(Dis)tração
Todos os lugares pareciam estar ocupados quando eles finalmente entraram no planetário.
Tinham caminhado o suficiente para ainda estarem ofegantes e pareciam emanar o calor que sentiam, apesar do forte ar condicionado.
Uma mulher sentada na extremidade da fileira em que encontravam-se sentados, fazia calar uma criança que ameaçava chorar. Ambos trocaram um olhar de censura.
As pessoas atrasadas reclamavam baixinho quando descobriam que teriam de sentar em lugares separados. Estar em dois é sempre uma vantagem, ambos pensaram.
Foi preciso certo tempo para ficarem devidamente acomodados em seus lugares. Enquanto aguardavam, conversavam baixinho. Foi ela quem falou primeiro:
"Isso aqui está me lembrando um filme..."
"Qual?" Ele perguntou interessado.
"Aquele filme com o James Dean, Juventude Transviada, sabe? Quando eles vão ao planetário com a escola..."
Ele sorriu.
"Acredita que quando eu vim aqui pela primeira vez, disse exatamente a mesma coisa?"
"Jura? Adoro aquele filme..."
"Eu adoro esse lugar."
"E eu adoro você." Ela pensou em dizer, mas não disse. Deveria ter dito.
Quando as luzes finalmente se apagaram e todos os avisos à respeito das saídas de emergência e extintores de incêndio foram dados, ela ainda pôde ouvi-lo uma última vez:
"Gosto muito dessa escuridão".
Então, o mundo que os envolvia dissolveu-se como se dissolvera a luz e os cochichos ao redor.
Era noite, uma noite densa, profunda, poética. Não havia como negar.
Mil pontos brilhantes imitavam o céu da madrugada de qualquer data do ano de 1957, era quase impossível de acreditar que o céu da cidade de São Paulo uma noite já fora assim.
Foi uma viagem mágica, atemporal, inquietante, contudo, simples. As ilusões podem satisfazer ao invés de ferir.
Ela encantava-se com o que seus olhos viam. Ele divertia-se com a expressão dela, apesar de não poder contemplá-la. Ela queria agradecê-lo. Ele queria entendê-la.
Já passara muito tempo desde que divertiram-se juntos da última vez, muita coisa mudara.
Era quase como se estivessem conhecendo-se pela primeira vez. Aspiravam a isso tanto quanto aspiravam a alegria infantil de deixarem-se enganar com as estrelas. Falsas estrelas.
"As estrelas são como qualquer espécie de sentimento." Ela pensou consigo mesma. "Mesmo depois que morrem, seu brilho continua lá, como um colar de diamentes numa vitrine, caro demais para ser usado, bonito demais para ser guardado. Quando desaparece, ninguém nota, afinal já estava lá há tanto tempo que se tornara invisível". Irritou-se, estava sendo melancólica.
Ele parecia não pensar. Parecia lutar contra a realidade que os aguardava lá fora, uma realidade brutal e adulta, onde responsabilidades e compromissos faziam desaparecer todo o resplandecer do que era simples e vital.
Aquilo ali poderia durar para sempre.
Os cinqüenta e cinco minutos da sessão passaram-se como dois segundos. Num piscar de olhos já não era mais noite, nem 1957. Era uma tarde nublada de um dia nostálgico que eles poriam fim dali a um quarto de hora.
Isso doeu.
Doeu como nunca imaginaram que doeria. Doeu como a despedida mais ardilosa e desesperadora que se pode imaginar. Doeu tanto que não disseram uma palavra, apenas ficaram ali.
As outras pessoas saíam falantes, algumas com pressa, entediadas, outras ainda fascinadas.
Desta vez, foi ele quem falou primeiro:
"E então? Gostou?"
Ela respondeu um sorriso embaraçado. Certamente que gostara, só não estava gostando da idéia de irem embora, demorarem a se falar, não mais encontrarem-se. Tinha que agradecê-lo. Ele continuou:
"É fantástico como fica parecido com o céu da cidade em uma noite chuva, não?"
"Sim, é." Ela respondeu. Não estava prestando a mínima atenção, só pensava em agradecer-lhe, queria muito agradecê-lo.
"Vambora?" Ele perguntou.
Ela preciptou-se sobre o braço da poltrona que os separava (e como vinha odiando aquele braço!), aproximou-se devidamente e deu-lhe um beijo na bochecha.
