Enfim, Carolina

Carolina digitava tudo aquilo muito rápido, não por pressa, por habilidade. De tempos em tempos, conferia o relógio no canto da tela e esticava as costas na cadeira. Aquela sexta feira ordinária não lhe guardava muitos outros atrativos senão o conforto de seu apartamento dali a algumas horas e dois dias livres de preocupações. Era quase utópico, mas não fazia diferença alguma. Levava uma vida mecânicamente regrada, em função de horários e obrigações. Já não era tão jovem mas talvez fosse tudo um bocado exagerado afinal, com 27 anos ainda deveria haver algum espaço para sonhos, ou pelo menos alguma esperança. Mas não havia. Há 4 anos formara-se na faculdade de administração, que era consequência de expectativas ralas e falta de opinião própria. Desde então, não conhecera outro lugar a não ser aquela sala. A cor das paredes nunca a agradara e o ar condicionado sempre a deixara desconfortável, ao resto, se acostumou. Quase não sentia aquela tendinite e já bastava. O salário era muito bom e os benefícios relevantes o que tornava aquilo ali, praticamente a sua única opção. Terminou o relatório em tempo record e o encaminhou para a caixa de email de qualquer superior. Deu uma geral na sua própria caixa de email, talvez na esperança de encontrar algo que valesse o esforço. Nada. Nas salas laterais e superiores do prédio, barulho de passos apressados. Passos de salto alto. Passos de sapatos chatos. Passos calculistas, arrastados, cansados. Passos alegres com o final do expediente mas desanimados com o trânsito. Carolina também pensava naquilo. Chovera bastante algumas horas antes e isso com certeza acarretaria em caos na pista expressa ou coisa que o valha. Procurou não pensar nisso ainda. Separou alguns documentos e papéis que deveriam ser entregues ao correio na segunda feira pela manhã. Organizou de maneira sistemática os objetos de sua mesa. Ainda antes de sair da sala, conferiu se desligara corretamente o computador e se a secretária eletrônica estava devidamente programada. Recolheu as chaves do carro no fundo de uma gaveta e jogou-as em sua bolsa. No caminho para o elevador, Carolina verificou no visor do celular se havia ali qualquer chamada que não atendera no decorrer do dia ou qualquer mensagem de texto que escondera-se de seus olhos. Nada. A calçada molhada era como uma plataforma estratégicamente construída para tropeços e escorregadas. Lançou um sorriso cansado para aqueles que encontrou na recepção.

No estacionamento em frente ao prédio, uma fileira de carros que tentavam ir e vir ao mesmo tempo, pairava no ar, ruído de buzinas e comentários mal-educados. Mais do que intimamente ela desejou apenas chegar em casa da maneira mais breve e menos tumultuada. Uma hora e quarenta minutos foram gastos para percorrer o percurso que habitualmente Carolina costumava gastar vinte e cinco minutos em horários menos congestionados. Quis bater em si mesma ao constatar que esquecera o rádio dentro de alguma gaveta em sua mesa, o que a privou de tentar se distrair em meio aquela confusão de carros e semáforos. Assim que entrou em seu apartamento naquele oitavo andar, suspirou. Por um milagre, lembrara de trazer consigo o controle remoto do portão automatizado, cuja bateria estava capenga e vinha sendo motivo de grande frustração sempre que ela precisava entrar ou sair da garagem. Trancou a porta atrás de si com um alívio interior de que estava acabado, fora mais uma semana de merda. Um miado alto, barulho de patinhas e um ronronar. Como de costume, seu gato viera recebê-la na porta afim de lembrar-lhe que estava com fome. Ela acariciou-lhe o pescoço com delicadeza e preencheu o pote azul de plástico barato com montes de grãos de ração. Uma calda escovada roçou-lhe o pescoço em agradecimento. Três anos atrás mudara-se para aquele lugar. Nâo era nada ruim, na verdade era um bocado bonito. Não passava ali muito tempo, a não ser durante a noite e aos finais de semana, onde somente fazia bom uso do sofá, portanto tudo estava sempre bem ajeitado. Ela e Napoleon estavam juntos já fazia 5 anos. Tal união sempre fora motivo de atrito na casa dos pais, já que sua mãe e seu irmão eram alérgicos a gato. HOje em dia, nada os incomodava. Carolina não tinha muitos amigos. Talvez em algum período de sua vida ela poderia ter tido, isso se não tivesse sido alheia demais ao mundo e procurado construir laços afetivos com aqueles com quem convivia. Se bem que, não sentia muita falta disso, é bem fácil ignorarmos a falta daquilo que nunca tivemos. Se sentia falta de alguém, era de Denise.


