Lei de Murphy aplicada

Há mais de trinta anos a cidade de São Lourenço em Minas Gerais é, praticamente, uma segunda morada da minha família.

Toda vez que alguém decide viajar, um leque de opções é estendido porém, é sempre para lá que se acaba indo, mesmo que se visite outros lugares antes ou depois, São Lourenço é parte obrigatória no roteiro.
Não há um grande motivo para que o seja. Junte um par de avós que já se foram, um apartamento confortável e deixe o tempo agir um pouco. O resultado aproximado é uma coisa bacana mais ou menos assim:

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Chegamos lá no sábado por volta de 11h30 da manhã, fazia um dia bonito, bastante nublado e o processo foi como o de costume: descarregar o carro, desfazer malas e tudo como manda o figurino. Depois fomos almoçar.
Bom, para quem teve um ano bastante sobrecarregado, onde o maior banquete era comer o resto da pizza comprada no sábado à noite no café da manhã do domingo, estar frente à uma culínária altamente bem formulada, cuja variedade de opções é definitivamente muito vasta e lembrar que uma refeição decente passa longe de comida requentada em um pote tupeware de tampa verde, é um deleite, sem sombra de dúvidas.
Comi, meu chapa, comi o que pude comer em matéria de sabor regional logo no primeiro dia, não dispensando a sobremesa e o cafézinho. Deu no que deu.

Na manhã do domingo eu estava um tanto quanto receosa em relação ao modo como meu aparelho digestivo encararia aquilo tudo. É claro que ele é abençoadamente generoso em seu trabalho, se levarmos em conta as fatalidades que é obrigado a engolir (literalmente) em qualquer circusntância comum, de modo que, não era com o estômago que eu estava preocupada.

Fomos fazer um tradicional passeio de Maria Fumaça logo cedo. O trem parte da estação de 'São Lourenço' em um horário X, percorre divertida e prazerosamente 18 quilômetros até a cidade de 'Soledade de Minas', estaciona (ou como o termo se aplica) por cerca de 30 minutos e depois faz o caminho de volta à cidade chegando em um horário Y numa excepcional pontualidade mineira.

O trajeto até Soledade demora cerca de 30 a 40 minutos, as pessoas conversam, tiram fotos, apreciam a boa música dos violeiros que passeiam pelos vagões e enfim, antes de pensarem em sentir sono ou tédio já podem descer do trem, conhecer a cidadela, visitar o 'Museu Ferroviário', visitar a feira de artesanato, comer um pão de queijo ou ir ao banheiro.

Já ficou bem claro que era o último item que mais me atraía desde que o passeio começara. Eu precisava ir ao banheiro. Não, na verdade, eu realmente precisava ir ao banheiro. Eu precisava MUITO ir ao banheiro.

Paciente e angustiosamente, tive de esperar a considerável quantidade de idosos e crianças abandonarem o vagão para que eu, finalmente, rumasse em direção à minha salvação: o banheiro da estação.

Lá estava ele: limpo e vazio. Quase cheguei a acreditar que seria assim tão fácil. É, eu disse quase.
Não tinha papel.
Porra! Como é que um banheiro existe sem papel higiênico?
Vasculhei todas as cabines, todos os cantos, a pia, minha bolsa, a mulher parada perto da porta, o banheiro masculino, o senhor que estava varrendo a estação e nada.
Nada!
Se eu saísse em busca de um outro banheiro, estava sujeita à não voltar para a estação em tempo, já fazia cerca de 22 minutos que estávamos parados ali e em menos de 8 minutos o trem partiria em retorno à São Lourenço.
Eu estava bastante desconfortável.
'Maldita cidade! Como é que não há por perto nenhum restaurante, supermercado, lojinha, bar, buteco, locadora ou sei lá que raio de estabelecimento com um banheiro com papel higiêncio? Como???' Era o que eu ficava me perguntando em agonia enquanto todo mundo se maravilhava com a simpatia dos conterrâneos.