"Ninguém nunca me trouxe ao planetário!"
Ele pareceu não estar constrangido. Só pareceu. Por dentro, suava frio.
"Aí está." Disse pouco antes de levantar-se.
Lá fora, a chuva parára e o céu parecia ter clareado exageradamente. A impressão que tinham, era que haviam voltado no tempo. Falsa impressão, falsa empolgação agora que estava próximo ao fim.
Demoraram-se um instante para admirar o lago. Os prédios ao fundo competiam com as árvores ao redor, para ver quem encarnava maior grandeza naquela cidade. De certo que eles venciam-nas facilmente.
"Se eu tivesse uma câmera... Tiraria uma foto disso." Ele comentou enquadrando a paisagem com as mãos. Ela enquadrava seu rosto com os olhos.
"Eu estou tirando uma agora..." Ela pensou. "E essa não corre o risco de não ficar boa."
É claro que ela não disse.
Refizeram o caminho que haviam feito anteriormente, concentrados no esforço físico. Definitivamente era uma caminhada desconfortável, mas não podiam pedir por algo mais agradável, a não ser aquele dia todo, outra vez.
Uma despedida rápida, sem muito o que expor. A incerteza do reencontro incomodava mortalmente a ambos. Não deixaram transparecer.
Tomando rumos opostos, entregaram-se a seus próprios pensamentos, suas concepções mais íntimas, sua negligência para com o outro.
Porque haviam demorado tanto? Ela pensava. O que haviam feito de errado?
Nada.
Esse era o problema. As coisas eram perfeitas demais para serem verdadeiras.
Um vento cortante, aglomeração e o metrô.
Agora, o planetário parecia estar distante. Tão distante quanto as estrelas realmente o estão.
Tão distante quanto aquilo que ele sentira há algum tempo.
O planetário nunca mais ficaria próximo. Não tão próximo como era o rancor que ela sentia. Rancor pelo caminho que optara seguir sem antes analisar os meios ou as opções. Sem dar chance àquilo que poderia dar muito certo, apesar de tudo ter sido tão incerto.
Rancor que fazia-na andar de maneira descompassada e solitária.
"Droga!" Foi o que pensou.
Estava perdida e nem um pouco disposta a encontrar o caminho de volta.
Tinham caminhado o suficiente para ainda estarem ofegantes e pareciam emanar o calor que sentiam, apesar do forte ar condicionado.
Uma mulher sentada na extremidade da fileira em que encontravam-se sentados, fazia calar uma criança que ameaçava chorar. Ambos trocaram um olhar de censura.
As pessoas atrasadas reclamavam baixinho quando descobriam que teriam de sentar em lugares separados. Estar em dois é sempre uma vantagem, ambos pensaram.
Foi preciso certo tempo para ficarem devidamente acomodados em seus lugares. Enquanto aguardavam, conversavam baixinho. Foi ela quem falou primeiro:
"Isso aqui está me lembrando um filme..."
"Qual?" Ele perguntou interessado.
"Aquele filme com o James Dean, Juventude Transviada, sabe? Quando eles vão ao planetário com a escola..."
Ele sorriu.
"Acredita que quando eu vim aqui pela primeira vez, disse exatamente a mesma coisa?"
"Jura? Adoro aquele filme..."
"Eu adoro esse lugar."
"E eu adoro você." Ela pensou em dizer, mas não disse. Deveria ter dito.
Quando as luzes finalmente se apagaram e todos os avisos à respeito das saídas de emergência e extintores de incêndio foram dados, ela ainda pôde ouvi-lo uma última vez:
"Gosto muito dessa escuridão".
Então, o mundo que os envolvia dissolveu-se como se dissolvera a luz e os cochichos ao redor.
Era noite, uma noite densa, profunda, poética. Não havia como negar.
Mil pontos brilhantes imitavam o céu da madrugada de qualquer data do ano de 1957, era quase impossível de acreditar que o céu da cidade de São Paulo uma noite já fora assim.
Foi uma viagem mágica, atemporal, inquietante, contudo, simples. As ilusões podem satisfazer ao invés de ferir.
Ela encantava-se com o que seus olhos viam. Ele divertia-se com a expressão dela, apesar de não poder contemplá-la. Ela queria agradecê-lo. Ele queria entendê-la.
Já passara muito tempo desde que divertiram-se juntos da última vez, muita coisa mudara.
