Para Lilian

Lílian,

Perdoe a minha ânsia em escrever-te ainda tão cedo, mas se o faço é simplesmente porque não consigo suportar a tua ausência.
Hoje pela manhã, encontrei um dos teus pés de meia caído num canto do guarda-roupa, com toda certeza, ele deve ter sobrevivido à mudança no último mês e ficou ali com a enfadonha vocação de causar-me saudades quando eu viesse a encontrá-lo, bem, digamos que ele cumpriu bem o seu devido papel.
Não, ainda não conheci outra garota que durma com um único pé de meia, se quer saber, não pude ignorar a lembrança.
Sabe que, estou trabalhando num jornal pequenino, coisa cretina mesmo, no duro, aqueles jornais de anúncios sem importância que têm a promessa de serem distribuídos em qualquer estação de trem ou metrô, tudo gratuitamente, mas nunca se tem notícia de onde eles devem estar, as prateleiras de distribuição estão sempre vazias, e o logotipo do nome do jornal, enferrujado logo acima.
Não me importo, para ser franco. Reviso os classificados que serão publicados nas edições diárias, são basicamente sempre os mesmos com uma ou outra alteração de números de telefone, endereços ou mesmo o valor.
Fico me perguntando o tempo todo o que você está fazendo numa hora dessas... Há pouco tempo tive notícias suas, soube que abandonou a faculdade e comprou seu próprio apartamento, ou sei lá como chamam esse tipo de coisa aí na Inglaterra... Espero que esteja feliz.
Eu não estou. Como já disse, sinto a sua falta (e a culpa não é unicamente do pé de meia sorrateiro no meu guarda-roupa escuro, no duro) é uma pena que eu tenha me dado conta disso tarde demais.
Sabe que, desde o princípio, eu nunca pude identificar completamente os meus sentimentos a seu respeito. Eu parecia me esforçar um bocado, mas você sempre queria mais. Eu nunca consegui compreender o quanto você estava sendo bondosa e eu, egoísta. Hoje me culpo por não tê-la amado com tamanho ardor quando pude, e continuo me culpando por ainda amá-la demais.
Eu fui obsoleto e mesmo vulgar em minhas escolhas na maioria das vezes que estive ao seu lado, sinto-me hoje um manipulador, um opressor de suas próprias vontades e se não procurei me desculpar por esta falha, é porque ainda não descobri como fazê-lo.
Estive tão alheio ao mundo e tão envolto em meus próprios objetivos, que não percebi como fui perdendo-a aos poucos.
Tracei meus planos e metas sem nunca me dar conta que me afastava do mundo ao redor, e muito pouco intuitivamente, mergulhei num trajeto de solidão, onde só enxergava o quê e como eu queria, sem nunca dar ouvidos a qualquer outra pessoa, sem nunca me preocupar com mais nada, sem nunca aprender a dividir tampouco a me redimir.
Hoje eu sofro.
Paro e penso que, talvez se eu tivesse sido um pouco mais perceptivo, se eu tivesse aceitado sua ajuda, apreciado sua companhia e mesmo ouvido aquilo que minha mãe teimava em dizer todas as noites, as coisas hoje seriam bem diferentes.
O fato é, Lilian, com o final do namoro, eu passei a amá-la demais.
Cheguei a um ponto onde, não existia mais nada em meu caminho, a não ser você. A solução para todos os meus problemas, a dissolução de todos os meus temores, a razão de todos os meus anseios era você e somente você poderia anular isso, eu estava acabado.
Amava-a mais do que amava a mim mesmo.
Foi necessário um bom tempo de terapia para que eu pudesse me conformar, convencer meu ego ferido e arrependido que eu a perdera para sempre, e que esse mérito cruel e repugnante era meu, inteira e unicamente meu. De toda forma, não houve jeito, voltei a fumar e continuo bebendo muito mais do que pode-se considerar aceitável.
Aí então, veio o choque. Percebi toda a minha alienação, pouco caso, falta de compromisso e consideração para contigo, Lilian. Pensei que ia enlouquecer.
Naquela tarde, aquela última vez que nos vimos rapidamente no supermercado, que você alegremente contou-me que finalmente iria sair do país que eu conformei-me a esse respeito, percebi que não haveria meios de trazê-la de volta e nem maneiras de restaurar-me na posição em que me encontro.
Lembrei-me que certa vez você cogitou a possibilidade de irmos juntos, sem pesares ou constrangimentos, abandonaríamos o pouco que ainda tínhamos aqui e partiríamos buscando construir tudo novamente, eu e você. Você estava empolgada. Eu a tratei com descaso. Afoguei suas esperanças e dispensei sobre você toda a frieza de meus ideais realistas e sistemáticos, como fui idiota!
Quero ser um filha da puta se admitir que não me arrependo.
Pensei em te ligar diversas vezes, descobrir o dia da partida, ir até o aeroporto, não sei bem o que faria, talvez alguma besteira que a irritaria ou envergonharia ainda mais a meu respeito... Sim, provavelmente seria isso.
