Preferida

Já fazia muito tempo que eu não entrava naquele lugar.

Costumávamos estar ali todas as semanas, não importava a temperatura, a hora ou o dia... Sempre arranjávamos um jeito. Aos poucos, fomos nos tornando meio que ladrões do tempo.
As pessoas estavam bitoladas, enterradas até o talo em seus compromissos e preocupações e nós não deixávamos de ter as nossas, porém elas eram simples fatos do cotidiano, não eram vitais para nossa sobrevivência no mundo.

Ok, devo admitir que éramos um par de belos vagabundos, isso lá tem seu fundo verdadeiro, mas de toda forma e em todo caso, mesmo os vagabundos de marca maior conseguem ser um bocado ocupados quando não querem, éramos mais ou menos assim, ou coisa que o valha.
Se paro e penso por muito tempo, me perco, acabo achando que sonhei, que tudo não passou de uma invenção do imaginário para me enganar e confundir, principalmente nos dias frios. Bobagem, existimos, não há como negar.

O pinball estava quente e iluminado, como todas as vezes, de vez em quando um pouco mais cheio, daí um bocadinho mais vazio e era tudo.
O cheiro do lugar não mudou nadinha desde aquele último dia. O mesmo cheiro de fritura de padaria, alguma coisa misturada com ketchup de qualidade duvidosa, daqueles aguados e bem doces, todo mundo detesta mas ninguém resiste, é sempre assim.
Inevitavelmente meu olhar foi cair sobre o banco onde habituamo-nos a habitar. Sim, eu gosto do tom redundante nesses casos.
Não me lembro qual a cor da blusa que ele vestia, tampouco se estava usando os óculos ou se os levava pendurado no pescoço (ele sempre fazia isso, eu costumava comentar que isso me fazia lembrar minha avó, ele sorria de canto e desconversava, no fundo parecia gostar disso) mas eu me lembro bem e bem me lembro de tudo o que dissemos ali, todas as vezes e especialmente na última.
Ele estava irritado, um casal de namorados deselegantes, daqueles que gostam de mostrar para o mundo todo o quanto estão apaixonados, estava habitando nosso habitat habitual.

-Muito justo - eu comentei - Afinal, eles chegaram primeiro...

- Não interessa quando é que eles chegaram - ele retorquiu ríspido - Aquele é o NOSSO banco e portanto NINGUÉM deveria sentar lá, será que não sabem disso?

- Eu acho que não, Victor -
eu disse entre um riso e outro.
O melhor de tudo é que ele sempre estava falando sério. Eu gosto um bocado disso.

- Vem, vamos pedir para eles saírem... - E dizendo isso, tratou de arrastar-me na direção do empolgado casal (que parecia ser um único corpo, mutante e agonizante em seus movimentos e torções)

- Você ficou maluco? Isso não é o tipo de coisa que se faz!!! - Eu repreendi retendo o seu impulso - Venha, vamos sentar do outro lado hoje.

Sentamos num outro banco, um pouco apartados do casal mutante e das outras pessoas. Percebi que ele ainda estava inconformado.

- Porque que você é tão possessivo?

- Não é questão de possessão! Eu simplesmente sou um cara que valoriza determinadas coisas e preza para que esse valor continue existindo.
Veja que, sempre somos nós que sentamos ali e por que fazemos isso? Porque é um banco bacana, um banco de onde podemos ver todo o resto do pinball, onde estamos muito mais próximos do balcão e assim conseqüentemente da comida, onde estamos fora do alcance do cheiro desagradável do banheiro, do entra e sai da porta de entrada e onde todas as pessoas que passam lá fora conseguem nos ver.

- E qual é o problema DELES em estarem ali hoje?

- O problema é que todo mundo que passar por aqui hoje verá eles ao invés de nós, sendo que nós estamos aqui também! Não que eu esteja querendo ser a estrela do pinball, - ele completou ao reparar em minha expressão desdenhosa - mas é que nós somos muito mais a cara desse lugar, entende?
Por exemplo, se eu nunca tivesse entrado aqui e quando passasse em frente topasse com duas pessoas bacanas como nós -
Lançou-me uma piscadela divertida ao dizer isto - conversando alegremente sobre música, cinema, banalidades ou o caralho a quatro, acompanhados de uma porção de qualquer coisa e um copo de não sei o que lá, ficaria muito mais motivado em entrar do que seu deparasse com aquilo - e apontou para o casal entrelaçado - que é, grosso modo, indigno e impróprio para o local em que estamos, convenhamos.

- Tá, tudo bem. Você está certo... Mas eu não estava me referindo só ao banco, ao casal e o pinball, eu estou querendo dizer no sentido geral, saca? Como aquele dia na locadora que você quase ficou em prantos quando aquele moço alugou o filme...

- Ah, mas ali também era uma questão de valores! - ele interrompeu-me - O cara não estaria preparado para assistir aquele filme nem em um milhão de anos! Aquela cena foi realmente um assassinato à legitimidade do cineasta e toda a poética do bom cinema!