Uma senhora carioca passou por mim e sorrindo perguntou se eu já havia visto a exposição de fotos das locomotivas numa das saletas do museu.
'Não! Eu não vi nenhuma porcaria de foto nessa porra de museu, sua velha de merda! Eu quero cagar, caralho!' Foi o que me veio em mente como resposta, mas a boa educação que meus pais me deram saiu da retaguarda do mau-humor infernal que me dominava e automaticamente formulou um sorriso e uma mentira do tipo: 'Oh, eu vi sim! Muito bacana, não?' ou coisa que o valha.

Quando a Maria-Fumaça soltou os três apitos anunciando que estava deixando a estação, a exaltação que senti foi tamanha que parecia que alguém dissera:
'Gente! Foi declarado que o Natal vai ser comemorado todos os dias do ano! Finalmente fizeram alguma coisa decente nesse país...'

Estávamos já na quase metade do caminho e eu disfarçava minha enorme vontade de me contorcer horrorosamente no banco, quando o trem sofreu uma forte pacada e bruscamente parou de funcionar.
'Porque é que parou? Gente, o que é que aconteceu? Já chegou? Tem mais uma parada no caminho? Quebrou? Ah... qual é?' Eu fui a primeira a questionar e ninguém soube responder.
As comissárias de bordo desceram dos vagões e aglomeraram-se com o maquinista e mais alguns operadores do trem num lugar bem à nossa frente
Dentro dos vagões, as pessoas lutavam para esticar o pescoço por entre as janelas e apertar bem os olhos para conseguirem enxergar o que ocorrera.
Aquilo estava me irritando muito pois, incrivelmente, eu estava sentada no lugar mais cobiçado do vagão, onde se podia ter o maior plano de visão do local onde todo mundo estava aglomerado e assim, muita gente estava se apertando para encaixar a cabeça perto da minha. Isso era tudo o que eu realmente menos precisava, dadas as circunstâncias.
'Ai, só falta terem matado alguém! Vai demorarm uns mil anos pra limpar os trilhos e eu vou acabar tendo que cagar aqui mesmo se for demorar tanto assim.' Eu estava pensando comigo mesma quando um cara se aproximou do nosso vagão e anunciou que um homem fora atropelado.
As pessoas ficaram horrorizadas e muito mais alvoraçadas quando a notícia foi dada. As crianças começaram a berrar com os pais porque queriam descer e ver o corpo. As senhora idosas começaram a comentar frenéticamente que o trem realmente passava em uma área perigosa. Muito mais gente começou a chafurdar em cima de mim para conseguir ver melhor o acidente.
De reprente, foi como se Hitler entrasse ali e dissesse: 'Heil! Quem não começar a falar sobre todos os acidentes que já presenciaram na vida, vai levar tiro à queima roupa no último vagão, à começar pelas mulheres cariocas escandalosas!'
Naquele momento, venderia minha alma ao demônio ou então me converteria de pé e mão juntos em qualquer seita religiosa fanática, acaso um banheiro com papel higiêncio se materializasse bem à minha frente.
Aparentemente aquilo ia demorar um bom bocado, a cada instante mais gente ia aparecendo e o atropelado parecia ter perdido os sentidos com a pancada.
'Que cara mais burro! Puta que o pariu! Como é que ele não viu o trem? Essa droga é ENORME! Sem falar que apita alto pra cacete! Caralho, anda logo com esse salvamento... '
Eu reclamava bem baixinho (mais uma manobra da boa educação para salvar o dia) enquanto pensava em alguma coisa para me distrair.
Existe a tal teoria de que 'o que os olhos não vêem o coração não sente', não é a que melhor se aplicaria na minha situação, definitivamente, mas no caso, se eu encontrasse algo que realmente não me permitisse lembrar o quanto estava desagradável aquela espera (não por motivos comuns, em absoluto, tudo não passava de uma dificuldade meramente fisiológica pois que, em qualquer outro momento, eu estaria bastante empolgada com a tragédia que se exibia pela janela, afinal de contas não é todo dia que você sai para dar uma volta de Maria-Fumaça e esta atropela um cara de bicicleta no trilho), eu talvez quase esquecesse que meu intestino estava próximo de explodir internamente e com isso eu estava próxima de morrer de infecção generalizada.

