Catarina
Catarina abriu os olhos com dificuldade, desde que saíra do hospital e fora mandada de volta à clínica, tinha grande dificuldade em dormir mas quando adormecia era praticamente impossível acordar novamente.
Seu corpo sofria pequenos flagelos interiores, dos quais ela estava já tão habituada que não se importava mais com a dor. A dor se tornara, desde então, sua única companhia naquele quarto limpo de paredes brancas. Tudo o que desejava era que as coisas pudessem ser como antes, obviamente esse desejo era uma demonstração da pura indiferença que sentia em relação aos terceiros envolvidos, que seria sempre classificada como egoísmo e/ou ingratidão.
Era ingrata? Em absoluto. A quem é que deveria agradecer quando em sua maioria estavam distantes e os poucos que restavam serviam-se descaradamente de sua dor para aumentar o falso patamar de superioridade onde se impunham? Ninguém podia lhe responder.
Se estava arrependida? A que é que devia redenção? Tudo o que fizera, tudo o que causara nunca fora em função de ferir a algo ou a alguém senão ela própria, tinha índole ainda suficiente para admitir, isso tinha.
Cacos, o que conseguia se lembrar era dos muitos cacos em que sua vida estava desgostosamente fragmentada desde então. É como se tudo não passasse de um teste, uma seletiva para reconhecer os grandes de alma e tidos bons de coração, aqueles que deveriam ser os verdadeiros amigos.
Teve vontade de rir ao pensar nesse tipo de status. Não tinha inocência suficiente para acreditar na verdade e tampouco na amizade.
Esse era o seu absoluto.
As drogas levaram-lhe tudo, tinha dificuldade em aceitar. Tudo? O que significa perder tudo para alguém que não tinha nada?Simplesmente uma colocação filosófica. A única coisa que possuiu, ou pelo menos que acreditou ter possuído, era Tiago.
Os flagelos aumentavam enquanto pensava sobre isto, Tiago era a única coisa capaz de fazê-la sentir alguma parcela de culpa. Conhecera-o na escola - onde, provavelmente nunca mais retornaria - ao acaso e à princípio teve grande relutância em aceitar desenvolver qualquer espécie de sentimentos por alguém assim, tão mais jovem do que ela. Bobagem!
Grosso modo, ele era o único responsável por sua presença todos os dias naquele lugar.Inexperiente, ingênuo e dotado de uma fascinante ainda imaturidade, Tiago ainda era virgem quando começaram a namorar.
Catarina ensinou-lhe, literalmente, tudo o que pôde. Talvez ele ainda fosse um bocado infantil para tanto, e talvez essa infantilidade ainda fosse necessária para a formação de sua verdadeira personalidade, mas Catarina não se viu no direito ou posição de julgar ou mesmo de perceber.Divertiam-se junto, isso era tudo.
Tiago era exatamente como Catarina fora em sua idade: deslocado, indiferente, confuso, idealista e revoltado. Sua vida ordinária baseada somente nos estudos, alguns cigarros escondidos e pais repressores mudou drasticamente a partir do momento em que se viram juntos. A dela também.
Tudo começou com uma questão de postura, que aos poucos fugiu-lhe ao controle, transformando-se num ceticismos exacerbado em relação à vida e às outras pessoas, uma vez que viram-se tão dispostos a serem diferentes que se esqueceram das suas próprias naturezas, limites e prudência.
Mostravam-se muito parecidos em suas ações e pretensões e toda essa comunidade de gostos em comum e aspirações tangentes, levou-os a agira de maneira duplicada em todos os aspectos.
Em pouco tempo, faziam tudo o que podiam juntos e assim pretendiam fazer até que o tempo ou a troca de gênios os permitissem.
Havia duas semanas, ambos sofreram uma overdose de heroína. Surgiu então, a primeira e única grande diferença que criara um vão entre eles:
Catarina sobreviveu.
Tiago não.
Os flagelos incomodavam-na mais do que poderia suportar, em momentos como esse, Catarina alcançava um estado de espírito onde pouco podia discernir da realidade e do mundo paralelo em que estava vivendo em função dos calmantes e medicamentos.
Há menos de uma semana, a mãe de Tiago fora visitá-la na clínica.
