Lúcia e o Louco
Lúcia o acompanhava com os olhos. Aquela figura estranha, grotesca, quase bruta era tudo o que ela tinha.O louco atirou-lhe uma parte do pão que comia, ela não se moveu. Ficou ali, parada, encolhida sobre as velhas caixas que lhe serviam de cama até então.O cheiro de podridão que impregnava aquele beco chegava a dar náuseas. Faziam semanas que a chuva parara, mas ali, a água estagnada formava poças negras pelos cantos.A atmosfera era de umidade e doença. Um grande tambor de lixo estava revirado a poucos metros da pequena, deixando a mostra todo o tipo de elementos em decomposição.Lúcia era uma menina doente. Na verdade, Lúcia estava morrendo. Ela tinha câncer, antes no cérebro, agora por toda parte, motivo pelo qual fora abandonada ali.Vestígios de tratamento eram tão visíveis quanto os da enfermidade: grandes falhas no couro cabeludo contrastavam com sua forma desnutrida e abatida. Feridas em seu pescoço pareciam cada dia mais profundas assim como se acentuava a palidez em suas faces.Os poucos fios de cabelo que restavam eram castanhos e os olhos, emoldurados pelas pálpebras avermelhadas eram quase azuis, sendo que o esquerdo começava a apresentar uma coloração esbranquiçada talvez devido ao surgimento de alguma catarata ou coisa que o valha.Antes chorava baixinho, indefesa à dor, ao frio e a fome. Agora já nem tinha forças para se manter muito tempo acordada.Lucia era o retrato vivo, real e chocante, prova sincera de que a crueldade humana não tinha limites.Nunca fora maltratada, nunca apanhara ou sofrera qualquer outro tipo de violência, se acontecera provavelmente ela era jovem demais para ter lembranças. Fora abandonada ali como se abandona a um objeto estragado que não se quer mais. Um dia já fora saudável, um dia rira e brincara alegre como qualquer criaturinha de quase cinco anos. Um dia.Assim como um dia adoeceu. Foram idas a hospitais e noites insones, picadas em seu braço e dores no limite do suportável. E então, Lúcia adormeceu.Adormeceu por muito tempo e quando acordou sentia frio, muito frio e pode ver ao longe dois pares de pernas se afastando depressa antes que ela pudesse pedir por algo. Desde então fora assim, na verdade desde o dia em que ele a encontrou.Um homem robusto e estranho cujo rosto profundamente marcado por sinais e cicatrizes ocultava uma história misteriosa, que despertava curiosidade de uns e receio de outros. Nunca tivera uma casa, nunca tivera família, nunca tivera nada. Não que alguém soubesse. De acordo com o resto do mundo ele simplesmente surgira e ali ficara.Vagava geralmente durante a noite, pés descalços, cabelos e barba num emaranhado sem igual, na mão esquerda faltando o polegar.Usava um casaco marrom, surrado e tão imundo quanto o beco onde Lúcia estava. Muitas vezes a polícia já fora acionada em relação ao medo que ele inspirava às pessoas, mas nunca dera indícios de qualquer comportamento violento ou não.Nunca interagira com alguém, simplesmente vagava pelas ruas, às vezes em silêncio outras vezes murmurando palavras em línguas inexistentes. Vivia da caridade que cruzava seu caminho e dos restos que acompanhavam o mundo.Já fazia alguns dias que Lúcia estava naquele beco quando ele a encontrou. Talvez pensasse que ela era alguma espécie de boneca ou coisa que o valha. Talvez não pensasse nada. Era difícil conseguir aceitar que poderia haver alguma atitude humana daquele ser tão medonho.Dizer que Lúcia não se sentiu assustada ao ver aquela figura monstruosa aproximar-se dela seria mentir, porém seu estado fraco e adoecido, quase moribundo não lhe permitiu demonstrar qualquer reação.O louco cuidou dela.Ocupou-se em encontrar algo que a pudesse aquecer e depois passou a dividir com ela toda a comida que conseguia para si, de modo que isso foi suficiente para alongar a sobrevida de Lúcia por um período de tempo maior.Nunca demonstrava qualquer sinal de entendimento do mundo ao seu redor: agia por instinto. Vez ou outra grunhia.Era aquela figura estranha que os olhos fundos e lacrimejantes de Lúcia acompanhava.A pequena criança ali encolhida, corroída pelo demônio da enfermidade contrastava com a sombra macabra daquele homem, era uma fusão do sublime com o grotesco. Ambos representavam quase um ideal romântico, o que era quase uma ironia.Ela sabia que não sobreviveria àquela noite e de alguma forma ele também sabia.Pudera Lúcia ter formas suficientes para colocar-se de pé, andar até ele e dar-lhe um abraço de gratificação, o abraço que ele tanto merecia e nunca ganharia.Pudera o louco ter lucidez suficiente para entender o quanto aquela criaturinha a sua frente precisava de auxílio.Pudera ambos ter oportunidade e meios de demonstrarem um ao outro o quanto estavam cativados.Ele empurrou mais para perto dela a parte do pão que ela não apanhou, a dor que começava a envolver o seu corpo nesse momento foi tamanha que a fez gritar.Num momento de desespero, no torpor daquela sensação de agonia Lucia estendeu ao louco suas mãos numa súplica por algum socorro, fosse ele qual fosse.O louco aproximou-se da menina que sofria de maneira inimaginável, em outras circunstâncias ele se afastaria e lhe abandonaria com seus gritos e contorções para nunca mais procurar aquele beco ou qualquer outro, mas não podia.Não podia abandoná-la ali, não podia suportar vê-la daquela maneira. Ele não entendia como ou porque, mas estava disposto a qualquer coisa para ajudá-la.Com grande hesitação ele aproximou-se. Com cautela e uma delicadeza jamais exprimida, afagou-lhe os poucos cabelos e tocou-lhe o rostinho magro.Embalada pelo toque daquele homem, a agonia foi ficando menor, o ar foi se tornando mais denso e Lucia adormeceu tranqüila como jamais havia adormecido nos últimos dias.Aos poucos suas dores foram se anulando, seu coração se aquietando e ela começou a se tornar parte daquele toque, daquele beco, daquelas sombras, daquele louco.Dias mais tarde, fez-se manchete de todos os jornais regionais, a prisão do louco da cidade que foi encontrado num beco escuro, com uma criança estrangulada nos braços.Muitas pessoas o julgaram e muitas ainda continuam a fazê-lo.O louco foi o retrato vivo, real e chocante, prova sincera de que a insanidade humana não é de todo, vulgar.Certo ou errado, não importava, ele havia encontrado um meio de sanar a dor de Lúcia. Ele havia proporcionado-lhe a única coisa que ela mais precisava e que ninguém seria capaz de o fazer.Ele havia libertado-a, e agora ela voava longe e estava onde merecia estar.
Comentários
Hoje consegui(finalmente!) ler todos os seus contos. Uns macabros, uns tocantes, complexos..... este blog é realmente você!
Achei interessante o "Pretensão", parece que em lembrou algo.... Só discordo dum ponto. Só é tarde demais se vc deixar ser....
Estou aqui, ok!
Beijos enormes no seu coraçãozinho e lambeijos pra Cully!
Te amo infinito!
Picia
P.S. - Já fiz a maior propaganda do seu blog e vídeo!