Tentei ouvir música, seria uma boa pedida pois para todos os efeitos, ela abafaria a agitação que ainda estava ocorrendo dentro do vagão. Escrevi bem, realmente seria uma boa pedida, mas não era: qualquer música que eu ouvisse naquele instante, acabaria condicionada à agustia que eu sentia, de modo que, eu não a suportaria ouvir outra vez sem me lembrar daquela fatal situação.
Contei todas as lascas de madeira do chão do vagão, tentei imaginar uma história bacana, lembrar de um filme legal e até ensaiar metodicamente o texto teatral que eu devia ter decorado completamente há semanas. Nada funcionou.
Pensei em descer do trem segui à pé até a estação, mas estava muito longe. O discernimento foi quem me salvou quando eu me imaginei invadindo alguma casa ali por perto e suplicando para usar o banheiro.
'Tá ok, não é tão ruim assim... Poderia ser muito pior, tem gente morrendo por aí, os caras no Iraque, as crianças que não têm o que comer...' Eu comecei a refletir, porém em contrapartida eu continuava refletindo: 'Nah, fodam-se as criancinhas! Aposto que elas não precisam passar por isso! Aposto que elas podem cagar a hora que elas querem e os caras no Iraque também!'
Sim, já estava começando a ficar ridículo. Foi então que comecei a vasculhar minha bolsa na procura de qualquer coisa: mais comida, baralho, dominó, um cubo mágico, um pênico, sei lá!
Fiz uma descoberta incrível: a minha câmera estava lá!

Estúpida! Estúpida! Como é que eu não pensara nisso? Duh!
Estive tão absorta pensando na putrefação alimentar em meus intestinos que mal havia me lembrado de que minha câmera fotográfica estava na bolsa!
Fiz uma cobertura completa:

Aparentemente, o homem pedalava tranquilo, próximo aos trilhos. Quando percebeu a presença do trem, já era tarde demais, ele tentou sair do alcance da Maria-Fumaça mas esta já estava muito próxima e atingiu-o.

Muita gente apareceu para ver o que havia acontecido. Alguns ofereceram-se para prestar socorro. O resgate foi chamado.

Os bombeiros imobilizaram o ferido e aplicaram-lhe os primeiro socorros.

O rapaz foi encaminhado ao hospital.

Assim que tudo terminou, o resgate partiu, a multidão dispersou e todos voltaram aos seus devidos lugares, o trem finalmente seguiu viagem. Eu revia as fotos que havia tirado e comentava a respeito do que acontecera com o restante dos passageiros. Num piscar de olhos estávamos de volta à estação de São Lourenço. Desci do trem, percorri a estação e pude contemplar com muito apreço e satisfação o belíssimo banheiro com papel higiênico que tinha por lá.

Daí dei por mim: a vontade tinha passado.

E tem gente que ainda se pergunta se a Lei de Murphy é ou não, real.

Comentários

Anônimo disse…
Uma dica infalível:um pacote de lenços de papel ou lencinhos umedecidos "sempre" na bolsa.
Ri muito com seu post, e o melhor de tudo é que consigo imaginar realmente suas caras e bocas.
Beijos minha pitoca!
Anônimo disse…
Ai ti coisinha mais linda da titia! Roubei as fotinhos rapidinho. Vou olhar bastante , quem sabe se for a Desirée, nasce fofinha assim tb!
Anônimo disse…
Como diria o Juca Chaves: cagar é bom demais...

E isso pq não foi vc que comeu naquele restaurante medonho da Berrini, uheueuuhe

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