Remorso
- Você não pode se comportar assim. - Eu disse a ele enquanto estávamos parados na esquina, aguardando o semáforo do cruzamento tornar a fica vermelho para os automóveis e assim, finalmente conseguirmos atravessar para o outro lado da rua. Nunca havia demorado tanto.
Eu não poderia supor que aquela simples frase seria capaz de desencadear tamanho desconforto em Victor, juro. Sim, seria mentira dizer que costumo agir somente de uma maneira pensável e todo o resto, sei muito bem que meus instintos estão muito acima de qualquer discernimento razoável antes de tudo, mas se há algo que costumo fazer muito bem, é compreender quando estou indo longe demais, o único problema é que a proporção dessa compreensão só aparece depois que eu já estou deveras afastada daquilo que poderia ser considerado como um limite plausível numa situação constrangedora. Isso sempre acaba sendo um problema, chato pra burro.
Percebi que aquilo o incomodara mais do que qualquer outra coisa que eu viesse a dizer-lhe. Não poderia fazer nada, eu estava apenas sendo sincera em meu comentário.
Ele imediatamente deu um passo para trás e me encarou profundamente como que escolhendo devidamente as palavras, como quem prepara a munição para um ataque fatal. Quando ele começou, ouvi pacientemente, não interrompi uma única vez.
- E quem é você para vir e dizer como EU devo me comportar? Hein? Você não passa de uma garota, uma garota inconstante que simplesmente aparenta ter muito mais do que a própria idade e cujos conceitos não são mais do que repetecos daquilo que algum dia chegou aos seus ouvidos através de bocas consideradas mais sábias ou mesmo experientes. Grande bosta! Bosta! O mundo tem cheiro de bosta, ou será que você ainda não percebeu? Será que ainda não teve tempo para analisar que o fedor que está sob suas narinas é irreversível, impossível de ser dissipado, disfarçado ou anulado? As pessoas simplesmente tentam esconder, dizem que as caretas que estão fazendo são por conta do mau-humor que sentem pela manhã. Mentira! Elas sentem o cheiro de bosta que escoa por todos os cantos e buracos do mundo e não têm peito suficiente para admitir isso.
Sabe, você ainda tem muito o que aprender, tem ainda muito o que conhecer, apesar de acreditar já ter visto ou ouvido tudo o que é possível existir nessa vida ou em outras. Uma garota, uma garota indecisa e prepotente, isto é o que você é! Basta dar-lhe trela por um segundo e você já acredita ser a rainha de tudo e de todos, quando não passa de uma egoísta mimada, que julga madura a atitude de tentar classificar como o comportamento alheio deve ser. Suas limitação baratas me ofendem, se quer saber. Sua falta de senso me causa náuseas... E tenho certeza de que não só à mim, mas à todos os outros que são obrigados a estar em seu convívio.
Eu não acho que suas bandas são a salvação do rock, ou que seus escritores hipócritas mereçam ser considerados gênios simplesmente por escreverem aquilo que todo mundo sabe, mas ninguém teve paciência suficiente para encadernar em couro e botar na droga de uma biblioteca à disposição de todos os inúteis que desejam devorá-lo. Não, eu não acho! Não acho que haja qualquer esperança para pessoas isentas de qualquer senso crítico interior, por mais desenvolvidas que sejam suas técnicas de julgamento de qualquer espécie de arte ou mesmo situação. Eu as odeio, se quer saber. Odeio tanto quanto eu odeio seu jeito infame de canalizar seus objetivos para um único foco, ignorando todas as possibilidades que os considerados problemas oferecem-lhe, e odeio também essa mania de solidão onde um homem só é um homem quando aprende a lidar consigo mesmo antes de lidar com o resto do mundo.
Grande bosta! É isso que você representa para mim, simplesmente um empiastro simpático e nulo que nada consegue fazer a não ser sorver das outras pessoas aquilo que você deveria aprender por si mesma e assim, cria uma falsa imagem, uma espécie de máscara ou fantasia que veste e desfila por aí, uma personagem dotada de pouca personalidade e grande posição influenciável, por mais que se diga forte ou mesmo original em sua natureza.
