Homofobia

Comentávamos sobre o filme "Minha vida em cor-de-rosa" de Alain Berliner, muito bom por sinal, e a dificuldade que as pessoas têm para aceitar e enxergar o homossexualismo com naturalidade.
Não que isso tenha muita ligação com o filme de Berliner, Minha vida em cor-de-rosa, ao meu ver, aborda muito mais do que simplesmente a rejeição sofrida por homossexuais, mas trata-se da história de um garoto que vive uma realidade de acordo com o universo que lhe foi imposto.
Ludovic pode não ser homossexual, mas sua criação como uma menina instigou-lhe um modo de comportamento tão contrário a sua natureza que acabou por tornar-se sua única natureza.
Chega a ser próximo da personalidade inquietante de Alex Delarge em Laranja Mecânica (com a licença de Burguess para realizar a comparação), onde Alex não pode ser considerado uma boa ou má pessoa pelos seus atos e pensamentos, uma vez que,
o universo que lhe foi imposto é o expoente da corrupção que existe dentro do mesmo. A pureza de um ser não pode ser levada em consideração sem que se estude o meio em que ele vive. (Isso quase chega a soar Rousseau).
Pois bem, deixo as análises psicológicas aos pseudocinéfilos, o grande incômodo é a falta de compreensão que algumas situações revelam a algumas pessoas.
Semana passada fui ao Cineclube Municipal (vulgo, Auditório da Prefeitura) assistir à exibição de "Tudo sobre minha mãe" de Almodóvar.
Assisti e reassisti o filme dezenas de vezes, mas não tive a oportunidade de assisti-lo no cinema, de modo que, nunca pude analisar tantos pontos de vista diferenciados, de uma só vez.
Terminada a exibição, me aproximei de duas senhoras de meia idade que conversavam escandalosamente (talvez) na esperança de que alguém ouvisse suas críticas análises e se arriscasse em alguma colocação.
Nunca tive muito discernimento ou impessoalidade no modo como às vezes coloco minhas opiniões, principalmente se me deparo com certas "críticas sem fundamentos" (toda crítica tem um fundamento, é fato, considero críticas sem fundamentos todas aquelas que são formuladas simples
e unicamente sob qualquer linha de grande preconceito, baixo raciocínio, falta de opinião própria ou coisa que o valha).
Atendendo ao (íntimo) desejo delas, me aproximei e permiti que evidenciassem toda a sua indignação em relação ao tema do filme e tudo o mais.
Já prometi para mim mesma que pararia de polemizar as coisas, abandonei certos hábitos, me afastei de certas companhias, li alguns livros e até criei um blog (diga-se de passagem), mas não adiantou e continua não adiantando.
Discutimos por algum tempo e, vendo que não teriam vitória sobre mim, as duas senhoras foram embora alegando estar ficando tarde.
Daremos nome aos bois de agora em diante.

Tenho alguns amigos e amigas homossexuais, alguns muito discretos, outros um bocado diferentes, mas todos, sem exceção alguma, muito inteligentes e amáveis, certos daquilo que querem, daquilo que gostam e do que não gostam.
Um deles demorou bastante tempo para definitivamente assumir-se, temendo tornar-se algum foco de instabilidade nas órbitas de sua família e círculo social.
Quando, finalmente, contou ao seu pai sobre sua opção, foi colocado para fora de casa.
Muita gente ficou horrorizada, muitas mães disseram poucas e boas e muitas outras foram indiferentes. O velho joguinho do: "Não importa como ele é, filho é filho e mimimi" da parte de quem está de fora é até aceitável, agora o que chega a ser inadmissível é a hipocrisia do "Queria ver se fosse o SEU irmão!”.
As pessoas adoram jogar dessa maneira, no duro, adoram mesmo, pois é a única maneira de se conformarem com sua própria realidade: passar a bola para quem está de fora.
Meu irmão tem 12 anos. Apesar de bastante tímido, me assusta com sua inteligência e criatividade. E então eu pergunto, se algum dia ele disser ser homossexual...
O que é que muda? Ele vai deixar de ter as idéias que tem ou de entender as coisas que entende? É óbvio que não.
Mas são casos e casos e já não estamos no direito de cobrar tolerância se até a arte, única verdadeira criação do homem, também é hipócrita.

Uma outra pessoa, assim que contou aos pais que era homossexual, foi levado a um psicólogo na esperança de que tudo não passasse de algum problema emocional e nada mais.
Ele poderia viver a vida toda como se nada tivesse acontecido, poderia ter suas idéias e seus amigos longe dos olhos dos familiares e afins, viver uma ‘irrealidade’ que agradaria a todos, mas foi com muita crença e atitude que ele optou por não o fazer. Não podemos existir se não sabemos quem somos e, infelizmente, para a sociedade em que vivemos não basta apenas nós mesmos sabermos, sempre é preciso mais. A busca pela aceitação é um mecanismo humano já convencional da espécie.

O fato é que, as duas senhoras que estavam presentes no dia da exibição no Cineclube, jamais irão saber sobre o que estão dizendo e não vão ser capazes de introduzir em suas cabeças pequeninas, qualquer outra conclusão além da que “Ser homossexual é errado”.
Alguém que prefere ver o filho fora de casa a aceitar que ele não seja heterossexual e aqueles que procuram auxílio psicológico e relutam interiormente a compreender que não existe problema algum e sim um ser humano comum também não irão conseguir pensar de maneira diferente.
Vivemos num antro que, antes machista hoje tende a ser ‘heterossexualista’ extremado no cotidiano se comparados com a evolução da liberdade de expressão e escolha.
O tabu frente ao homossexualismo é degradante como antes fora o tabu da virgindade, e consegue ser ainda mais inescrupuloso.
Não é mais do que frustrante saber que a mesquinhez consegue ser ainda tão presente nos dias da era da modernidade, a ponto de limitar a relação homem – pessoa a homem – animal e eclodir numa imensidão de preconceito estagnado que nunca vai nos abandonar.

Meus dois amigos convictos em suas próprias escolhas, hoje moram juntos e deixaram de lado a angústia de terem de ser aquilo que, os que dizem amá-los, querem que sejam.
Construíram, apesar da dificuldade, um patamar de existência que nunca teriam em sua surdina.
O grande defeito das coisas é a falta de homossexualidade nos sentidos.

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