Cine 52 - Capítulo I
A chuva torrencial lavava a grande Avenida e o cruzamento logo à frente, obrigando as pessoas a andarem armadas com grandes guarda-chuvas escuros e darem passos apressados no concreto escorregadio.
Carros e táxis encostavam a partiam próximos ao quarteirão do complexo, dezenas de moças falantes e rapazes bem vestidos iam e vinham empolgados com mais uma noite de sexta-feira, apesar de chuvosa.
Eliza estava atrasada.
Carlos olhou o relógio mais duas vezes antes de acender outro cigarro. No braço direito o paletó úmido da chuva, na cabeça o chapéu Panamá característico daqueles velhos dias. O barulho da água escorrendo por entre bueiros e sarjetas o angustiava, a noite se esvaia junto à água, novembro estava morrendo.
O carro parou rente à guia da calçada, Eliza desejou que não estivesse chovendo tanto, saltou apressada pela porta traseira e jogou o dinheiro da corrida pelo vidro da janela. O motorista agradeceu com um aceno de cabeça e partiu após desejar-lhe uma boa noite.
O barulho dos saltos na calçada encharcada perdia-se entre as vozes animadas que comentavam sobre a mais recente estréia.
Os letreiros luminosos contrastavam com os cartazes coloridos que ilustravam os filmes.
Eliza procurou andar o mais depressa possível enquanto vestia as luvas e ajeitava o cabelo, vinha desviando dos casais distraídos que conversavam na entrada do cinema, tomando cuidado para evitar ficar ainda mais molhada devido ao mau tempo. Agora o que desejava era um guarda-chuva.
Carlos recostou-se numa das grandes colunas da entrada e ficou a observar um carro parado logo em frente, onde duas jovens discutiam algo com empolgação. Um rapaz, num gesto cavalheiresco, abriu a porta traseira e acompanhou-as até dentro do cinema.
Passos ofegantes desviaram dali sua atenção e ele viu aproximar-se a figura de Eliza.
Abandonou o cigarro na calçada e foi ao seu encontro, ela conferia as horas.
- Carlos, me desculpe! Eu, eu fiz de tudo para...
- Não se preocupe. Você está bem? - ele perguntou após beijá-la.
- Cansada, um bocado cansada. - Eliza respondeu com um profundo suspiro enquanto conferia de longe o horário da sessão anunciado na bilheteria - Bem, já é um pouco tarde, não? Mas ainda há tempo de assistirmos novamente o...
- Não, esqueça. – ele interrompeu, pegando em sua mão - Venha, vamos tomar alguma coisa.
Eliza não se moveu, apenas encarou gravemente aqueles olhos familiares que, aos poucos, pareciam perder a forma concreta que outrora tiveram e iam transformando-se em vagas lembranças.
- Eu preciso dizer-lhe algo... - ela hesitou em começar.
- Eliza, você não está querendo dizer que...- Carlos se afastou.
Ela baixou o olhar e apertou com força a pequena bolsa que carregava, seus desejos passavam por uma transformação enorme e agora pouco importava a chuva e todo o resto.
- As coisas sem sempre são como desejamos, Carlos.
- Mas, você prometeu! - ele acusou com indignação.
- Eu sei o que eu prometi! Será que você não consegue pelo menos tentar entender?
- TENTAR ENTENDER? - Carlos a encarou por alguns instantes em silêncio antes de continuar com outro tom - Como é que você quer que eu tente entender, sendo que estamos noivos? NOIVOS!
- Carlos, por favor... - Eliza choramingou tentando argumentar.
- Eu, eu estou cansado disso tudo. - ele confessou rispidamente, deu-lhe as costas e atravessou a grande Avenida enquanto vestia o casaco, a chuva encharcando-lhe o chapéu.
Eliza chamou-o três vezes, vendo que ele se afastava cada vez mais, desvencilhou-se das pessoas que aguardavam na entrada do cinema e, esquecendo-se completamente da chuva, desatou a correr para alcançá-lo.
Os sapatos fazendo barulho enquanto atingiam as poças que se formavam nas irregularidades do asfalto.
Carlos estava decepcionado e já não distinguia onde havia angústia ou onde havia temor. Ouvia os passos de Eliza atrás de si, mas não estava disposto a voltar e discutir novamente, não naquela noite, e então...
Uma freada brusca e uma pancada surda seguida por um grito ensurdecedor o fizeram esquecer de tudo o que acontecera no minuto anterior. O coração acelerado implorava por aquilo que ele receava não estar acontecendo enquanto voltava.
A chuva dificultava o campo de visão e ele apenas conseguiu identificar o acidente quando já estava bastante próximo.
Um carro estava parado a alguns metros do cinema, a roda dianteira direita subira na calçada, o pára-choque estava ligeiramente amassado devido à colisão com um poste de iluminação. No chão, sob o carro, uma mão pálida estendida dramaticamente exibia uma mancha de sangue que crescia na sarjeta.
Eliza tropeçara a uma distancia mínima da confusão, instantes antes de acontecer.
Carlos colocou-a de pé, um grande hematoma na perna esquerda banhara sua saia com sangue, abrigou-a com seu casaco ensopado.
Aparentemente, o carro perdera o controle, atropelara uma moça que pretendia atravessar a grande Avenida e atingira o poste de iluminação momentos depois. Vestígios do que já fora o guarda-chuva da vítima estavam sob uma das rodas do carro.
