A última lembrança.

A última lembrança que tenho de Victor data de quase dez anos atrás.
Eu estava vestindo pijama, chinelos de flanela e meias coloridas quando ele tocou a campainha sem sucesso, pois o som estava um pouco alto e não pude ouvir a campainha nem seus gritos.
Sua chegada foi anunciada pelo cachorro que corria agitado pela casa, latindo freneticamente e logo imaginei que alguém esperava no portão.
Quando olhei pelo pequenino olho mágico, não pude reconhecer aquela figura maltrapilha e molhada, fazia um tempo cruel de forte chuva e vento frio, o céu estava bastante cinza e a visão da gente fica um pouco embaçada nesse ambiente.
Sem reconhecê-lo, imaginei que fosse alguma entrega dos correios ou coisa que o valha e, envergonhada pelos meus trajes amarrotados, corri até o quarto e vesti um moletom sobre o pijama enquanto gritava para que aguardasse por um instante o visitante incógnito.
Ao abrir a porta foi como se meu coração parece por um segundo e eu não sabia muito bem o que fazer, o que dizer, era como se meus olhos não acreditassem no que estavam vendo e meu cérebro estava procurando uma explicação lógica para aquela visão, como se fosse alguma alucinação causada pelo cansaço, averiguando se aquilo não era mais um dos sonhos onde costumávamos nos encontrar toda vez que eu dormir.
Não, era realidade, ele estava ali em carne e osso, todo molhado, descabelado, encapotado e cheio de malar e bagagens. Em seus olhos lia-se a felicidade e a saudade de muitos anos comunicando-se apenas por longas cartas e vez em nunca por telefone, sob a barba mal feita via-se seu sorriso de sincera gratidão e admiração, lia-se o amo e o carinho terno que sentia por mim.
Desatei a rir enquanto ele sem pedir licença, saiu da chuva e abrigou-se em minha sala, deixando sua bagagem encharcada logo na entrada.

-Você vai ficar parada me olhando o tempo todo, é? - Ouvi-o dizer em tom zombeteiro - Isso são horas de estar usando pijamas? Ou o fuso-horário está me deixando maluco, ou não passa das oito horas...

O tom maroto e caloroso de sua voz fez com que meu transe se dissolve-se e ficamos unidos por um forte e longo abraço que eu desejei que durasse toda a eternidade, mas que pareceu terminar numa única fração de segundos.

- Quando foi que você chegou? - Perguntei afoita.

- Hmm... Agora! - Respondeu ele fingindo olhar no relógio.

- seus pais?...

- Viajando ainda... Eu avisei que chegaria apenas semana que vem, resolvi voltar antes para fazer uma surpresa, mas como eles não estavam sabendo de meus planos, possivelmente só voltarão no fim de semana, não encontro minhas antigas chaves e então resolvi vir até aqui procurar abrigo até ter de volta meu teto... Se não for nenhum incomodo é claro - Ele acrescentou um pouco constrangido pelo modo profundo com que eu o encarava.

- senti tanta saudade!

-Eu também senti... Senti mesmo.

- Quer dizer que temos então uma semana INTEIRA juntos? Puxa vida, depois de 4 anos é um prêmio e tanto... - Eu cutuquei com certo humor.

- é o melhor que pude fazer... Você sabe que não foi fácil... - Ele respondeu sério.

- Não eu não sei... mas eu posso imaginar! Anda, entra! senta aqui e me diga, como é que você está? fez boa viagem?

- Ficar quase 14 horas dentro de um avião apertado não á uma coisa que eu diria muito boa, mas tudo correu perfeitamente bem... Você mudou bastante! Deixou o cabelo crescer outra vez... - Ele comentou enquanto delicadamente separou uma mecha dos meus cabelos com as mãos.

- É sim... - Estremeci - E você está com essa barba enorme... - Comentei em tom de brincadeira para disfarçar meu embaraço causado pelo seu toque. Ah! Aquelas mãos, quantas saudade daquelas mãos!

- Estou morto de fome, queria saber se posso levá-la para jantar, para comemorar minha chegada e compensar minha intrusão no seu universo particular do pijama de ursinhos...

Eu ri desconcertada tentando esconder por debaixo da blusa a camiseta estampada de ursinhos do meu pijama.

- Tudo bem então, acho melhor você tomar um banho quente, caso contrário vai ficar muito resfriado pois está todo encharcado!

Então, num clima de intensa emoção que ia desde a surpresa do reencontro inesperado, até a estranheza daquela situação, tanto tempo distantes um do outro tinha-nos deixado um tanto tímidos.
Naquela noite jantamos num restaurante que freqüentávamos desde muito jovens e que, desde a sua ultima partida, eu nunca mais havia freqüentado.
Foi preciso cerca de 2 horas de conversa, confissões e narrações de nossas aventuras no mundo adulto desde que nos havíamos visto da ultima vez, além de uma garrafa de vinho para que voltássemos a nos sentir tão à vontade como se ele nunca tivesse partido.