Tiago tinha pais repressores o que significava que, seu pai era indiferente e sua mãe era extremamente super-protetora.
Não haveria outro meio de levar aquela visita, senão aos trancos e barrancos do inconformismo generalizado que Cíntia demonstrava estar vivendo ao mencionar o filho, sem importar-se com o fato de que Catarina ainda era um ser humano cujo coração batia e cujos órgãos respiravam.
- Meu filho está morto! - Cíntia dissera descontrolada.
- Todos já sabem disso. - Catarina respondeu-lhe rispidamente. A última coisa que precisava naquele momento era mexer nesta ferida. Estava pouco se fodendo para os pais ou o resto dos familiares, amigos nunca tivera porém, Tiago era-lhe realmente, realmente especial.
- Você não tem vergonha? Não tem vergonha do que causou a um menino da idade dele?
- Vá embora! Saia daqui, eu não quero falar sobre isso!
- O que foi que ele lhe fez? O que foi que ele lhe fez de mal para que você fizesse aquilo com ele? O que foi que ele fez? - Cíntia mostrava-se realmente descontrolada. Os flagelos no corpo de Catarina estavam num estágio máximo de intensidade, era quase alucinógeno.
- Nada! Ele nunca fez nada! - Catarina disse baixinho, os olhos marejados de lágrimas de tristeza e ódio ao mesmo tempo.
- Diga! Diga o que ele fez! Diga AGORA! - A mulher gritava dentro daquele quarto branco. Será que não iria aparecer ninguém para levá-la embora dali?
- Sái daqui! Sáaaaaai! - Catarina suplicava. Não queria fazer aqui, não podia.
- Eu quero saber! Eu quero saber o que um menino inocente como o meu filho fez a uma jovem monstruosa como você... Que mal ele causou-lhe para que você o obrigasse a fazer aquilo!
A mulher estava louca. Literalmente, louca. Catarina jamais seria capaz de obrigar Tiago a fazer qualquer coisa... Em tais circunstâncias, e maior probabilidade seria o inverso.
Ela gostava dele.
Aquilo estava enlouquecendo-a, fosse a dor corporal, fosse a dor emocional que aqueles gritos causavam-lhe, seu sangue fervia. Fervia de ódio daquela mulher, fervia de ódio daquele lugar, fervia de ódio de si mesma.
- O que ele fez? - Catarina perguntou num tom mortalmente odioso - Você quer saber o que o seu filho fez? Ele ME COMEU! SIM, ELE ME COMEU! COMEU MINHA BUCETA, COMEU O MEU CÚ! ERA ISSO O QUE VOCÊ QUERIA? ELE ME COMEU COMO FIZERAM OUTROS, MUITOS OUTROS! E A ÚNICA DIFERENÇA, A ÚNICA DIFERENÇA É QUE AGORA ELE ESTÁ MORTO! ELE ESTÁ MORTO E EU ESTOU GRÁVIDA! GRÁVIDA...
Cíntia empalideceu. Catarina não sentia os membros e respirava com dificuldade. Não conseguia lembrar-se o que aconteceu em seguida.
Um grupo de pessoas entrou no quarto, socorreram a mãe de Tiago, aplicaram alguma coisa no soro de Catarina e esta adormeceu profundamente em poucos segundos.
Adormecera e agora estava acordada. Já não tinha mais a noção do tempo, não se lembrava realmente se aquilo acontecera há uma semana ou um mês, mas não se importava.
Tempo era tudo de que menos precisava. tempo era aquilo que mais tinha e que estava mais apta em perder.
Naquela noite, Catarina sentiu-se, pela primeira vez, penalizada pela mãe de Tiago, apesar de todo o alvoroço que causara-lhe sua visita indevida. Não podia culpá-la.
Pediu a um enfermeiro que he trouxesse uma folha de papel e um envelope. Endereçou à Cíntia uma carta, que de tão pequena, mais parecia ser um bilhete. Tratava-se de uma confissão desconsolada, algo que Catarina julgou importante suficiente para que a mãe do único garoto de quem ela verdadeiramente gostara, soubesse.
"A overdose que levou seu filho não deve ser considerada como a única causa de sua desgraça.
Acredito que Tiago jamais teria muitas chances de continuar aqui por muito tempo, bem como eu ou a criança que abrigo em meu ventre - e não estou me referindo somente ao aborto que causarei.
