O maior tesouro da Terra
La estava eu buscando algo que parecia praticamente impossível de ser encontrado: o porta incenso.
Havia desaparecido desde a última mudança e eu nunca havia me dado conta disso, só agora que estava cansada de acender incensos em saleiros antigos ou tampinhas de garrafa, estava completamente disposta a encontrá-lo custasse o que custasse. E custava. Ele deveria estar, de acordo com meus cálculos, em algum lugar socado no sótão.
Subi as escadas como quem vai fazer uma grande expedição e o aspecto geral lá em cima era mais ou menos esse mesmo. Sobre uma cadeira, comecei a vasculhar a prateleira empoeirada repleta de caixas, sacos e pacotes, repleta também de teias de aranha e das mais asquerosas residências de insetos bizarros. Foi como xeretar pela tumba do mais antigo faraó de todo o Egito Antigo, tal era a variedade de coisas estranhas e esquecidas que lá se encontravam.
Alguns minutos e eu já estava completamente desligada da minha busca inicial pelo porta incenso, tamanha era a surpresa que regia o abrir e fechar de caixas e pacotes. Desde colchões de ar, piscininhas de lona daquelas de mil litros (todas furadas, obviamente) até ferros de passar roupa antigos, enfeites de natal, livros muito velhos, disquetes daqueles grandões que mais parecem um fresbie, latas de panetone antigas repletas de miudezas, manuais de aparelhos eletrônicos que não existem mais, cadernos e agendas de dez anos atrás etc, etc e etc.
Foi quando aconteceu. Uma caixa muito grande e muito empoeirada, envelhecida pelo tempo no alto da prateleira chamou minha atenção por ser muito mais leve do que deveria ser. Com cuidado, curiosidade e correndo certo risco de vida de morrer sufocada com o pó e os ácaros que ali residiam, desci a caixa até o chão e, após verificar se ali não se transformara no alojamento de terceiros (vulgo traças, baratas e afins), abri a caixa delicadamente.
Lá estava ela.
Toda a minha infância embalada na poeira do passado, na lembrança daquilo que um dia fora novo e brilhante.
Ursinhos de pelúcia das mais variadas formas, tamanhos e cores, brinquedos pequeninos daqueles que cabem na palma da nossa mão, brinquedos tão familiares quanto velhos amigos, outros brinquedos cujas lembranças haviam desaparecido de minha memória e agora pareciam pertencer a outras pessoas, mas que aos poucos ficavam mais translúcidas e aparentes. Tudo estava ali, absolutamente tudo.
Fui tomada por um desejo incontrolável e tocar cada peça dentro da caixa. Apertá-los, abraçá-los, observá-los um a um e reformular o grande quebra-cabeça em que o passado havia se transformado.
Aos poucos minha cabeça era um turbilhão de sonhos e divagações, era como se no toque daqueles velhos amigos todas as histórias que os envolviam eram projetadas a minha frente: um longo e nostálgico filme protagonizado unicamente por mim.
Os pensamentos embaralhavam-se e minha vista chegara a ficar turva com o esforço para recordar de onde viera cada brinquedo, cada urso ou boneca, onde eles já haviam estado e como e quando eles deixaram de existir no meu cotidiano ao ponto de eu ter me esquecido (quase) completamente de todos eles.
Subitamente eu queria mais do que tudo levá-los para baixo e acumulá-los em meu quarto, como em uma grande exposição de objetos pessoais de alguma personalidade importante, eu queria que o mundo todo partilhasse comigo essa estranha e maravilhosa sensação de voltar no tempo em pequenas doses, essa alegria melancólica de provar com os próprios olhos e as próprias mãos de que eu havia crescido. Eu havia crescido muito.
Parei por um instante e aos poucos a realidade foi surgindo como uma névoa prateada que cobre a paisagem em dias frios.
Naqueles dias, meu quarto já não era o mesmo. As prateleiras que antes eram o apartamento desses velhos amigos estavam agora tomadas por livros e mais livros, filmes e mais filmes que não tinham mais para onde ir senão ali. A escrivaninha e os outros móveis estavam cobertos por cadernos, anotações, folhas e mais folhas de papel rabiscadas com afazeres e responsabilidades, necessidades e indagações. Mal sobrara espaço para os meus lápis de cor. A maturidade tomara conta do meu quarto da mesma forma que o tempo tomara conta de mim. Eu já não tinha os mesmos olhos, tampouco as mesmas roupas e nem os mesmos pés. Por um instante fiquei surpresa por ter pés tão grandes.
As minhas preocupações eram outras e o mundo já não me parecia tão repleto de fantasia quanto era antigamente.
Foi então que, com tristeza eu soube o que deveria fazer. Tocando com carinho cada um daqueles achados, devolvi-os à caixa com cuidado e resignação. Quando coloquei a caixa novamente na prateleira, senti-me enterrando um tesouro lendário e muito precioso, o maior tesouro esquecido que havia no mundo e o que era mais especial: ele só teria valor para mim.
Desci completamente abstraída da tentativa de encontrar o porta incenso ou qualquer outra coisa. O que realmente se passava em mim, não era uma sensação ou sentimento que pudesse ser descrito ou escrito. Era mais como uma certeza boa, um pouquinho dolorosa, profunda e muito, muito pessoal.
Ali, na prateleira empoeirada do sótão, em uma caixa de televisão antiga estava escondido o bem mais precioso que eu poderia almejar conquistar de volta: a minha infância.
Ali naquela caixa velha jazia o maior tesouro da Terra. E só EU sabia disso.
Comentários
Te amo.
Obrigado por partilhar seu maior tesouro. Sinto-me presenteado.