Você é uma garota jovem que nada sabe da vida e que tem medo de aprender com seus próprios erros, por isso se esconde nesse altar de sabedoria e procura ditar para as outras pessoas o que ela podem ou não podem fazer de acordo com suas próprias vontades e mesmo receios... É isso que você é!
Quando ele finalmente terminou, eu estava zonza, completamente desprovida de qualquer reconhecimento da realidade ao meu redor. Era como se estivesse despencando de um penhasco, uma queda livre interminável que aos poucos consumia minhas forças e minha presença de espírito.
Sob o céu de minha boca, uma massa cinzenta de palavrões, insultos e injúrias formavam-se numa velocidade jamais vista, cheguei a estremecer.
Eu teria muita coisa a rebater, teria muitos insultos a fazer e muitas maneiras de expressar toda a minha indignação após aquele discurso insano que Victor fizera-me. Na esquina.
Porém, eu não o fiz. Não permiti que escorresse nem mesmo uma mísera parcela daquela massa cinzenta dentro de minha boca. Eu engoli.
Pude sentir o amargo da decepção condensado com a maior dose de ódio que se pode imaginar existir. Goela abaixo. Tudo aquilo. Pensei que teria uma vertigem.
Enquanto afogava minha garganta com o amargo de todas as palavras não ditas, meu corpo agiu por impulso e, ao invés de lágrimas virem à tona, foi um escarro que surgiu.
Cuspi.
Cuspi no rosto de Victor como quem atira num alvo inimigo. Cuspi sem pensar, num reflexo odioso de suas colocações brutais.
Cuspi.
Ele então, cerrou os punhos. Naquele momento, tive medo. Sabia que merecia apanhar após minha reação e por um milésimo de segundos cheguei a esperar pela pancada em meu rosto, fechei os olhos.
A pancada não veio, tampouco veio mais uma parcela de um discurso como o recém-feito.
Victor simplesmente laçou-me um olhar de desprezo, o desprezo mais verdadeiro e profundo que eu já contemplei até hoje.
Lançou-me esse olhar, deu-me as costas e foi embora. Passos largos, respiração ofegante, faces rubras e punhos ainda cerrados.
Duas semanas depois, ele apresentou-me suas desculpas mais sinceras.
Eu jamais me perdoei por não tê-lo perdoado.
Eu não poderia supor que aquela simples frase seria capaz de desencadear tamanho desconforto em Victor, juro. Sim, seria mentira dizer que costumo agir somente de uma maneira pensável e todo o resto, sei muito bem que meus instintos estão muito acima de qualquer discernimento razoável antes de tudo, mas se há algo que costumo fazer muito bem, é compreender quando estou indo longe demais, o único problema é que a proporção dessa compreensão só aparece depois que eu já estou deveras afastada daquilo que poderia ser considerado como um limite plausível numa situação constrangedora. Isso sempre acaba sendo um problema, chato pra burro.
Percebi que aquilo o incomodara mais do que qualquer outra coisa que eu viesse a dizer-lhe. Não poderia fazer nada, eu estava apenas sendo sincera em meu comentário.
Ele imediatamente deu um passo para trás e me encarou profundamente como que escolhendo devidamente as palavras, como quem prepara a munição para um ataque fatal. Quando ele começou, ouvi pacientemente, não interrompi uma única vez.
- E quem é você para vir e dizer como EU devo me comportar? Hein? Você não passa de uma garota, uma garota inconstante que simplesmente aparenta ter muito mais do que a própria idade e cujos conceitos não são mais do que repetecos daquilo que algum dia chegou aos seus ouvidos através de bocas consideradas mais sábias ou mesmo experientes. Grande bosta! Bosta! O mundo tem cheiro de bosta, ou será que você ainda não percebeu? Será que ainda não teve tempo para analisar que o fedor que está sob suas narinas é irreversível, impossível de ser dissipado, disfarçado ou anulado? As pessoas simplesmente tentam esconder, dizem que as caretas que estão fazendo são por conta do mau-humor que sentem pela manhã. Mentira! Elas sentem o cheiro de bosta que escoa por todos os cantos e buracos do mundo e não têm peito suficiente para admitir isso.
