Envelope
E se ela pudesse ler a carta, fosse quando fosse, saberia exatamente o que dizer em sua defesa.
Saberia perfeitamente os argumentos que usaria para tentar colocar em palavras, ato simplório e de grande risco, aquilo que dentro dela aos poucos se tornava perpétuo, uma vez que nunca seria dito.
O que ela quisera dizer com aquelas palavras era, abstratamente contraditório ao que sentia, jamais pretendeu encarar aquilo de uma maneira tão literal e mesmo convencional, como ele certamente o fez.
Não o culpava, na verdade era grata. Tudo correra exatamente como planejara, talvez pelo fato de conhecê-lo assim, tão bem.
Na menor das hipóteses, seu sofrimento fora e continuava sendo penosamente tão presentemente forte para não dizer mais do que o dele era. Isso não era mentira.
O que aconteceu na verdade, fora uma sucessão de acontecimentos que, misturados à velocidade das coisas e à ferocidade de seus próprios sentimentos, fizeram-na temer desesperadamente a inconcebível postura que estava prestes a admitir.
Um comportamento que, visto do ângulo de sua personalidade, temperamento e ideologia, era pouquíssimo coerente com aquilo que ela podia chamar de 'um futuro próximo' ou coisa que o valha.
Temos de fazer algumas escolhas um bocado tristes se quisermos continuar vivendo, pelo menos só para variar algumas vezes. Era um caso parecido.
Ela não deixara de amá-lo e tampouco deixaria, não importa quanto tempo passasse ou qual fosse o vão das coisas entre eles, seu sentimentos, uma vez jurados, para sempre perdurados. Ela acreditava nisso, e essa crença bastava para que nada mudasse.
Discordaria enfadonhamente de suas colocações profundas e mesmo pessoais, apesar de ter em mente que eram simplesmente retratos da mais pura verdade logo em vista, discordaria mesmo assim.
Um sentimento como aquele jamais poderia dar-se ao luxo de tamanha transformação, tampouco perder sua intensidade, era intragável ter de acreditar no contrário.
quando deixamos de lado determinado sapato ou roupa por algum tempo, não significa que estes irão, magicamente desaparecer de nossos armários como acontece com o algodão doce dentro da boca.
Trata-se de algo muito além do descritível para que possa ser jogado em imagens afim de facilitar o entendimento ou mesmo a abordagem do assunto.
O que pode acontecer, na maioria dos casos, é uma nova concepção, surgida a partir de uma idéia simplória ou de um ocasional diálogo, onde aquilo que sentíamos há um minuto atrás se torna tão inapetecível à nossa personalidade quanto um par de luvas pequeno para dedos longos.
Existem pessoas cujos sentimentos podem ser comparados à uma dependência por café.
Algo intensamente necessário e dilacerantemente perturbador quando se ausenta. Querem sorver mais e mais e numa questão de poucos segundos já estão à mercê de um ataque epilético por excesso.
Ela estava longe disso, uma vez que ela própria já era como café, os sentimentos existiam apenas para aumentar ainda mais o seu volume, só isso. Assim era aquela relação.
Seria imperdoável questioná-la se havia algum resquício de dor ou remorso por ter agido daquela forma, por ter usado de modos grosseiros, ingratos e muito pouco pessoais para tratar de um assunto que dizia respeito à ambos em quantidade equivalente, na realidade muito mais que isso, tratava-se de algo que fazia parte tanto dele quanto dela de uma maneira quase obscena.
O que acontece em determinadas situações é que, as expectativas e olhares humanos são extremamente difusos um dos outros e o ideal de perfeição para alguns se mostrara sempre contraditório aos outros e assim sucessivamente. Uma espécie de circulo vicioso em todas as relações.
A reciprocidade nunca estará congruente às expectativas e mesmo necessidades de algum dos lados. Talvez nalgum ponto, lá no inicio ou mesmo no final, ela encontra esse equilíbrio, mas isto é inegavelmente raro. No caso dos que ainda assim perduram, não representa que o equilíbrio simplesmente surgiu, em sua maioria, alcançou-se um estágio de comodismo e mesmo superação estáveis. De agora em diante, basta continuar vivendo sem grandes méritos.
Isso é tudo questão de ponto de vista, é claro. Do ponto de vista dela, se desejar uma posição mais exata.