O fato é que, eu nunca sequer imaginei que eu corresse o risco de não tê-la mais ao meu lado. Na minha cabeça, mesmo quando terminamos eu sabia que não tardaríamos a admitir que o que sentíamos um pelo outro era imutável e magnético, de modo que seria impossível afastar-nos de um jeito ou de outro.
Estava enganado. Acho que ao longo de todos esses anos,
emburreci.
Você foi, de longe, a garota mais fantástica que eu já conheci, sempre soube disso mas só hoje tenho motivos de sobre para acreditar profundamente no fato.
Não vou dizer que eu tentei sabotá-la, tentei afastá-la de minhas lembranças e mesmo convencer-me de que havia centenas de outras
Lilians mundo afora. E realmente há centenas delas, mas todas são opacas e sem vida. Dotadas de uma falta de personalidade e um temperamento que se assemelha à tudo, menos originalidade ou compleição. São superficiais, eu lhe digo.
Claro que há muita gente querendo trepar por aí, bem como muitas outras esperando aparecer um idiota qualquer que as leve para casa no final da noite, deseje boa noite e mande flores no dia seguinte. Ainda assim, são superficiais. Não entendo o que se passa contigo.
Há quem me diga que o fato de termos sido amigos, basicamente a vida inteira antes de começarmos a sair pela primeira vez é o que torna tudo tão especial, outros afirmam que temos gênios parecidos mas focos diferentes... Sei lá, para mim é tudo um mistério.
O que sei com toda a certeza que posso argumentar, é que ainda a amo da maneira mais verdadeira e mesmo obscena que se pode amar a alguém, e receio que isso é imutável no patamar onde nos encontramos.
A minha grande sorte é que, isso já não dilacera meus sentidos ou coisa que o valha, acho que me tornei um conformista. Eu somente a amo a distância e isso me é satisfatório, já que não tenho condições de almejar por mais.
Acredito que qualquer hora apareça alguma outra pessoa, que me inspire um afeto deveras verdadeiro, mas nunca na presente intensidade com que eu a prezo. Acredito também que, com você será diferente, portanto digo-lhe desde já, sem me importar com o que isso possa parecer, que jamais vou procurar descobrir se você se casou ou mesmo se almeja casar-se com alguém na Europa ou no Brasil, meu conformismo não possui assim tão longo prazo.
Viverei uma vida de medo, para ser mais exato. Medo de avistá-la parada no próximo farol ou mesmo lendo algum de seus livros no parque. Medo de reconhecer sua caligrafia numa carta, sua voz ao telefone ou mesmo algum objeto perdido que tenha lhe pertencido. Medo de topar com a mesma placa do seu carro na rua ou com o número do seu telefone no visor do meu celular. Medo, simplesmente medo.
A insegurança está presente em todos aqueles que sabem não possuir o controle de alguma determinada situação ou algo assim. Isso é algo que, definitivamente eu nunca serei capaz de controlar, mas sei que conseguirei manter adormecido enquanto você estiver supostamente inativa no mundo onde estou vivendo.
Sei que não mereço compaixão ou apreço por tudo que fiz, e sei também que você não guardará mágoas daquilo que passou, afinal quem disse Dane-se primeiro, foram os seus lábios.
A única coisa que quero que você saiba, é que por mais que minha atenção nunca esteve completamente direcionada aos seus movimentos, argumentos ou desejos, eu sempre vou saber que sua fruta preferida é limão, seu lápis-de-cor favorito é o azul turquesa quando ele já está pela metade, a coisa mais irritante no mundo na sua opinião são relógios analógicos sem números, nunca existira um produto na sua geladeira sem que o rótulo esteja arrancado e que todos os seus livros serão encapados enquanto estiverem sendo lidos, mesmo que pela milésima vez.
Há ainda uma infinidades de coisas listadas no meu compressor emotivo interno, coisas das quais nunca saberei observar sem procurar me esquivar um bocado para não ser atingido por meu próprio remorso.
Espero que esteja realmente feliz e realizada, o que quer que esteja fazendo atualmente.
Feliz eu nunca serei, mas ainda tenho esperanças de aceitar minha condição sem desdém, afinal, se estou na merda, a culpa não pode ser sua.
Portanto, Lílian, aqui fica os meus mais sinceros votos de prosperidade, se é assim que o termo se aplica, e minha mais voraz confissão crônica desse amor louco em que vivo submetido.

Daquele que será sempre seu, infeliz mas intensamente realizado com seus classificados diários de ponto final,

A.

Comentários

Andre_Sa disse…
Puxa Flávia, esse é um mês de alta produção! Bons textos.
Ainda não abandonei a idéia de escrevermos, só não sei por onde começar! =P

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