- E você está assim tão apto para julgar qualquer um que se apresente?

- É claro que estou! - Sorriu ao ver minha cara de espanto - Além do mais, as pessoas tendem a ser figuras intensamente caricaturais na maioria das vezes, o que facilita em muito o nosso julgamento...

- Quer dizer que você também me julga incapaz de certas coisas?

- Todo mundo tem suas incapacidades... Mas você é diferente. Você pode.

- Posso?

- Sim, você pode assistir àquele filme ou qualquer outro que quiser, bem como só você pode se sentar ali naquele banco e jogar neste pinball quantas vezes quiser. Você é a única que eu aceito que leia aquele livro, pode até comprá-lo e tê-lo consigo se quiser... Contanto que nunca empreste a ninguém que julgue incapaz de valorizá-lo da maneira merecida.

- Puxa vida... E como é que você chama isso? Maturidade ou algo assim?

- Não é questão de maturidade... Apesar de você ter um bocado de maturidade também, diga-se de passagem. A maturidade é não é algo que se adquire assim com muito tempo e pouca precisão como dizem por aí. É mais algo como uma bela voz ou um ouvido absoluto, entende? Ou você tem ou não tem. Se tem, sua origem é desconhecida, pois se trata de um mérito próprio e interior, não há alguém para honrá-la ou gratificá-la a não ser você mesmo. Se não tem, poderá desenvolver durante alguma etapa da sua vida, mas isso pode ou não acontecer, é algo meio relativo, dúbio ou cosia que o valha, sei lá. Costumamos desenvolver aquilo que não temos, através de algum treino e tal, mas maturidade não é algo que se pode treinar como futebol ou raciocínio lógico e tudo o mais... Não adianta sair por aí lendo uma pancada de livros ou fazendo cubos mágicos como em outras situações. Trata-se de algo muito mais denso e intocável, é meio que invísivel, as pessoas não demonstram, sabe? Vocês simplesmente sente elas exalando aquilo ali como um perfume, fedor ou sei lá. E conforme a convivência com essas pessoas aumenta, você vai se tornando cada vez mais esperto em relação ao jeitão delas e se você tem uma natureza um pouco observadora, como eu tenho, vá lá, fica muito simples distingüir e mesmo julgar o resto do mundo. Se bem que eu não gosto muito desse termo "julgar" é uma cretinice muito grande da nossa parte sair por aí usando-o, afinal tem gente que estuda anos e anos para poder poder ser considerado um juíz perante a lei e tudo o mais, sendo que são um bando de idiotas porque já somos juízes do nosso próprio mundo a partir do momento em que nos vemos nele, e não tem anda a ver com direitos, deveres e obrigações, é um impulso muito mais físico, psquico e animal... Acho que tudo isso está um pouco relacionado, sabe? Eu poderia ficar aqui discursando horas e horas a fio, redundando o mesmo assunto milhares de vezes e para mim, eu nunca estaria sendo claro o bastante. Tenho lá uma certa dificuldade em me expressar, e tenho também lá os meus grandes medos de parecer um maluco, lunático, chato ou simplesmente confuso em minhas próprias idéias sendo que elas estão muito bem definidas dentro de minha cabeça. É uma grande pena que muitas vezes eu não tenho com quem compartilha-las, ou então é um grande fardo para você ter de ser a única privilegiada em ouvi-las, afinal meus telefonemas de madrugada são uma péssima pedida quando você precisa acordar muito cedo no outro dia, ou então quando está com dor de cabeça porque tomou chuva ou até quando está querendo ficar sozinha no mundo porque brigou com os pais ou o namorado, mas na verdade eu acho que as amizades verdadeiras servem até mesmo para isso, para dar uma atrapalhada básica nos nossos conflitos individuais, se bem que é egocentrismo de nossa parte também querer invadir o mundo alheio sem permissão e licença, mas é o que sempre acabará acontecendo quando duas pessoas têm uma linha de pensamento muito parecida e vários gostos em comum. Uma delas sempre acabará tornando-se influênciável enquanto a outra será influenciadora e vice-versa e dessa forma sucessivamente até que alguém pire ou morra.

- Você é o máximo.

- E você é a minha preferida.

Silêncio. Ele recuperava o fôlego enquanto eu mastigava seu discurso. A última palavra dançando em minha cabeça.

- Vem - ele tornou a atmosfera menos estática - vamos lá pedir umas batatas iguais as daquele dia?


Hoje parece fazer muito tempo que tudo aconteceu e se eu ousar dizer que é coisa de três ou quatro anos atrás, poderá soar um bocado incrível ou inacreditável, que é a mesma coisa.
Não sei. Só sei que hoje me lembrei disso enquanto passava em frente ao velho pinball.
Ninguém mais vem aqui, ou pelo menos é o que parece depois que Victor foi embora.

Quando você é a preferida de alguém, há de chegar o dia em que você deixará de ser?
Das certezas da vida, essa é a minha única dúvida.

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