Eu e Tiago,
éramos soro-positivos".
Seu corpo sofria pequenos flagelos interiores, dos quais ela estava já tão habituada que não se importava mais com a dor. A dor se tornara, desde então, sua única companhia naquele quarto limpo de paredes brancas. Tudo o que desejava era que as coisas pudessem ser como antes, obviamente esse desejo era uma demonstração da pura indiferença que sentia em relação aos terceiros envolvidos, que seria sempre classificada como egoísmo e/ou ingratidão.
Era ingrata? Em absoluto. A quem é que deveria agradecer quando em sua maioria estavam distantes e os poucos que restavam serviam-se descaradamente de sua dor para aumentar o falso patamar de superioridade onde se impunham? Ninguém podia lhe responder.
Se estava arrependida? A que é que devia redenção? Tudo o que fizera, tudo o que causara nunca fora em função de ferir a algo ou a alguém senão ela própria, tinha índole ainda suficiente para admitir, isso tinha.
Cacos, o que conseguia se lembrar era dos muitos cacos em que sua vida estava desgostosamente fragmentada desde então. É como se tudo não passasse de um teste, uma seletiva para reconhecer os grandes de alma e tidos bons de coração, aqueles que deveriam ser os verdadeiros amigos.
Teve vontade de rir ao pensar nesse tipo de status. Não tinha inocência suficiente para acreditar na verdade e tampouco na amizade.
Esse era o seu absoluto.
As drogas levaram-lhe tudo, tinha dificuldade em aceitar. Tudo? O que significa perder tudo para alguém que não tinha nada?Simplesmente uma colocação filosófica. A única coisa que possuiu, ou pelo menos que acreditou ter possuído, era Tiago.
Os flagelos aumentavam enquanto pensava sobre isto, Tiago era a única coisa capaz de fazê-la sentir alguma parcela de culpa. Conhecera-o na escola - onde, provavelmente nunca mais retornaria - ao acaso e à princípio teve grande relutância em aceitar desenvolver qualquer espécie de sentimentos por alguém assim, tão mais jovem do que ela. Bobagem!
Grosso modo, ele era o único responsável por sua presença todos os dias naquele lugar.Inexperiente, ingênuo e dotado de uma fascinante ainda imaturidade, Tiago ainda era virgem quando começaram a namorar.
Catarina ensinou-lhe, literalmente, tudo o que pôde. Talvez ele ainda fosse um bocado infantil para tanto, e talvez essa infantilidade ainda fosse necessária para a formação de sua verdadeira personalidade, mas Catarina não se viu no direito ou posição de julgar ou mesmo de perceber.Divertiam-se junto, isso era tudo.
Tiago era exatamente como Catarina fora em sua idade: deslocado, indiferente, confuso, idealista e revoltado. Sua vida ordinária baseada somente nos estudos, alguns cigarros escondidos e pais repressores mudou drasticamente a partir do momento em que se viram juntos. A dela também.
Tudo começou com uma questão de postura, que aos poucos fugiu-lhe ao controle, transformando-se num ceticismos exacerbado em relação à vida e às outras pessoas, uma vez que viram-se tão dispostos a serem diferentes que se esqueceram das suas próprias naturezas, limites e prudência.
Mostravam-se muito parecidos em suas ações e pretensões e toda essa comunidade de gostos em comum e aspirações tangentes, levou-os a agira de maneira duplicada em todos os aspectos.
Em pouco tempo, faziam tudo o que podiam juntos e assim pretendiam fazer até que o tempo ou a troca de gênios os permitissem.
Havia duas semanas, ambos sofreram uma overdose de heroína. Surgiu então, a primeira e única grande diferença que criara um vão entre eles:
Catarina sobreviveu.
Tiago não.
Os flagelos incomodavam-na mais do que poderia suportar, em momentos como esse, Catarina alcançava um estado de espírito onde pouco podia discernir da realidade e do mundo paralelo em que estava vivendo em função dos calmantes e medicamentos.
Há menos de uma semana, a mãe de Tiago fora visitá-la na clínica.
Tiago tinha pais repressores o que significava que, seu pai era indiferente e sua mãe era extremamente super-protetora.
