentação, eles eram praticamente os únicos naquele lugar além do atendente e do caixa.
Carmem desistiu de encontrar os cigarros e depositou a bolsa com cuidado sobre a mesa encardida.
- Você quer beber alguma coisa?
- Um café...por favor - Carmem pediu.
Marcelo levantou-se e foi até o balcão, solicitou dois cafés ao atendente sonolento. Num instante estava de volta.
Carmem tomou o café puro, o amargo fervendo em suas gargantas pareceu aliviar em um milésimo negativo, a reviravolta em seu estômago.
Pela primeira vez ela encarou Marcelo, ele a observava sério. Durante muito tempo ela fitou seu rosto em silêncio, as sobrancelhas grossas e a barba por fazer, o maxilar um bocado grande demais para o rosto fino. Marcelo estava longe de ser bonito.
- Marcelo... - ela hesitou por alguns instantes - eu realmente não sei como começar, na verdade eu nem sei como dizer...
Marcelo sorriu encorajando-a para que continuasse, não fazia idéia do que se tratava.
- Há muito tempo somos amigos e, bem, em toda minha vida, acho que não há qualquer outra pessoa em quem eu confiaria mais do que você...
- Puxa, muito obrigado, Carmem, você sabe que eu faço das suas as minhas palavras.
Após esse comentário, os olhos de Carmem ficaram marejados, seu rosto estava lívido.
- Por favor, não torne as coisas ainda mais difíceis do que elas já são, Marcelo!
Ela parecia muito perturbada, Marcelo não sabia como agir.
- Mas eu, eu não estou querendo tornar nada difícil, eu somente estava sendo sincero como você o foi... Carmem, você está muito estranha hoje, logo de manhã quando você me telefonou eu percebi que algo a incomodava... O que é que você está tentando me dizer?
Carmem baixou os olhos e contemplou os próprios joelhos ossudos.
Quando criança, ela nunca aprendera a fazer bolas de chiclete e nunca levou jeito para amarrar o cadarço.
- Vamos... - Marcelo colocou a mão sobre a mão dela - Não acredito que haja algo assim tão complicado de ser dito a um amigo de tão longa data.
Carmem manteve os olhos baixos ainda contemplando os joelhos.
Marcelo fora seu vizinho desde os cinco anos de idade.
- Carmem, não me deixe assim, nessa expectativa tão ruim...
- Marcelo, me promete uma coisa?
- O que você quiser.
Ela ergueu a cabeça e encarou profundamente aqueles olhos acinzentados.
- Promete que, aconteça o que acontecer daqui pra frente, você nunca mais irá me procurar?
A expressão formada no rosto de Marcelo não poderia ser descrita em palavras, mas ficou na memória de Carmem até poucos instantes antes de sua morte, muitos anos depois.
Era talvez um misto de surpresa, incompreensão e desdém.
- Do que é que você está falando, Carmem? O que é que aconteceu? Diga!
- Você disse que prometeria... Por favor, simplesmente desapareça, esqueça a minha eixstência...
- Não! O que é que você quer dizer? Por favor Carmem, pare com isso...
Ela levantou-se bruscamente, apanhou a bolsa sobre a mesa e saiu violentamente pela porta de entrada da padaria.
Marcelo ficou ainda parado por uma fração de segundos e saiu apressado.
Ela virou a esquina com rapidez, apertando a bolsa contra o corpo e não contendo as lágrimas que embaçavam a visão.
Marcelo correu ainda por um bom tempo em seu encalço, e quando pensou tê-la alcançado, deparou-se com uma multidão de pessoas numa estação de trem e o final de suas esperanças.
Carmem não teve coragem, nem nunca teria. Era melhor que ele nunca soubesse, era melhor que ele desaparecesse de sua vida e ela da vida dele, do contrário, nunca se perdoaria.
Os carros reduziam a velocidade quando se aproximavam do cruzamento, os estabelecimentos estavam todos abertos e em pleno funcionamento como qualquer outro dia comum.
Carmem andava do lado esquerdo da calçada sem notar o que acontecia à sua volta, tinha os pensamentos fixos no que pretendia fazer quando chegasse na próxima esquina, onde Marcelo a estava esperando.
Na sarjeta, montes das folhagens do outono davam um tom amendoado ao clima cinzento de um dia nublado, mas esse é o tipo de coisa que passa despercebido aos olhares pouco curiosos de pessoas ordinárias bem como os acasos do cotidiano que aparecem de hora em hora.
Ela ia ofegante, vasculhando o fundo da bolsa na procura de cigarros, onde é que eles estavam?
Praticamente todos os dias de sua vida, nos últimos quatro anos, Carmem fazia e refazia aquele trajeto até o trabalho de modo que, já estivera naquela rua em suas mais variadas formas de humor e clima.
Já sofrera com o sol escaldante e infernal que tornara a caminhada ainda mais penosa e o dia ainda mais preguiçoso. Já sentira os dentes rangerem de frio nalguma tarde gelada onde ela arrependera-se profundamente de não ter se agasalhado o suficiente.
Já passara analisando todas as belezas mais simplórias e delicadas que alguém poderia encontrar num trajeto comercial, devido ao pequeno fato de que suas expectativas pareciam estar caminhando para a concretização mais evidente, daí então seu êxtase e alegria interior.