Denise fora, sem dúvida alguma, a única e melhor amiga que tivera desde sua adolescência. Foram tempos bons, aqueles. Divertiam-se muito juntas e tinham alguns sonhos que de uma maneira ou de outra desejavam realizar de acordo com as circunstâncias. Assim foi durante alguns anos, num mundo de idéias e ideais, a maturidade foi consequência.
Então Denise conheceu Maurício. Maurício era um cara legal, Carolina sabia. Eles formavam um bonito casal, Carolina também sabia. Talvez até estivesse felizes. O que ninguém sabia ou saberia, era que Denise engravidaria em um espaço de tempo desagradavelmente pequeno. Com 18 anos, Denise já havia se casado e morava com Maurício numa casinha ordinária num canto da cidade, abdicando de sua juventude para fazer crescer a criança que viera ao mundo e lutar para conseguir manter firme as pernas daquela união tão bruscamente consumada. Desde essas mudanças repentinas, Carolina habituara-se a solidão de seus dias corridos, voltados unicamente ao seu trabalho e qualquer distração de vez em quando. Primeiro elas se viam periódicamente, nalguns finais de semana ou mesmo dias normais onde ainda havia disponibilidade de alguma forma. Depois, as visitas foram se extinguindo aos poucos e tudo o que tinham eram telefonemas. Os telefonemas foram ficando vagos, os assuntos divergindo entre a vida doméstica de Denise e as peraltisses do filho. Estes então se tornaram cada vez mais raros até que a amizade de anos anteriores se converteu em suaves encontros no mercado onde comentários simbólicos e sorrisos cordiais eram disfarces da saudade opaca e da expectativa ilusória de como tudo poderia ter sido. Uma vez, Carolina encontrou Maurício no mercado e, despojando de pouca cordialidade, ele deixou claro que ele e Denise não sentiam por ela nada mais do que pena de sua solidão. Foi o suficiente para que o casal comprasse de Carolina uma indiferença mortal, a indiferença é a linha tênue que separa amor e ódio. Nunca mais soube deles.


Quatro noites. Quatro noites seguidas que ela sonhara com ele, já não estava mais agüentando. Demoraria muito para que tudo parecesse mais claro? Provavelmente ela desistiria dentro de pouco, Carolina sempre desistia. Fazia três meses que Augusto entrara em sua vida. Três meses apenas, mas sua fantasiosa imaginação já criara tantas situações que parecia dividir com ele toda uma vida. Um homem comum, não era bonito ela admitia, não aos olhos do mundo, mas aos olhos de Carolina... Os olhos de Carolina haviam pintado sobre Augusto uma imagem quase burlesca e era talvez a essa imagem que ela estava agarrada. Augusto trabalhava em uma empresa qualquer que tinha algumas conciliações com a empresa em que Carolina trabalhava, isso já durava muito tempo e era comum haver grande interação entre essas duas empresas. Fora um encontro rápido que teve de ser estendido a um almoço, tamanha foi a simpatia que um despertou ao outro. Augusto era um bocado engraçado e inteligente, o que aos poucos foi despertando em Carolina um interesse maior em suas opiniões e gostos pessoais. Depois desse dia, ambos passaram a trocar muitos emails que já não estavam tão relacionados a compromissos profissionais. Saíram mais algumas vezes, foram os mais inusitados passeios que iam desde almoços rápidos até visitas ao jardim zoológico da cidade. Dias mais tarde e Carolina era outra. Augusto tornara-se seu principal foco de afeto até então e aos poucos esse afeto começou a desenvolver-se e como qualquer tipo de sentimento involuntário, passou a confundir Carolina. Ela já não sabia se desejava a companhia de Augusto ou se desejava o próprio Augusto. Não entendia porque se sentia tão bem quando estava ao lado dele e não conseguia encontrar explicação para o tamanho da saudade que alguns dias sem notícias dele, invadia seu coração. Daí então, Carolina alimentava a ingênua e cruel esperança de que talvez Augusto assim também se sentisse em relação a ela, mas era praticamente impossível conseguir extrair do comportamento dele, qualquer evidência de alguma correspondência.


