(R)evolução
Meu irmão tem 13 anos.
Tem 13 anos e é um cara muito inteligente. Ele fala japonês e manja até o que você nem pode imaginar sobre video-game e computadores.
Ok, há dias em que ele não passa de um insignificante insuportável na minha opinião, mas isso é fruto do meu mau-humor diário ou coisa que o valha. Normalmente nos damos muito bem e ele é bastante maduro.
Há algumas semanas, quando em férias, estávamos caminhando rumo à casa de minha avó para um almoço majestoso e todas as regalias das quais você pode desfrutar na casa de uma avó que não só é a mulher mais linda e mais doce do mundo como também é a melhor cozinheira que já se teve notícia, sem contar que ela tem uma espécie de sexto sentido e tudo, o que a faz adivinhar exatamente com qual sobremesa você esteve sonhando todas as noites no último mês. Eu me esbaldo com ela.
Uma grande pena que não sobre lá muito tempo para visitá-la, mas sempre que possível (quando estou de folga ou mesmo aos domingos em que não há peças em cartaz e tal) eu gosto de passar a tarde com meus avós, eles são os melhores do mundo inteiro.
Pois bem, estávamos eu e Daniel caminhando rumo à casa da Vó Nené, enquanto conversávamos sobre livros e todo o resto.
Eu comentei que tinha um livro que achava que ele iria gostar um bocado e ele pareceu bastante interessado naquele momento.
Em outra oportunidade, entreguei-lhe meu exemplar de O Apanhador no Campo de Centeio com grande emoção em meu gesto (Porra, o meu irmãozinho vai ler o Apanhador! - foi o que pensei).
Não dispensei minha palestra apaixonante a respeito daquela nova situação e todo o resto, o tipo de coisa que é a obrigação de um irmão mais velho fazer pelo seu caçula, na opinião é claro.
A maioria dos irmãos mais novos, quando possuem determinada idade, tendem a odiar tudo o que diz respeito ao irmão mais velho para tardiamente, contraírem-se ao oposto e então adquirirem uma idolatria juvenil muito bacana, que às vezes enche o saco, mas torna a convivência muito mais divertida e tudo.
Ok, seria romancear em demasia dizer que ele aceitou de bom grado as recomendações e todo o resto referente ao livro, ele não se mostrou muito interessado, o que foi uma grande frustração de minha parte mas interiormente eu busquei dizer à mim mesma que ainda chegaria o momento certo.
Passaram-se dias e o livro ficou em minha prateleira como de costume.
A maioria dos meus livros são encapados. Encapo os livros com papel de presente vagabundo e escrevo alguns dizeres divertidos ou mesmo bem idiotas na capa, não sei, acho muito digno. Sim, pode parecer uma grande bobagem, mas é muito interessante quando você está lendo um livro nalgum local movimentado como uma praça ou no ônibus e várias cabeças ficam tentando adivinhar qual o título e o autor. Nesse caso, as pessoas se deparam com alguma mensagem cretina que causa mistério e estranhamento.Na capa do Apanhador está escrito em preto: "Morra Curioso" ou coisa que o valha.
Pois bem, lá ficou o livro com sua capa vermelha com desenhos de natal e os dizeres escritos em preto.
Parei de insistir para que Daniel o lê-se e acabei esquecendo-me do assunto no decorrer dos dias.
Semana passada comecei a notar uma coisa estranha. O livro começou a aparecer em outra posição na estante (chame de toc ou de como quiser, meu quarto é divinamente uma bagunça completa, mas eu sou capaz de memorizar a ordem que os livros ou DVD's estão dispostos na prateleira, de modo que adquiriu um controle completo sobre eles todos, notando sua ausência ou mudança de posição)Pensei estar apenas um pouco confusa e/ou distraída e parei de me preocupar com isso.
Um dia ele sumiu. Fiquei desesperada, procurei-o por toda a casa e fui encontrá-lo sob a cama de meu irmão. Não resisti, folheei-o para analisar em qual capítulo ele havia parado a leitura.
Logo notei que, eu nunca me dei bem com marcadores de página e coisa que o valha. Quando estou lendo um livro e desejo parar a leitura para continuar mais tarde, simplesmente memorizo o número da página.