Sabe, você ainda tem muito o que aprender, tem ainda muito o que conhecer, apesar de acreditar já ter visto ou ouvido tudo o que é possível existir nessa vida ou em outras. Uma garota, uma garota indecisa e prepotente, isto é o que você é! Basta dar-lhe trela por um segundo e você já acredita ser a rainha de tudo e de todos, quando não passa de uma egoísta mimada, que julga madura a atitude de tentar classificar como o comportamento alheio deve ser. Suas limitação baratas me ofendem, se quer saber. Sua falta de senso me causa náuseas... E tenho certeza de que não só à mim, mas à todos os outros que são obrigados a estar em seu convívio.
Eu não acho que suas bandas são a salvação do rock, ou que seus escritores hipócritas mereçam ser considerados gênios simplesmente por escreverem aquilo que todo mundo sabe, mas ninguém teve paciência suficiente para encadernar em couro e botar na droga de uma biblioteca à disposição de todos os inúteis que desejam devorá-lo. Não, eu não acho! Não acho que haja qualquer esperança para pessoas isentas de qualquer senso crítico interior, por mais desenvolvidas que sejam suas técnicas de julgamento de qualquer espécie de arte ou mesmo situação. Eu as odeio, se quer saber. Odeio tanto quanto eu odeio seu jeito infame de canalizar seus objetivos para um único foco, ignorando todas as possibilidades que os considerados problemas oferecem-lhe, e odeio também essa mania de solidão onde um homem só é um homem quando aprende a lidar consigo mesmo antes de lidar com o resto do mundo.
Grande bosta! É isso que você representa para mim, simplesmente um empiastro simpático e nulo que nada consegue fazer a não ser sorver das outras pessoas aquilo que você deveria aprender por si mesma e assim, cria uma falsa imagem, uma espécie de máscara ou fantasia que veste e desfila por aí, uma personagem dotada de pouca personalidade e grande posição influenciável, por mais que se diga forte ou mesmo original em sua natureza.
Você é uma garota jovem que nada sabe da vida e que tem medo de aprender com seus próprios erros, por isso se esconde nesse altar de sabedoria e procura ditar para as outras pessoas o que ela podem ou não podem fazer de acordo com suas próprias vontades e mesmo receios... É isso que você é!
Quando ele finalmente terminou, eu estava zonza, completamente desprovida de qualquer reconhecimento da realidade ao meu redor. Era como se estivesse despencando de um penhasco, uma queda livre interminável que aos poucos consumia minhas forças e minha presença de espírito.
Sob o céu de minha boca, uma massa cinzenta de palavrões, insultos e injúrias formavam-se numa velocidade jamais vista, cheguei a estremecer.
Eu teria muita coisa a rebater, teria muitos insultos a fazer e muitas maneiras de expressar toda a minha indignação após aquele discurso insano que Victor fizera-me. Na esquina.
Porém, eu não o fiz. Não permiti que escorresse nem mesmo uma mísera parcela daquela massa cinzenta dentro de minha boca. Eu engoli.
Pude sentir o amargo da decepção condensado com a maior dose de ódio que se pode imaginar existir. Goela abaixo. Tudo aquilo. Pensei que teria uma vertigem.
Enquanto afogava minha garganta com o amargo de todas as palavras não ditas, meu corpo agiu por impulso e, ao invés de lágrimas virem à tona, foi um escarro que surgiu.
Cuspi.
Cuspi no rosto de Victor como quem atira num alvo inimigo. Cuspi sem pensar, num reflexo odioso de suas colocações brutais.
Cuspi.
Ele então, cerrou os punhos. Naquele momento, tive medo. Sabia que merecia apanhar após minha reação e por um milésimo de segundos cheguei a esperar pela pancada em meu rosto, fechei os olhos.
A pancada não veio, tampouco veio mais uma parcela de um discurso como o recém-feito.
Victor simplesmente laçou-me um olhar de desprezo, o desprezo mais verdadeiro e profundo que eu já contemplei até hoje.
Lançou-me esse olhar, deu-me as costas e foi embora. Passos largos, respiração ofegante, faces rubras e punhos ainda cerrados.
Duas semanas depois, ele apresentou-me suas desculpas mais sinceras.
Eu jamais me perdoei por não tê-lo perdoado.
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