Era quase como se estivessem conhecendo-se pela primeira vez. Aspiravam a isso tanto quanto aspiravam a alegria infantil de deixarem-se enganar com as estrelas. Falsas estrelas.
"As estrelas são como qualquer espécie de sentimento." Ela pensou consigo mesma. "Mesmo depois que morrem, seu brilho continua lá, como um colar de diamentes numa vitrine, caro demais para ser usado, bonito demais para ser guardado. Quando desaparece, ninguém nota, afinal já estava lá há tanto tempo que se tornara invisível". Irritou-se, estava sendo melancólica.
Ele parecia não pensar. Parecia lutar contra a realidade que os aguardava lá fora, uma realidade brutal e adulta, onde responsabilidades e compromissos faziam desaparecer todo o resplandecer do que era simples e vital.
Aquilo ali poderia durar para sempre.
Os cinqüenta e cinco minutos da sessão passaram-se como dois segundos. Num piscar de olhos já não era mais noite, nem 1957. Era uma tarde nublada de um dia nostálgico que eles poriam fim dali a um quarto de hora.
Isso doeu.
Doeu como nunca imaginaram que doeria. Doeu como a despedida mais ardilosa e desesperadora que se pode imaginar. Doeu tanto que não disseram uma palavra, apenas ficaram ali.
As outras pessoas saíam falantes, algumas com pressa, entediadas, outras ainda fascinadas.
Desta vez, foi ele quem falou primeiro:
"E então? Gostou?"
Ela respondeu um sorriso embaraçado. Certamente que gostara, só não estava gostando da idéia de irem embora, demorarem a se falar, não mais encontrarem-se. Tinha que agradecê-lo. Ele continuou:
"É fantástico como fica parecido com o céu da cidade em uma noite chuva, não?"
"Sim, é." Ela respondeu. Não estava prestando a mínima atenção, só pensava em agradecer-lhe, queria muito agradecê-lo.
"Vambora?" Ele perguntou.
Ela preciptou-se sobre o braço da poltrona que os separava (e como vinha odiando aquele braço!), aproximou-se devidamente e deu-lhe um beijo na bochecha.
"Ninguém nunca me trouxe ao planetário!"
Ele pareceu não estar constrangido. Só pareceu. Por dentro, suava frio.
"Aí está." Disse pouco antes de levantar-se.
Lá fora, a chuva parára e o céu parecia ter clareado exageradamente. A impressão que tinham, era que haviam voltado no tempo. Falsa impressão, falsa empolgação agora que estava próximo ao fim.
Demoraram-se um instante para admirar o lago. Os prédios ao fundo competiam com as árvores ao redor, para ver quem encarnava maior grandeza naquela cidade. De certo que eles venciam-nas facilmente.
"Se eu tivesse uma câmera... Tiraria uma foto disso." Ele comentou enquadrando a paisagem com as mãos. Ela enquadrava seu rosto com os olhos.
"Eu estou tirando uma agora..." Ela pensou. "E essa não corre o risco de não ficar boa."
É claro que ela não disse.
Refizeram o caminho que haviam feito anteriormente, concentrados no esforço físico. Definitivamente era uma caminhada desconfortável, mas não podiam pedir por algo mais agradável, a não ser aquele dia todo, outra vez.
Uma despedida rápida, sem muito o que expor. A incerteza do reencontro incomodava mortalmente a ambos. Não deixaram transparecer.
Tomando rumos opostos, entregaram-se a seus próprios pensamentos, suas concepções mais íntimas, sua negligência para com o outro.
Porque haviam demorado tanto? Ela pensava. O que haviam feito de errado?
Nada.
Esse era o problema. As coisas eram perfeitas demais para serem verdadeiras.
Um vento cortante, aglomeração e o metrô.
Agora, o planetário parecia estar distante. Tão distante quanto as estrelas realmente o estão.
Tão distante quanto aquilo que ele sentira há algum tempo.
O planetário nunca mais ficaria próximo. Não tão próximo como era o rancor que ela sentia. Rancor pelo caminho que optara seguir sem antes analisar os meios ou as opções. Sem dar chance àquilo que poderia dar muito certo, apesar de tudo ter sido tão incerto.
Rancor que fazia-na andar de maneira descompassada e solitária.
"Droga!" Foi o que pensou.
Estava perdida e nem um pouco disposta a encontrar o caminho de volta.
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E eu me ponho a pensar: até onde vai e onde é que termina?