Também já fizera o mesmo caminho sem dar-se conta da rapidez de seus próprios passos, atenuando a cada instante a tristeza e mesmo melancolia que invadia seu coração.
Fosse como fosse, em quatro anos, muitos dias comuns existem, e em sua ordinatoriedade habitual, sempre há surpresas ou fatos que tornam cada um deles especial em si. É sempre assim.
Carmem poderia dizer que naquela rua, já sentira de tudo, já passara por tudo, já vira o suficiente.
Ledo engano.
Ela poderia sim dizer isto ou coisa que o valha, se estivesse vivendo há dois dias atrás ou um pouco mais. Hoje não.
Avistou Marcelo aguardando sua chegada, alto, magro, sorridente, mãos nos bolsos. Ela ainda procurava pelos cigarros.
Ele sorriu quando ela se aproximou, ela não conseguiu retribuir-lhe o sorriso, parecia um bocado afobada.
- Vamos entrar logo? - Perguntou indicando a padaria na esquina.
- Sim, vamos. Porque a pressa? - Ele perguntou num tom preocupado, era a primeira vez que ele a via nesse estado.
- Preciso falar com você. É MUITO importante... - Carmem confessou e eles entraram enfim.
Na padaria, sentaram-se o mais longe do balcão que conseguiram. Não era um horário de muita movimentação, eles eram praticamente os únicos naquele lugar além do atendente e do caixa.
Carmem desistiu de encontrar os cigarros e depositou a bolsa com cuidado sobre a mesa encardida.
- Você quer beber alguma coisa?
- Um café...por favor - Carmem pediu.
Marcelo levantou-se e foi até o balcão, solicitou dois cafés ao atendente sonolento. Num instante estava de volta.
Carmem tomou o café puro, o amargo fervendo em suas gargantas pareceu aliviar em um milésimo negativo, a reviravolta em seu estômago.
Pela primeira vez ela encarou Marcelo, ele a observava sério. Durante muito tempo ela fitou seu rosto em silêncio, as sobrancelhas grossas e a barba por fazer, o maxilar um bocado grande demais para o rosto fino. Marcelo estava longe de ser bonito.
- Marcelo... - ela hesitou por alguns instantes - eu realmente não sei como começar, na verdade eu nem sei como dizer...
Marcelo sorriu encorajando-a para que continuasse, não fazia idéia do que se tratava.
- Há muito tempo somos amigos e, bem, em toda minha vida, acho que não há qualquer outra pessoa em quem eu confiaria mais do que você...
- Puxa, muito obrigado, Carmem, você sabe que eu faço das suas as minhas palavras.
Após esse comentário, os olhos de Carmem ficaram marejados, seu rosto estava lívido.
- Por favor, não torne as coisas ainda mais difíceis do que elas já são, Marcelo!
Ela parecia muito perturbada, Marcelo não sabia como agir.
- Mas eu, eu não estou querendo tornar nada difícil, eu somente estava sendo sincero como você o foi... Carmem, você está muito estranha hoje, logo de manhã quando você me telefonou eu percebi que algo a incomodava... O que é que você está tentando me dizer?
Carmem baixou os olhos e contemplou os próprios joelhos ossudos.
Quando criança, ela nunca aprendera a fazer bolas de chiclete e nunca levou jeito para amarrar o cadarço.
- Vamos... - Marcelo colocou a mão sobre a mão dela - Não acredito que haja algo assim tão complicado de ser dito a um amigo de tão longa data.
Carmem manteve os olhos baixos ainda contemplando os joelhos.
Marcelo fora seu vizinho desde os cinco anos de idade.
- Carmem, não me deixe assim, nessa expectativa tão ruim...
- Marcelo, me promete uma coisa?
- O que você quiser.
Ela ergueu a cabeça e encarou profundamente aqueles olhos acinzentados.
- Promete que, aconteça o que acontecer daqui pra frente, você nunca mais irá me procurar?
A expressão formada no rosto de Marcelo não poderia ser descrita em palavras, mas ficou na memória de Carmem até poucos instantes antes de sua morte, muitos anos depois.
Era talvez um misto de surpresa, incompreensão e desdém.
- Do que é que você está falando, Carmem? O que é que aconteceu? Diga!
- Você disse que prometeria... Por favor, simplesmente desapareça, esqueça a minha eixstência...
- Não! O que é que você quer dizer? Por favor Carmem, pare com isso...
Ela levantou-se bruscamente, apanhou a bolsa sobre a mesa e saiu violentamente pela porta de entrada da padaria.
Marcelo ficou ainda parado por uma fração de segundos e saiu apressado.
Ela virou a esquina com rapidez, apertando a bolsa contra o corpo e não contendo as lágrimas que embaçavam a visão.
Marcelo correu ainda por um bom tempo em seu encalço, e quando pensou tê-la alcançado, deparou-se com uma multidão de pessoas numa estação de trem e o final de suas esperanças.
Carmem não teve coragem, nem nunca teria. Era melhor que ele nunca soubesse, era melhor que ele desaparecesse de sua vida e ela da vida dele, do contrário, nunca se perdoaria.
Se ela era uma assassina, ele não tinha nada a ver com isso.
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