Abigail.
Quem eram aqueles rostos nos retratos?
Um menino corria pelo corredor com um brinquedo nas mãos, um contentamento infantil contrastante com aquele lugar tão quieto.
O que faziam ali?
Um rapaz tinha lágrimas nos olhos. Porque é que ele estava chorando?
Abigail sentou-se com dificuldade numa cadeira estofada, próxima à moça que estava ao telefone. Sentiu certa simpatia pela figura esguia ao seu lado.
Nunca a vira antes, mas teve um súbito desejo de abraçá-la. Pena que não a conhecesse.
O rapaz choroso aproximou-se e tomou as mãos da moça bonita. Ela sorriu-lhe com pesar.
Ele então, veio em direção a Abigail que se encolheu.
O que é que iria fazer?
-Quem é você? O que é que está fazendo aqui? Vá embora... Vá embora!- Abigail pediu assustada.
-Mãe... Sou eu! - Ele disse suplicante com a voz pastosa.
- Eu não sou a sua mãe, moço! Já disse que não sou. Vá embora, por favor! - Abigail pediu outra vez.
O rapaz a chamou de mãe, isso a incomodou. Quem é que ele pensava ser?
Aquela casa estava cheia de doidos. Ela precisava sair dali.
Olhou para a moça ao telefone em busca de auxílio, ela continuava falando. Parecia falar uma língua desconhecida, Abigail não conseguia entender.
Levantou-se num sobressalto. Tinha mesmo que sair dali.
-Eu vou embora daqui. Tenho que ir embora daqui. Vou para minha casa.
-Mas você está em casa, mãe. Está aqui já. - O rapaz tentava impedi-la de se levantar, mas não teve sucesso. Lágrimas escorriam copiosamente de seus olhos.
Abigail andou pelo corredor daquela casa estranha sem saber realmente o que estava fazendo ou para onde estava indo. Passou por uma porta que dava para um quarto perfumado, com o piso de madeira como o restante dos cômodos, um armário antigo com puxadores trabalhados e uma cama de casal coberta com uma colcha rendada. Virou a chave no trinco da porta e deixou o rapaz choroso do outro lado, pedindo que ela abrisse.
Seguindo seus instintos começou a vasculhar a o grande armário a procura de uma mala, algo lhe dizia que estava ali. Não tardou muito e encontrou um mala grande, vermelha e branca de alça marrom, parecia muito adequada.
Remexeu nas gavetas à procura de suas coisas, mas... Que coisas?
Nada ali lhe pertencia, nada ali lhe dizia respeito, estava confusa e muito assustada, Mil coisas ruins se passavam em sua cabeça, atrocidades que aquelas pessoas malucas poderiam cometer contra ela.
Não encontrando nada que lhe pertencesse, encheu as malas com o que estava ali mesmo, de uma forma ou de outra iria servir até que ela descobrisse onde estava e o que tinha de fazer para ir para casa.
Pegou um ou outro par de sapato também, afinal poderia demorar alguns dias para chegar em algum lugar e isso exigiria que estivesse bem vestida.
Sem saber mais de que precisava foi até a penteadeira ao lado da cama e sobre ela encontrou uma pequena caixa de jóias cheia de colares e brincos de pedrinhas brilhantes. Por um instante foi tomada por uma forte vontade de colocá-los na mala também, mas conteve-se: não podia roubar coisas de tanto valor. Estava levando somente o estritamente necessário e planejava devolver assim que pudesse e o mais rápido possível.
Encontrou ali mais algumas coisas como batons de várias cores, um pote de pó de arroz, rouge, algumas esponjas, cremes anti-rugas, um vidro de perfume e no fundo de uma das gavetinhas uma caixinha de veludo azul marinho já muito corroída pelo tempo.
Por mais incrível que pareça, aquela caixinha velha parecia estranhamente familiar.
Abigail sentou-se na cama macia e por um instante contemplou aquela caixinha com certa nostalgia. Era pequena, um pouco maior que a palma de sua mão e tinha uma fechadura mínima, já enferrujada. Compreendendo que aquela caixinha realmente lhe pertencia, Abigail retirou do pescoço a corrente dourada que sempre usava e pendurada na corrente uma chave tão pequena e tão gasta quanto aquela fechadura.
Virando a chave, a caixinha se abriu e revelou um anel todo dourado bastante gasto. Na parte interna do anel, lia-se uma inscrição que fora gravada ali há muito anos atrás: Abigail – 14 de fevereiro de 1932.
Lendo aquelas palavrinhas escondidas no antigo anel, Abigail sentiu como se um grande calor lhe enchesse o peito e foi tomada por sentimentos de intensidades inimagináveis.
Naquele momento, ela sabia exatamente o que estava acontecendo, sabia exatamente onde deveria estar.
No minuto seguinte ela se levantou e finalmente abriu a porta.
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