Comoção
Era uma noite quente de verão.
A chuva que caíra com força durante o final da tarde, só fez aumentar ainda mais a sensação térmica, ao menos agora, o ar estava mais úmido e olhos não ardiam tanto.
Ardiam talvez em função do quanto ela chorara naquele dia. Aquele choro emocionado e contido, que dói na garganta por não poder soluçar. Não era nada demais, só tinha assistido um filme.
Naquele instante, a fronte quente de um dia de sol e os pés doloridos de um sapato mal escolhido, ela parou para ouvir por alguns segundos sua própria respiração: ofegava sem ter motivo.
Os olhos ainda um pouco inchados, pareciam um pouco mais aéreos do que de costume, o peito um bocado mais leve. Na boca, ainda o gosto salgado do choro, a pele do rosto retesava lágrimas já secas.
Uma sensação momentânea de apatia foi preenchida por um sentimento inédito e ela não soube definir se era contentamento ou comodismo. Achou estranho, ambos não eram similares mas também não poderiam ser classificados como bons ou ruins, era tudo uma questão do vetor inicial.
Como não enxergaria o vetor daquelas sensações tão cedo, procurou não pensar e apenas sentir.
Foi o ano que passou. Já fazia alguns dias que outro calendário havia sido pendurado na parede mas só naquele instante ela se deu conta do ciclo temporal que se fecha para o inicio de um novo. Nenhum dos dois era muito visível.
O que passou, era um misto de lembranças turvas que oscilavam entre a saudade, risos soltos na atmosfera e algumas coisa que poderia ser nomeada de decepção (mesmo não sendo esse o termo realmente ideal). O que viria, era uma fusão de incertezas e esperanças. Nada muito esclarecedor.
No fundo, apesar de tanta desconfiança, ela estava convencida de que estava satisfeita com tudo aquilo. Estava satisfeita com o que fora, com o que se tornara e com as mudanças imprevisíveis que ainda iria sofrer.
Hoje, mais do que ontem, ela era uma mulher.
Continuava ainda a criança inocente que pinta o mundo com suas cores preferidas e se perde na beleza de uma bolha de sabão.
Continuava ainda a adolescente espirituosa que desafiava o mundo e os valores humanos, que acreditava em causas humanitárias, tomava a linha de frente mas que se sentia sozinha, perdida e desajustada.
Continuava ainda a filha mais velha, cujos feitos passados orgulhavam a família a quem devia sua boa educação, mas que carregava um certo temor das expectativas erradas que muitas vezes lhe eram depositadas.
Em todos esses sentidos já era uma mulher.
Uma mulher disposta a servir de base e estrutura quando fosse necessário. Uma mulher que buscava independência e proteção.
Uma mulher que zelava, sofria, amava, torcia, orava, fazia e partia sem se deixar ser notada.
Uma mulher que era um poço de sensações, sentimentos, pretensões e anseios, mas que aparentava ser o equilíbrio perfeito de suas idéias e valores.
Era guerreira quando surgiam batalhas. Era companheira quando surgiam amigos. Era apaixonada quando surgiam amantes. Era extremamente frágil quando surgiam facas. Mortalmente imortal com suas visões desfocais.
Mulher nos braços, nas mãos, nos cílios e pernas. Mulher nas atitudes, nas esperanças e nas contradições.
E hoje, ela só era mulher, mais do que ontem, devido a tudo aquilo que já tinha se transfigurado em memória.
Sorriu um sorriso silencioso, virgem, imperceptível.
Conhecia algumas pessoas melhor do que os botões de uma blusa preferida. Outras tão próximas, tinha como estranhas.
Não odiava ninguém. Não era capaz de ser indiferente. Apenas se afastava quando acreditava ser necessário e era fria em seu auto-julgamento.
Impunha punições e penitências severas à si mesma afim de educar-se nos seus gestos, palavras e amplitudes.
Escondia dentro de si um dicionário de significados dos mais diversos, para todas as situações, olhares e frases lançados.
Para quê? Até quando?
Sorriu novamente. Havia amadurecido tanto, havia aprendido tantas coisas, havia calejado em todos os sentidos suas emoções, mas continuava ainda a mesma teimosa de sempre.
Tinha talvez um dom de encontrar a profundidade das coisas rasas, a simplicidade do complexo.
Era capaz de transformar dias, lugares, sons e até pessoas com as lentes de fantasia que carregava na retina da alma. Uma pena que há algum tempo, isso estava se tornando raro.
Voltou-lhe em mente a pergunta: contentamento ou comodismo?
Que seja as duas coisas, ela pensou.
Lembrou-se então com um sentimento muito forte, cálido e delicado, dele.
Fechou os olhos por mais um minuto e prestou atenção nas batidas do seu coração. Tantas vezes ela lera que um amor de grande valor e intensidade, dispara os batimentos, preenche as artérias, flui no sangue como fogo.
O fogo é belíssimo, hipnótico e atraente, mas destrói, fere e corrompe. Um amor de tal espiritualidade não podia ser como fogo assim lindo e destrutivo.
Sorriu com menor timidez dessa vez, um sorriso externo que revela expressões e escorre no queixo.
Quando pensava nele, seu coração calava vagarosamente, como quando nasce o sol numa manhã de inverno, faz surgir um silencio acolhedor que parece desejar bom dia e banhar com energia cósmica tudo que está ao alcance da luz emanada por seus raios.
Não era um amor fogo violento, era um amor simplesmente mortal e verdadeiro. Mortal para ser real e humano, e não simplesmente ideal e poesia.
Ela era então, eternamente grata a ele por isso.
E ali, escondidinho no cantinho dos lábios, onde o sorriso revela os dentes e onde o beijo termina, estava a resposta: não era nem contentamento e nem comodismo, era comoção por estar assim, tão contente.