Foi uma semana maravilhosa aquela, tão nossa e tão surreal que até hoje doía-me lembrá-la, acredito que é a primeira vez que faço desde então.
Tudo voltou a ser como sempre fora, fizemos passeios aos parques, passeamos com o cachorro, fomos á praia, comemos muitas porcarias, jogamos baralho, cantamos nossas musicas preferidas, dançamos as mesmas musicas de sempre, conversamos sobre tudo e nada até amanhecer e fizemos sexo como dois pagãos.

No ultimo dia juntos, pela manhã acordamos um pouco mais cedo do que de costume e fomos tomar café da manhã em uma padaria um pouco longe de casa mas que tinha tantas boas lembranças quanto aqueles olhos maravilhosos.

- Já estou sentindo a dor da sua partida... - Arrisquei com hesitação.

Ele comia cabisbaixo, tinha certa dificuldade para cortar o pão de queijo com a faca de plástico que nos fora dada.

- Mas é ainda daqui tanto tempo!

- Não, é daqui a poucas horas...

- Tudo não passa de um simples ponto de vista, não é mesmo? Se eu fosse chegar daqui poucas horas, seriam as horas mais longas de todo o mundo, como é o oposto as horas parecem menos do que alguns segundos de nossas vidas.

Contemplei calara seu rosto tão familiar, seus traços tão conhecidos e saudosos, tão presentes nas minhas lembranças.

- Fica. - Pedi em voz baixa tocando de leve sua mão.

- Eu não posso... - Ele respondeu sem me olhar nos olhos e delicadamente retirou afastou sua mão da minha.

Aquela foi a tarde mais cruel de toda minha vida. Chegou até a ser longa devido à quantidade de crueldade nela presente.
Não fizemos nada de especial, apenas aquilo que melhor sabíamos fazer: sexo.
Depois ficamos deitados juntos em silencio, por compridas horas, contemplando o tempo que corria e nos afastava e dilacerava conforme o sol ia se pondo.

De malas prontas para partir para a casa dos pais há cerca de 100 km dali ele me olhou nos olhos por bastante tempo, era como se desculpasse.

- Eu não sei muito que dizer... - ele começou. Com muito esforço eu tentava deter as lágrimas que aos poucos me venciam e escorriam de meus olhos.

Retribuindo aquele olhar penetrante, eu constatei que não tinha mais forças para suportar aquela ausência, aquele contato distante e ao mesmo tempo ardente aquelas saudade estuporante que flagelava meu ser. Eu não teria forças para me despedir dele outra vez.

- Victor... - Comecei antes que ele dissesse qualquer coisa - Eu não quero mais vê-lo. Eu não... eu não posso... - Eu tentava parecer forte, fria, decidida, mas minha voz embargava devido á imensa tortura pela qual passava meu coração. - Entenda que isso não é certo, isso não é direito, isso não pode continuar. Por favor, não venha mais, nunca mais me escreva ou telefone. Eu não vou mais procurá-lo, também não vou mais escrever ou telefonar...

- Mas, o que você está... Eu não entendo... - Ele estava perplexo. Imaginava qualquer atitude de minha parte, mas nunca que lhe dissesse tais coisas.

- Estou falando sério. Isso não está sendo saudável para nenhum de nós, principalmente para mim. Eu não posso continuar me envolvendo com alguém que não quer se envolver... Que não pode se envolver. Eu não posso viver a expectativa de possuir algo que não me pertence e nem nunca pertencerá.

Ele nada respondeu. Assim como eu ele sofria, mas no fundo, ele concordava com o que eu estava dizendo.

- Eu quero que você desapareça, Victor. Suma, suma de minha vida de minhas lembranças... Suma sem deixar nenhum vestígio. Anda... Pega tuas coisas e vá embora.

Sem dizer nada, com os olhos amargurados, ele pegou as malas e atravessou o portão de entrada. O taxista pegou a bagagem e colocou no carro.

Victor então colocou a mão do bolso, pegou a aliança que retirara do dedo assim que entrara em minha casa e colocou-a de volta na mão esquerda. Quando se voltou para mim eu nada respondi, apenas fechei a porta e dei-lhe as costas para sempre.
Fiquei ali durante um tempo, chorando baixinho enquanto ele gritava meu nome e tocava a campainha. =Fiquei ali mesmo depois que ouvi o carro partindo, virando a esquina e sumindo no mundo das minhas lembranças melancólicas.

Sofri por muitas noites e muitos dias durante alguns anos.

Victor me escreveu durante muito tempo, telefonou diversas vezes, porém eu nunca respondi eu atendi.
Aos poucos ele parou de telefonar, começou a escrever com menor frequencia e sem nunca obter resposta, parou de escrever finalmente e eu encontrei a paz.

Hoje sou uma nova pessoa. Continuo com a mesma essência, mas com uma pontinha de amargura que me fez forte e independente.
Não vou dizer que não sinto a sua falta, mas aprendi a viver sem sua imagem nos meus pensamentos. Já posso olhar para uma foto ou sentir um perfume sem estremecer.
Às vezes tenho curiosidade do que se passou, se ele está bem se ainda vive.

Depois de um tempo os sentimentos perdem a voracidade e nós acabamos nos contentando em viver apenas com uma das metades que restou de nós.

Essa foi a ultima lembrança que tenho dele.

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