Conclui-se então que para ela, estar com ele já bastava, não importa como e nem por quanto tempo, nunca parava para pensar muito nisso uma vez que, quando se ama verdadeiramente uma pessoa, não é preciso que haja juras de amor eternas e demasiado intensas, elas já estão embutidas num simples toque das mãos.
Ele era, em sua crença, o mais prudente e ínfimo retrato da perfeição.
Amava-o de uma tal maneira de tornar-se cega àquilo que viesse à magoá-la ou mesmo prejudicá-la, afim de manter-se sempre elevada ao alto nível de felicidade que aquele relacionamento proporcionava-lhe. Já não tinha mais o hábito dos velhos rancores e perdoava condescendente tudo aquilo que ele viesse a pecar referente ao modelo de virtudes que ela pintara-lhe.
Não estava preocupada com o que terminaria sentindo a respeito de si mesma ou mesmo com o rumo desordenado que sua vida poderia tomar dali pra frente, contanto que estivessem juntos todos os problemas tornavam-se mínimos, todas as ansiedades desapareciam por completo.
Aos poucos, ela anularia a si mesma em tributo à perfeição que ele representava-lhe, numa gratidão ignóbil que ela mesma via-se na obrigação de oferecer-lhe, uma vez que ele perante todas as suas ações era o mais ingênuo inocente, que nunca lhe pedira mais do que ela já não esbanjasse e nem nunca a forçara algo que não lhe agradasse, muito pelo contrário.
Se algo havia acontecido, se a corrida fora sabotada em algum ponto do trajeto, isto se dava unicamente ao fato irreal que ela tinha para si mesma, o fato que alegava sua falta de controle em relação às suas emoções naquele caso, o fato que evidenciava o quanto ela ainda era imatura para aceitar que o que tinha em mãos não era nada além do mínimo que ela deveria acreditar merecer.
Puro complexo de inferioridade se quiser usar um termo técnico nessa descrição.Ela mesma dera-se conta de que em um intervalo de tempo muito pequeno, estaria entregue à qualquer coisa que amadurecesse dos desejos dele, sendo isso de sua natureza ou não.
Dera-se conta de que privaria a si mesma de suas próprias esperanças e suas próprias perspectivas a fim de acatar somente àquilo que ele considerasse plausível, devido ao temor contrariá-lo e assim, perdê-lo.
O que sentia, já não era amor há muito tempo, era dependência e obsessão. Só ele a fazia sorrir, só ele era capaz de compreender suas aspirações, só ele era capaz de dar-lhe vida aos sentidos.
Culpava-o. Culpava-o antes de tudo.
Culpava-o por ser tão articulado em suas explanações e assim, causar-lhe um fascínio imediato em relação ao enorme senso de persuasão que acabara desenvolvendo, e mesmo por seus sonhos, planos, esperanças estarem todos divinamente interligados e caminhando em conjunto para a realização de ambos, seja esta física ou espiritual.
Mesmo a paixão que tinham pela música e pela arte era dosada em quantidades idênticas, e também o ideal libertário, as polêmicas, incredulidades, angústias e desilusões que vinham carregando desde a juventude eram congruentes.
Até quando raramente discutiam, o choque entre seus pontos de vista servia como plano para novas opiniões, novas angulações de um determinado assunto que despertava determinados sentimentos e assim, um interesse mútuo em entregar-se ainda mais àquilo que os mantinha unidos: um intenso e profundo auto-conhecimento.
Caminhavam juntos por uma estrada onde todos os dias eram diferentes e apesar das dificuldades, eram livres para permitirem-se experimentar novas formas de agir e pensar sendo eternos desconhecidos um para o outro, desconhecidos cuja intimidade só tende a crescer na medida que o descobrimento torna o interesse cada vez maior e mais duradouro.
Ela não poderia desejar outra coisa, não poderia ser mais feliz, não fosse a insegurança que sentia em perdê-lo.
Ele nunca deu-lhe motivos para desenvolver tais sentimentos, mas ela o fizera sozinha, isso admitia.
Eram melhores amigos antes de amantes e os maiores amantes antes de melhores amigos, se me permitir uma colocação um bocado sensível à esse respeito.
Seu problema era, uma pobreza de alma tão forte, que fora capaz de danificar-lhe o senso de cumplicidade, desencadeando um desligamento de seu próprio EU em função da existência DELE.