A chuva que caíra com força durante o final da tarde, só fez aumentar ainda mais a sensação térmica, ao menos agora, o ar estava mais úmido e olhos não ardiam tanto.
Ardiam talvez em função do quanto ela chorara naquele dia. Aquele choro emocionado e contido, que dói na garganta por não poder soluçar. Não era nada demais, só tinha assistido um filme.
Naquele instante, a fronte quente de um dia de sol e os pés doloridos de um sapato mal escolhido, ela parou para ouvir por alguns segundos sua própria respiração: ofegava sem ter motivo.
Os olhos ainda um pouco inchados, pareciam um pouco mais aéreos do que de costume, o peito um bocado mais leve. Na boca, ainda o gosto salgado do choro, a pele do rosto retesava lágrimas já secas.
Uma sensação momentânea de apatia foi preenchida por um sentimento inédito e ela não soube definir se era contentamento ou comodismo. Achou estranho, ambos não eram similares mas também não poderiam ser classificados como bons ou ruins, era tudo uma questão do vetor inicial.
Como não enxergaria o vetor daquelas sensações tão cedo, procurou não pensar e apenas sentir.
Foi o ano que passou. Já fazia alguns dias que outro calendário havia sido pendurado na parede mas só naquele instante ela se deu conta do ciclo temporal que se fecha para o inicio de um novo. Nenhum dos dois era muito visível.
O que passou, era um misto de lembranças turvas que oscilavam entre a saudade, risos soltos na atmosfera e algumas coisa que poderia ser nomeada de decepção (mesmo não sendo esse o termo realmente ideal). O que viria, era uma fusão de incertezas e esperanças. Nada muito esclarecedor.
No fundo, apesar de tanta desconfiança, ela estava convencida de que estava satisfeita com tudo aquilo. Estava satisfeita com o que fora, com o que se tornara e com as mudanças imprevisíveis que ainda iria sofrer.
Hoje, mais do que ontem, ela era uma mulher.
Continuava ainda a criança inocente que pinta o mundo com suas cores preferidas e se perde na beleza de uma bolha de sabão.
Continuava ainda a adolescente espirituosa que desafiava o mundo e os valores humanos, que acreditava em causas humanitárias, tomava a linha de frente mas que se sentia sozinha, perdida e desajustada.
Continuava ainda a filha mais velha, cujos feitos passados orgulhavam a família a quem devia sua boa educação, mas que carregava um certo temor das expectativas erradas que muitas vezes lhe eram depositadas.
Em todos esses sentidos já era uma mulher.
Uma mulher disposta a servir de base e estrutura quando fosse necessário. Uma mulher que buscava independência e proteção.
Uma mulher que zelava, sofria, amava, torcia, orava, fazia e partia sem se deixar ser notada.
Uma mulher que era um poço de sensações, sentimentos, pretensões e anseios, mas que aparentava ser o equilíbrio perfeito de suas idéias e valores.
Era guerreira quando surgiam batalhas. Era companheira quando surgiam amigos. Era apaixonada quando surgiam amantes. Era extremamente frágil quando surgiam facas. Mortalmente imortal com suas visões desfocais.
Mulher nos braços, nas mãos, nos cílios e pernas. Mulher nas atitudes, nas esperanças e nas contradições.
E hoje, ela só era mulher, mais do que ontem, devido a tudo aquilo que já tinha se transfigurado em memória.
Sorriu um sorriso silencioso, virgem, imperceptível.
Conhecia algumas pessoas melhor do que os botões de uma blusa preferida. Outras tão próximas, tinha como estranhas.
Não odiava ninguém. Não era capaz de ser indiferente. Apenas se afastava quando acreditava ser necessário e era fria em seu auto-julgamento.
Impunha punições e penitências severas à si mesma afim de educar-se nos seus gestos, palavras e amplitudes.
Escondia dentro de si um dicionário de significados dos mais diversos, para todas as situações, olhares e frases lançados.
Para quê? Até quando?
Sorriu novamente. Havia amadurecido tanto, havia aprendido tantas coisas, havia calejado em todos os sentidos suas emoções, mas continuava ainda a mesma teimosa de sempre.
Tinha talvez um dom de encontrar a profundidade das coisas rasas, a simplicidade do complexo.
Era capaz de transformar dias, lugares, sons e até pessoas com as lentes de fantasia que carregava na retina da alma. Uma pena que há algum tempo, isso estava se tornando raro.
Voltou-lhe em mente a pergunta: contentamento ou comodismo?
Que seja as duas coisas, ela pensou.
Lembrou-se então com um sentimento muito forte, cálido e delicado, dele.
Fechou os olhos por mais um minuto e prestou atenção nas batidas do seu coração. Tantas vezes ela lera que um amor de grande valor e intensidade, dispara os batimentos, preenche as artérias, flui no sangue como fogo.
O fogo é belíssimo, hipnótico e atraente, mas destrói, fere e corrompe. Um amor de tal espiritualidade não podia ser como fogo assim lindo e destrutivo.
Sorriu com menor timidez dessa vez, um sorriso externo que revela expressões e escorre no queixo.
Quando pensava nele, seu coração calava vagarosamente, como quando nasce o sol numa manhã de inverno, faz surgir um silencio acolhedor que parece desejar bom dia e banhar com energia cósmica tudo que está ao alcance da luz emanada por seus raios.
Não era um amor fogo violento, era um amor simplesmente mortal e verdadeiro. Mortal para ser real e humano, e não simplesmente ideal e poesia.
Ela era então, eternamente grata a ele por isso.
E ali, escondidinho no cantinho dos lábios, onde o sorriso revela os dentes e onde o beijo termina, estava a resposta: não era nem contentamento e nem comodismo, era comoção por estar assim, tão contente.
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