Digamos que, Daniel faz a mesma coisa. Droga! Mas pelo menos eu havia descoberto que ele não resistira, obviamente não queria dar o braço a torcer, mas estava lendo o Apanhador há semanas e acreditava que eu não havia notado (o que era uma boa verdade até então).
Temendo que, se ele soubesse que eu sabia de sua leitura na surdina, viesse à desistir de terminá-lo, recoloquei o livro no lugar e fingi de nada saber.
Ontem, cheguei de madrugada em casa e escutei risos vindo do quarto dele. Não eram risos normais de um programa de televisão ou coisa que o valha. Eram risos sinceros, aqueles incríveis de alguém que se diverte verdadeiramente com alguma colocação fantástica que somente JD Salinger faria. Espiei sorrateiramente pela porta entreaberta e pude ver que estava na cama, lendo o Apanhador. Qual não foi a minha surpresa quando reparei também que o livro estava sem a capa de papel de presente vagabundo com os dizeres em preto.
Ah, não!- pensei comigo - Aí também já é demais... Fui até meu quarto bastante irritada e quando olhei para a prateleira com os livros e todo o resto, lá estava meu exemplar do Apanhador.
Intacto com sua capa de papel de presente vagabundo com os dizeres em preto.
Caralho - voltei ao quarto do meu irmão.
- Nanico, de quem é esse livro que você está lendo?
- É meu.
- Seu?
- É. Meu.
- Você comprou?
- Sim.
- Porquê?
- Ah, tata, o seu livro estava todo grifado, mas a maioria das coisas que VOCÊ grifou, não é o tipo de coisa que EU grifaria, portanto comprei um para que EU pudesse grifar como quisesse.
- Ah...
Voltei para o meu quarto atordoada. Uma revolução aconteceu.
Hoje pela manhã, pensei ter sonhado tudo aquilo e logo que acordei, encontrei o livro do Daniel na escrivaninha do quarto dele.
Lá estava ele,
O Apanhador no Campo de Centeio, devorado pelo meu irmãozinho.
Meu irmãozinho.
Meu.
Irmãozinho.
Zinho.
Tem coisa mais poética do que isso?
Tem 13 anos e é um cara muito inteligente. Ele fala japonês e manja até o que você nem pode imaginar sobre video-game e computadores.
Ok, há dias em que ele não passa de um insignificante insuportável na minha opinião, mas isso é fruto do meu mau-humor diário ou coisa que o valha. Normalmente nos damos muito bem e ele é bastante maduro.
Há algumas semanas, quando em férias, estávamos caminhando rumo à casa de minha avó para um almoço majestoso e todas as regalias das quais você pode desfrutar na casa de uma avó que não só é a mulher mais linda e mais doce do mundo como também é a melhor cozinheira que já se teve notícia, sem contar que ela tem uma espécie de sexto sentido e tudo, o que a faz adivinhar exatamente com qual sobremesa você esteve sonhando todas as noites no último mês. Eu me esbaldo com ela.
Uma grande pena que não sobre lá muito tempo para visitá-la, mas sempre que possível (quando estou de folga ou mesmo aos domingos em que não há peças em cartaz e tal) eu gosto de passar a tarde com meus avós, eles são os melhores do mundo inteiro.
Pois bem, estávamos eu e Daniel caminhando rumo à casa da Vó Nené, enquanto conversávamos sobre livros e todo o resto.
Eu comentei que tinha um livro que achava que ele iria gostar um bocado e ele pareceu bastante interessado naquele momento.
Em outra oportunidade, entreguei-lhe meu exemplar de O Apanhador no Campo de Centeio com grande emoção em meu gesto (Porra, o meu irmãozinho vai ler o Apanhador! - foi o que pensei).
Não dispensei minha palestra apaixonante a respeito daquela nova situação e todo o resto, o tipo de coisa que é a obrigação de um irmão mais velho fazer pelo seu caçula, na opinião é claro.
A maioria dos irmãos mais novos, quando possuem determinada idade, tendem a odiar tudo o que diz respeito ao irmão mais velho para tardiamente, contraírem-se ao oposto e então adquirirem uma idolatria juvenil muito bacana, que às vezes enche o saco, mas torna a convivência muito mais divertida e tudo.