Aos poucos, uma grande aglomeração foi se formando, o que dificultou o trabalho da polícia e do atendimento emergencial que não tardaram a aparecer. Alguns jornalistas tentavam resistir à represália das autoridades e fotografavam a cena como se tudo não passasse de um espetáculo ou coisa que o valha.
Carlos e Eliza, a uma certa distância assistiam às explicações e hipóteses que policiais e testemunhas formulavam aos repórteres e curiosos no local.
A grande perturbação era o fato de que não havia motorista ou qualquer passageiro no carro responsável. Algumas pessoas tentavam argumentar que talvez ele fugira tão rapidamente que não pôde ser identificado, o que anulava qualquer suposição do gênero foi um sapato de couro marrom, preenchido de pedras e estrategicamente posicionado sobre o pedal acelerador do carro, que a polícia havia encontrado.
Tudo parecia estar estranhamente programado.
Carlos e Eliza estavam tão atentos aos movimentos à sua frente que não perceberam a aproximação de um jovem jornalista que os abordou precipitadamente, sobressaltando-lhes.
- Com licença senhorita! - o repórter começou com uma voz esganiçada bastante contrastante com suas proporções - Vejo que exibe uma lembrança pouco agradável da fatalidade ocorrida ainda há pouco. - Ele apontou o machucado na perna de Eliza.
- Não, eu - Eliza tentou começar, mas ele a interrompeu.
- A senhorita estava acompanhando a vítima? A senhorita conhecia a vítima, sabia qual era seu rumo, tem alguma suposição em relação ao acidente? - ele desatou em perguntar enquanto procurava freneticamente por um bloco de anotações num dos bolsos da capa de chuva.
- Receio que esteja importunando a pessoa errada, senhor...- Carlos começou com certa irritação, referindo-se a informalidade com que o jornalista os abordara.
- Júlio! Júlio Gérbera... Gérbera com G, sim? - Ele se apresentou com certo fanatismo e continuou - A senhorita se importaria em dar um depoimento inédito para a edição da manhã? É um acontecimento quentíssimo e tenho certeza de que as pessoas ficarão comovidas em saber um pouco mais sobre a vítima... Eram amigas há muito tempo?
- Sim, ela se importa, agora se nos dá licença... - Carlos começou a conduzir Eliza para dentro do cinema.
- Ora, mas o povo deve saber a verdade! Por favor, senhorita, quando estiver recomposta não se acanhe em me ligar! Marcaremos uma entrevista que será interessantíssima, sim! Com toda certeza o seu depoimento será um estouro na edição de domingo! Aqui está meu cartão. - O jornalista disse de maneira persuasiva entregando a Eliza um cartão com um número de telefone que ela guardou no bolso do casaco.
Com certa dificuldade, Carlos e Eliza ganharam distância de toda a confusão e viram-se dentro do cinema, agora deserto.
Só então Eliza pôde analisar a gravidade do machucado em sua perna.
- Deixe-me ver isso... - disse Carlos - Acho melhor irmos para minha casa. Eu vou chamar um táxi.
- Eu não quero ficar aqui sozinha, esse lugar assim tão vazio é um bocado assustador...
- Mais assustador do que essa noite está sendo não pode ser, mas em todo caso venha, já estamos ensopados de toda forma.
- Como foi que aconteceu?- Eliza perguntou intrigada.
- Eu não sei, eu não vi nem ouvi o carro se aproximar.
- Nem eu! Apenas tropecei em alguma coisa e quando dei por mim ele já estava na calçada... E aquela pobre moça... - ela estremeceu.
- Pare de pensar nisso, vamos embora.
Carlos tomou-lhe pelas mãos e voltaram para a calçada onde ambos ficaram bastante assustados:
Não havia mais nada lá.
Não havia acidente.
Não havia polícia.
Não havia ninguém.
- Mas como é que...? - ele começou incrédulo. Fez sinal para o táxi que vinha passando e perguntou ao motorista se ele soubera do acidente que acabara de acontecer naquele mesmíssimo lugar.
O motorista disse não saber de nada.
Eliza estava tão desconcertada quanto Carlos, seguiram em silêncio até sua casa.
A casa de Carlos não ficava muito longe do centro, porém o táxi levou o dobro do tempo necessário para chegar até ela, devido às péssimas condições que a forte chuva impusera.
Ao adentrar a sala, Eliza deixou-se cair sobre o sofá verde musgo estrategicamente posicionado próximo à grande janela e Carlos foi buscar toalhas e curativos.
Após auxiliá-la a estancar o sangue e cobrir devidamente a ferida, ele sintonizou o rádio na esperança de ouvir qualquer notícia a respeito do que acontecera na entrada do cinema, mas ninguém parecia saber de nada.
Não ficaram dentro do cinema mais do que cinco minutos, jamais seria tempo suficiente para recolher o corpo, o carro, limpar o asfalto e dispersar toda a multidão que se formara ali, sem que houvesse vestígios.
Ambos trocaram olhares muito preocupados, alguma coisa bastante perturbadora acontecera afinal não poderiam estar ficando loucos de uma hora para outra.
A atmosfera que a situação emanava era de que tudo não passara de um golpe da imaginação.
Eliza apertou com força a perna machucada: a dor era bem real.
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