Foi numa noite de verão. Depois de quase dois meses sem muitas notícias, Carolina e Augusto finalmente saíram novamente. A peça, uma sugestão dela, o jantar por conta dele. Augusto estava bonito. Carolina decidira que não passaria daquela noite, ela tinha de dizer a ele como se sentia. Esperou até o ultimo momento. Quando o carro parou frente ao prédio onde ela morava, um solavanco apossou seu coração. Augusto aceitou seu convite para subir. Carolina comprimia a pequena bolsa de mão junto ao corpo para esconder o nervosismo... Há muito tempo vinha planejando aquilo, de modo que, o simples fato de estarem ali naquele momento, já lhe era uma grande vitória. Ele elogiou o quadro na parede da sala, foi o primeiro que demonstrou sinceridade em seu julgamento. Sentaram-se no sofá e conversaram alguns instantes antes que ela se oferecesse para preparar um café. Foi até a cozinha, mas voltou logo em seguida. Fitou-o. Augusto estava ali, simplesmente ali. Aquele que vinha sendo o motivo de tanta luta interior encontrava-se sentado em seu sofá, aguardando por sua companhia. Respirou fundo. “Augusto, eu...”. Carolina aproximou-se, uma almofada no colo. “Enquanto eu falar, peço que faça silêncio...” Ela atirou-se sobre ele. Olhos fechados, pulso firme. Carolina falava, falava, falava tudo. Augusto ouvia. Carolina continuou falando, Augusto revolvia os olhos, os braços, as mãos. Eis então, o alívio. Finalmente ela dissera-lhe tudo. Todas as suas expectativas, todos os seus planos, tudo o que sentia, tudo. Uma pena que Augusto já não lhe poderia escutar mais. Colocando a almofada ao lado, Carolina admirou aquele jovem homem no sofá. Os olhos petrificados numa expressão de angústia, a boca arroxeada e a cor de sua pele desaparecendo lentamente, como vinho que vaza de uma garrafa. Ela teve de mata-lo, uma pena não ter conseguido faze-lo muito antes, teria sido ainda mais bonito. Ele não a ouviria, ela sabia. Ele não a corresponderia, ela sabia. Sabia? Sim, Carolina sempre sabia. Já havia perdido tempo demais em suas próprias esperanças, já havia passado tempo demais assistindo histórias alheias. Carolina escrevia sua história, como nunca o sonhara em fazer... E que história era aquela! Que história! A história de amor mais bela que ela já tivera notícia: quando a heroína finalmente confessa seu amor, o amado já não é capaz de ouvi-la. Com ajuda de um garfo e algumas toalhas para estancar o sangue, ainda quente, Carolina cuidadosamente arrancou os olhos do corpo de Augusto, guardando-os numa caixa de jóias.“Uma singela prova de amor...” pensou “Augusto iria querer assim” disse enquanto colocava o corpo dentro de uma mala de viagem.

Em menos de vinte e quatro horas mais tarde, Carolina embarcava em um vôo para Londres, aceitara a proposta de emprego em um cargo superior ao seu, nada mais a prendia ali. No estacionamento, uma mala de rodinhas jazia esquecida. Denise não compreendeu o motivo pelo qual Maurício fora levado pela polícia na tarde seguinte e nem porque ele foi condenado há tantos anos de prisão por homícidio. Assim como nunca compreendeu o motivo pelo qual seu filho era tão agitado e nem o que teria acontecido com a velha mala de viagem de Maurício, que desapareceu com grande parte de seus documentos.

Carolina não dava ponto sem nó. Sentada na poltrona do avião, via a cidade transfigurar-se em pontilhismo na janela. Na bagagem de mão, uma caixinha de jóias com a maior prova de amor que alguém poderia lhe dispor. Assim que chegasse na Inglaterra, enviaria à Denise uma carta, alegando estar consternada com a solidão da qual a jovem mãe estaria sofrendo.

[ N. da A. : Os espaços entre os parágrafos acima descritos são, nada mais, do que intervalos de idéias. Carolina foi escrita em fragmentos aqui e ali, alguns no Bloco de Notas, outros em folhas de caderno e até em saco de pão ou coisa que o valha desde 2005. Pretendia concluí-la qualquer hora mas percebi que está além de minhas possibilidades, reuní então tudo aquilo que daria sentido a pelo menos uma passagem, eis aqui.]

Comentários

Sonic Guacamole disse…
Quando não há morte, ou há Inglaterra ou há Augusto... Nesse caso temos todos, pode-se considerar que é toda a poética de sua obra. Fantástico, não?

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