Ok, seria romancear em demasia dizer que ele aceitou de bom grado as recomendações e todo o resto referente ao livro, ele não se mostrou muito interessado, o que foi uma grande frustração de minha parte mas interiormente eu busquei dizer à mim mesma que ainda chegaria o momento certo.
Passaram-se dias e o livro ficou em minha prateleira como de costume.
A maioria dos meus livros são encapados. Encapo os livros com papel de presente vagabundo e escrevo alguns dizeres divertidos ou mesmo bem idiotas na capa, não sei, acho muito digno. Sim, pode parecer uma grande bobagem, mas é muito interessante quando você está lendo um livro nalgum local movimentado como uma praça ou no ônibus e várias cabeças ficam tentando adivinhar qual o título e o autor. Nesse caso, as pessoas se deparam com alguma mensagem cretina que causa mistério e estranhamento.Na capa do Apanhador está escrito em preto: "Morra Curioso" ou coisa que o valha.
Pois bem, lá ficou o livro com sua capa vermelha com desenhos de natal e os dizeres escritos em preto.
Parei de insistir para que Daniel o lê-se e acabei esquecendo-me do assunto no decorrer dos dias.
Semana passada comecei a notar uma coisa estranha. O livro começou a aparecer em outra posição na estante (chame de toc ou de como quiser, meu quarto é divinamente uma bagunça completa, mas eu sou capaz de memorizar a ordem que os livros ou DVD's estão dispostos na prateleira, de modo que adquiriu um controle completo sobre eles todos, notando sua ausência ou mudança de posição)Pensei estar apenas um pouco confusa e/ou distraída e parei de me preocupar com isso.
Um dia ele sumiu. Fiquei desesperada, procurei-o por toda a casa e fui encontrá-lo sob a cama de meu irmão. Não resisti, folheei-o para analisar em qual capítulo ele havia parado a leitura.
Logo notei que, eu nunca me dei bem com marcadores de página e coisa que o valha. Quando estou lendo um livro e desejo parar a leitura para continuar mais tarde, simplesmente memorizo o número da página.
Digamos que, Daniel faz a mesma coisa. Droga! Mas pelo menos eu havia descoberto que ele não resistira, obviamente não queria dar o braço a torcer, mas estava lendo o Apanhador há semanas e acreditava que eu não havia notado (o que era uma boa verdade até então).
Temendo que, se ele soubesse que eu sabia de sua leitura na surdina, viesse à desistir de terminá-lo, recoloquei o livro no lugar e fingi de nada saber.
Ontem, cheguei de madrugada em casa e escutei risos vindo do quarto dele. Não eram risos normais de um programa de televisão ou coisa que o valha. Eram risos sinceros, aqueles incríveis de alguém que se diverte verdadeiramente com alguma colocação fantástica que somente JD Salinger faria. Espiei sorrateiramente pela porta entreaberta e pude ver que estava na cama, lendo o Apanhador. Qual não foi a minha surpresa quando reparei também que o livro estava sem a capa de papel de presente vagabundo com os dizeres em preto.
Ah, não!- pensei comigo - Aí também já é demais... Fui até meu quarto bastante irritada e quando olhei para a prateleira com os livros e todo o resto, lá estava meu exemplar do Apanhador.
Intacto com sua capa de papel de presente vagabundo com os dizeres em preto.
Caralho - voltei ao quarto do meu irmão.
- Nanico, de quem é esse livro que você está lendo?
- É meu.
- Seu?
- É. Meu.
- Você comprou?
- Sim.
- Porquê?
- Ah, tata, o seu livro estava todo grifado, mas a maioria das coisas que VOCÊ grifou, não é o tipo de coisa que EU grifaria, portanto comprei um para que EU pudesse grifar como quisesse.
- Ah...
Voltei para o meu quarto atordoada. Uma revolução aconteceu.
Hoje pela manhã, pensei ter sonhado tudo aquilo e logo que acordei, encontrei o livro do Daniel na escrivaninha do quarto dele.
Lá estava ele,
O Apanhador no Campo de Centeio, devorado pelo meu irmãozinho.
Meu irmãozinho.
Meu.
Irmãozinho.
Zinho.
Tem coisa mais poética do que isso?
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