Suplícios de Capitu


A angústia que me dominava era aterradora, inexplicável.
Aquela lembrança me estremecia, causava vertigem.
Vertigem essa, que se principiava não no sentimento concreto, mas na acentuação da dúvida.
Talvez fosse a vertigem do imaginário do plano.
Se assim se passasse, era esperança. Qual a diferença entre esperança e expectativa?
Esperança existe ou não existe. Expectativa se cria. Eis tudo.
A vertigem era, então, conseqüência da fusão entre ambas, que resultava na angústia. Ironia. Na verdade, lógica.
O resultado era um vazio, afinal.
As coisas estavam pálidas, opacas, cruéis. O ar estava quente, sufocante, bruto. Tudo em função da lembrança, de imagem, da pessoa.
Era como se o mundo girasse, mecânica e ordinariamente de modo que não haveria muito que fazer, senão aceitar.
Deslocamento era o que eu sentia e não existiam motivos.
Poderia algo tão simples tornar-se tão perturbador?
Voltei a dizer: era a dúvida.
A vertigem se evidenciava como um som estridente e tribal que aos poucos entrava, envolvia, dominava. Já não podia andar.
A respiração ofegante denegria a situação. Uma variação muito grande de pensamentos, riscos, escolhas.
Riscos, ali estava a atual questão. Poucos e grandes, causavam desespero. Como agir, afinal?
Eu já sabia. Eu sempre soube, mas não fizera e estava sujeita a admitir que não o faria. Valia tanto a pena? E, porque não valeria?
Muito a perder? Muito a ganhar? Sim e não, não e sim, sei lá, não sei.
Ah! E lá vinha ela, a vertigem. As horas corriam, as pessoas falavam, doía. Doía uma dor interna, implícita.
Era como se chovesse. Chovia a cântaros dentro de mim e abafava. Abafava e afogava. Pronto. O que fazer? O que pensar? O que dizer?
Ah! Se eu pudesse entender...
Mas não entendia, não entendia porquê, inconscientemente eu adivinhava como seria dali algum tempo, ou como não seria.
Sabia-se de onde vinha a dúvida?
De lá, de lá, só e somente, sorrateira. A dúvida era eu.
Eu estava ali, dentro de mim e gritava, enquanto que fora, calava.
No semblante, esperava. Os olhos ardiam. A cabeça quente. Pouco a se fazer, ninguém via.
Perguntavam, mas, na verdade, não queriam saber. Gás. Era como um gás, a vertigem. Espalhava e crescia, involuntária e desenfreadamente.
Logo acabava, tão rápido quanto a felicidade eterna, a alegria etérea, o contentamento insano que surge em ondas radioativas de freqüência duvidosa, nula.
Engraçado, era a palavra. Medo, talvez medo. Na realidade, insegurança.
Não estar ao comando confundia, humilhava.
Eu poderia amar, obcecar, mas seria pungente demais, alheio demais, previsível.
Resignava-me odiando para que, aos poucos, quem sabe o ódio enfraquecesse a dúvida e assim a vertigem sumisse, apagasse.
Então explodiu, eclodiu.
Eu sangrava com violência e morria lentamente...
A visão escurecia, o sentimento fugia.
O último fôlego, e foi-se.
Afinal, ainda era só segunda-feira.

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