Não haveria outro meio de levar aquela visita, senão aos trancos e barrancos do inconformismo generalizado que Cíntia demonstrava estar vivendo ao mencionar o filho, sem importar-se com o fato de que Catarina ainda era um ser humano cujo coração batia e cujos órgãos respiravam.
- Meu filho está morto! - Cíntia dissera descontrolada.
- Todos já sabem disso. - Catarina respondeu-lhe rispidamente. A última coisa que precisava naquele momento era mexer nesta ferida. Estava pouco se fodendo para os pais ou o resto dos familiares, amigos nunca tivera porém, Tiago era-lhe realmente, realmente especial.
- Você não tem vergonha? Não tem vergonha do que causou a um menino da idade dele?
- Vá embora! Saia daqui, eu não quero falar sobre isso!
- O que foi que ele lhe fez? O que foi que ele lhe fez de mal para que você fizesse aquilo com ele? O que foi que ele fez? - Cíntia mostrava-se realmente descontrolada. Os flagelos no corpo de Catarina estavam num estágio máximo de intensidade, era quase alucinógeno.
- Nada! Ele nunca fez nada! - Catarina disse baixinho, os olhos marejados de lágrimas de tristeza e ódio ao mesmo tempo.
- Diga! Diga o que ele fez! Diga AGORA! - A mulher gritava dentro daquele quarto branco. Será que não iria aparecer ninguém para levá-la embora dali?
- Sái daqui! Sáaaaaai! - Catarina suplicava. Não queria fazer aqui, não podia.
- Eu quero saber! Eu quero saber o que um menino inocente como o meu filho fez a uma jovem monstruosa como você... Que mal ele causou-lhe para que você o obrigasse a fazer aquilo!
A mulher estava louca. Literalmente, louca. Catarina jamais seria capaz de obrigar Tiago a fazer qualquer coisa... Em tais circunstâncias, e maior probabilidade seria o inverso.
Ela gostava dele.
Aquilo estava enlouquecendo-a, fosse a dor corporal, fosse a dor emocional que aqueles gritos causavam-lhe, seu sangue fervia. Fervia de ódio daquela mulher, fervia de ódio daquele lugar, fervia de ódio de si mesma.
- O que ele fez? - Catarina perguntou num tom mortalmente odioso - Você quer saber o que o seu filho fez? Ele ME COMEU! SIM, ELE ME COMEU! COMEU MINHA BUCETA, COMEU O MEU CÚ! ERA ISSO O QUE VOCÊ QUERIA? ELE ME COMEU COMO FIZERAM OUTROS, MUITOS OUTROS! E A ÚNICA DIFERENÇA, A ÚNICA DIFERENÇA É QUE AGORA ELE ESTÁ MORTO! ELE ESTÁ MORTO E EU ESTOU GRÁVIDA! GRÁVIDA...
Cíntia empalideceu. Catarina não sentia os membros e respirava com dificuldade. Não conseguia lembrar-se o que aconteceu em seguida.
Um grupo de pessoas entrou no quarto, socorreram a mãe de Tiago, aplicaram alguma coisa no soro de Catarina e esta adormeceu profundamente em poucos segundos.
Adormecera e agora estava acordada. Já não tinha mais a noção do tempo, não se lembrava realmente se aquilo acontecera há uma semana ou um mês, mas não se importava.
Tempo era tudo de que menos precisava. tempo era aquilo que mais tinha e que estava mais apta em perder.
Naquela noite, Catarina sentiu-se, pela primeira vez, penalizada pela mãe de Tiago, apesar de todo o alvoroço que causara-lhe sua visita indevida. Não podia culpá-la.
Pediu a um enfermeiro que he trouxesse uma folha de papel e um envelope. Endereçou à Cíntia uma carta, que de tão pequena, mais parecia ser um bilhete. Tratava-se de uma confissão desconsolada, algo que Catarina julgou importante suficiente para que a mãe do único garoto de quem ela verdadeiramente gostara, soubesse.
"A overdose que levou seu filho não deve ser considerada como a única causa de sua desgraça.
Acredito que Tiago jamais teria muitas chances de continuar aqui por muito tempo, bem como eu ou a criança que abrigo em meu ventre - e não estou me referindo somente ao aborto que causarei.
Eu e Tiago,
éramos soro-positivos".
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