Moldura

Uma atrás da outra, foi removendo as antigas fichas do arquivo e reempilhando-as sobre a mesa.
Um cheiro forte de mofo invadiu-lhe as narinas ao fazê-lo, recuou por alguns instantes, respirou fundo e continuou a procurar.
Dados e mais dados de muita gente. Gente velha. Gente nova. Gente importante. Gente ordinária. Todos resumidos ali, algumas linhas preenchidas e pequenas fotos anexadas.
Era triste, definitivamente era bastante triste olhar a tudo aquilo. Luíza demorou-se em uma ou outra ficha e desistiu. Seria impossível encontrar o que procurava, estava tudo muito desorganizado. Resolveu, então, começar tudo novamente.
Por onde andariam todos aqueles rostos estranhos? Seriam todas aquelas informações, ainda verdadeiras? Nem a metade, já fazia muitos anos.
Sentou-se na cadeira atrás da grande pilha de nomes e afins. O que buscava? Nem ela conseguia compreender.
Valores e mais valores, longos contratos, floreios e assinaturas. Muita coisa ali já valera uma fortuna, hoje não era muito mais do que papéis amarelados.
Perdida em pensamentos, Luíza passou o olhar pela sala. Contemplou a moldura de qualquer quadro na parede. Molduras eram, definitivamente, inúteis. Existiam na função de adornar a uma outra coisa, fosse pintura, fosse fotografia. As molduras anulam a si mesmas no intuito de fazer resplandecer a beleza do que envolvem e não se importam com isso.
Luíza tinha, na verdade, inveja das molduras que possuíam quadros para agarrarem, já que ela não possuía a nada e a ninguém.
Luíza perdera tudo, fizera muitas escolhas fáceis consideradas difíceis de aceitar e no fim das contas, não lhe sobrou muita coisa. Ela tinha tudo, tinha o mundo, o mundo todo estava lá ao seu redor, o mundo a emoldurava. Então, por imprudência, trocou o mundo por banalidades, atirando para longe o que levou muito tempo para ser construído, perdendo o chão, tornando-se um quadro sem moldura. Tudo sozinha, fizera tudo sozinha.
Não entendia e nem queria entender. “Ao menos ele está aqui...” ousou pensar. Lembrou-se, aglutinada, da figura de Augusto ali, por ela, para ela, com ela, dela... Dela? Não mais. Veio a tona o quadro de acontecimentos recentes que a fez afundar mais ainda em sua melancolia.
Doeu, doeu muito forte como vinha doendo há dias. Depois de tudo o que ela fez, depois de tudo ao que ela renunciara, depois de tudo o que jurara. Tudo. Tudo adiantara de nada. Augusto partira sem deixar lembranças, Luíza sofria.
No início do namoro era belo e eles compreendiam. Depois ficou sério, sério, muito sério, sério de assustar, mas ela foi forte, bem forte... (Será?) Eles passaram a não compreender, passaram a exigir dela um comportamento que já não lhe dizia respeito. Luíza negava, fugia, tinha medo, medo de perder Augusto, medo de ficar sozinha, medo, medo, medo, Luíza era puro medo, mudara. Afastou-se, afastou-se de todos, esqueceu-os aos poucos, mas esqueceu também que eles também a esqueciam. Assim foi.
Augusto, então, não parecia estar feliz. Não era mais como era antes, tratava-a rispidamente, mostrava-se frio, distante, despreocupado. Incontáveis vezes abandonou-a em qualquer restaurante ou coisa que o valha, dando a desculpa de que perdera o ônibus, esquecera do trem... Luíza não via (não queria ver) que estava perdendo-o, perdia Augusto a cada minuto assim como perdia seu amor próprio, assim como perdera à todos os outros. Cegou-se.
Quatro semanas passaram-se, quatro semanas desde o tenebroso dia em que ele partira, levara a câmera e tudo. Nada mais. Nenhum telefonema, nenhuma carta, nenhum aviso, nenhuma notícia. Nada. E pensar que ela tivera tudo, agora nem moldura. Vivia na esperança desesperadora de que um dia, enfim, ele voltaria. Dissera-lhe o quanto mudara, dissera-lhe o quanto abdicara daquilo que amava por ele, só por ele. O fez ele? Olhou-a com pena, pena e indiferença. Com palavras cortantes e gestos cruéis, deixou claro que não se importava, nunca se importara, ela agira por ela mesma.
Remexeu as fichas novamente, havia esquecido o que procurava e, mesmo que soubesse, não encontraria, estava tudo muito desorganizado. Luíza era como os dados ali estagnados: um resumo vago do que poderia ser qualquer um.
Abriu a terceira gaveta à procura de um lenço, a poeira do arquivo fazia-lhe muito mal. Encontrou um estilete enferrujado. Quanta infantilidade tudo aquilo. O que mais poderia fazer? Um dia passaria, sabia, só não sabia quando. Não tinha mais paciência, não tinha mais nada. Foi sem esforço que ela renunciou a algo pela última vez, mas diferente de outras vezes, foi a algo que já não dizia respeito a Augusto.

Fez da ordinária sala de todos os dias, dos nomes e rostos desconhecidos e da porta fechada à sua esquerda a última moldura que precisava: cortou os pulsos e sangrou até a morte.

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