Essas coisas tendem a acontecer num envolvimento tão intenso e verdadeiro, o problema é que ela era fraca e ele orgulhoso.
Fugiu da situação como quem foge da luz solar quando acaba de despertar. Negou aquilo que sentia com maior ardência do que poderia imaginar, com o único objetivo de criar uma situação onde tivesse motivos suficientes para dilacerar seus sentimentos e maquiar feridas causadas por suas próprias palavras.
Culpava-o afim de não culpar a si mesma. Culpava-o para não enlouquecer.
Ela o abandonara, sabia disso, mas jamais deu razões para sentir-se arrependida de fazê-lo, uma vez que desenhou para si um conformismo antes inexistente e agora inalterável onde acreditaria estar fazendo o melhor por ambos, excluindo qualquer possibilidade de interpretar sua ação como egoísmo ou mesmo hipocrisia.
Ela continuava ainda a mesma pessoa, apesar de agora fingir amar outra pessoa, alguém que, para não ser classificado como inferior, era imparcial ao fervor de seu espírito e imprudência de sua carne.
Alguém indiferente e um bocado distante daquilo que um dia ela teve como seu, eternamente seu.
Tornara-se fiel a concepção de que os opostos se atraem e mesmo sabendo que jamais poderia cobrar daquele novo relacionamento, uma intensidade tal qual desejava, estava no ponto de cogitar o futuro como algo dos dois, o que soava denso se levado em consideração ao futuro cogitado meses anteriores. Já não sentia saudades e tampouco estava interessada ou mesmo disposta a vê-lo ou ter notícias suas.
Se ela pudesse ler a carta, fosse quando fosse, saberia admitir o tamanho de sua negligência.
Deixaria de concordar com o que ele dissera-lhe na tarde em que se viram e falaram-se pela última vez, uma despedida fria e cruel sem dúvidas nada digna do mérito que o relacionamento promovera-lhes até ali, e seria obrigada a fazer tudo diferente do que estava fazendo até então.
Não importa o que acontecesse, a atitude que ela teve seria sempre julgada e a atitude dele questionada, afinal apesar de TUDO ela ainda considerava que pipoca combinava com paçoca e que There is a light that never goes out do The Smiths era a música mais linda já feita.
Se ela pudesse ler, talvez o julgamento e as questões terminassem sendo classificados como desnecessários.
Pena que Camila não leu.
Saberia perfeitamente os argumentos que usaria para tentar colocar em palavras, ato simplório e de grande risco, aquilo que dentro dela aos poucos se tornava perpétuo, uma vez que nunca seria dito.
O que ela quisera dizer com aquelas palavras era, abstratamente contraditório ao que sentia, jamais pretendeu encarar aquilo de uma maneira tão literal e mesmo convencional, como ele certamente o fez.
Não o culpava, na verdade era grata. Tudo correra exatamente como planejara, talvez pelo fato de conhecê-lo assim, tão bem.
Na menor das hipóteses, seu sofrimento fora e continuava sendo penosamente tão presentemente forte para não dizer mais do que o dele era. Isso não era mentira.
O que aconteceu na verdade, fora uma sucessão de acontecimentos que, misturados à velocidade das coisas e à ferocidade de seus próprios sentimentos, fizeram-na temer desesperadamente a inconcebível postura que estava prestes a admitir.
Um comportamento que, visto do ângulo de sua personalidade, temperamento e ideologia, era pouquíssimo coerente com aquilo que ela podia chamar de 'um futuro próximo' ou coisa que o valha.
Temos de fazer algumas escolhas um bocado tristes se quisermos continuar vivendo, pelo menos só para variar algumas vezes. Era um caso parecido.
Ela não deixara de amá-lo e tampouco deixaria, não importa quanto tempo passasse ou qual fosse o vão das coisas entre eles, seu sentimentos, uma vez jurados, para sempre perdurados. Ela acreditava nisso, e essa crença bastava para que nada mudasse.
Discordaria enfadonhamente de suas colocações profundas e mesmo pessoais, apesar de ter em mente que eram simplesmente retratos da mais pura verdade logo em vista, discordaria mesmo assim.
Um sentimento como aquele jamais poderia dar-se ao luxo de tamanha transformação, tampouco perder sua intensidade, era intragável ter de acreditar no contrário.
quando deixamos de lado determinado sapato ou roupa por algum tempo, não significa que estes irão, magicamente desaparecer de nossos armários como acontece com o algodão doce dentro da boca.
Trata-se de algo muito além do descritível para que possa ser jogado em imagens afim de facilitar o entendimento ou mesmo a abordagem do assunto.
O que pode acontecer, na maioria dos casos, é uma nova concepção, surgida a partir de uma idéia simplória ou de um ocasional diálogo, onde aquilo que sentíamos há um minuto atrás se torna tão inapetecível à nossa personalidade quanto um par de luvas pequeno para dedos longos.
Existem pessoas cujos sentimentos podem ser comparados à uma dependência por café.
Algo intensamente necessário e dilacerantemente perturbador quando se ausenta. Querem sorver mais e mais e numa questão de poucos segundos já estão à mercê de um ataque epilético por excesso.
Ela estava longe disso, uma vez que ela própria já era como café, os sentimentos existiam apenas para aumentar ainda mais o seu volume, só isso. Assim era aquela relação.
Seria imperdoável questioná-la se havia algum resquício de dor ou remorso por ter agido daquela forma, por ter usado de modos grosseiros, ingratos e muito pouco pessoais para tratar de um assunto que dizia respeito à ambos em quantidade equivalente, na realidade muito mais que isso, tratava-se de algo que fazia parte tanto dele quanto dela de uma maneira quase obscena.
O que acontece em determinadas situações é que, as expectativas e olhares humanos são extremamente difusos um dos outros e o ideal de perfeição para alguns se mostrara sempre contraditório aos outros e assim sucessivamente. Uma espécie de circulo vicioso em todas as relações.
A reciprocidade nunca estará congruente às expectativas e mesmo necessidades de algum dos lados. Talvez nalgum ponto, lá no inicio ou mesmo no final, ela encontra esse equilíbrio, mas isto é inegavelmente raro. No caso dos que ainda assim perduram, não representa que o equilíbrio simplesmente surgiu, em sua maioria, alcançou-se um estágio de comodismo e mesmo superação estáveis. De agora em diante, basta continuar vivendo sem grandes méritos.
Isso é tudo questão de ponto de vista, é claro. Do ponto de vista dela, se desejar uma posição mais exata.
Conclui-se então que para ela, estar com ele já bastava, não importa como e nem por quanto tempo, nunca parava para pensar muito nisso uma vez que, quando se ama verdadeiramente uma pessoa, não é preciso que haja juras de amor eternas e demasiado intensas, elas já estão embutidas num simples toque das mãos.
Ele era, em sua crença, o mais prudente e ínfimo retrato da perfeição.
Amava-o de uma tal maneira de tornar-se cega àquilo que viesse à magoá-la ou mesmo prejudicá-la, afim de manter-se sempre elevada ao alto nível de felicidade que aquele relacionamento proporcionava-lhe. Já não tinha mais o hábito dos velhos rancores e perdoava condescendente tudo aquilo que ele viesse a pecar referente ao modelo de virtudes que ela pintara-lhe.
Não estava preocupada com o que terminaria sentindo a respeito de si mesma ou mesmo com o rumo desordenado que sua vida poderia tomar dali pra frente, contanto que estivessem juntos todos os problemas tornavam-se mínimos, todas as ansiedades desapareciam por completo.
Aos poucos, ela anularia a si mesma em tributo à perfeição que ele representava-lhe, numa gratidão ignóbil que ela mesma via-se na obrigação de oferecer-lhe, uma vez que ele perante todas as suas ações era o mais ingênuo inocente, que nunca lhe pedira mais do que ela já não esbanjasse e nem nunca a forçara algo que não lhe agradasse, muito pelo contrário.
Se algo havia acontecido, se a corrida fora sabotada em algum ponto do trajeto, isto se dava unicamente ao fato irreal que ela tinha para si mesma, o fato que alegava sua falta de controle em relação às suas emoções naquele caso, o fato que evidenciava o quanto ela ainda era imatura para aceitar que o que tinha em mãos não era nada além do mínimo que ela deveria acreditar merecer.
Puro complexo de inferioridade se quiser usar um termo técnico nessa descrição.Ela mesma dera-se conta de que em um intervalo de tempo muito pequeno, estaria entregue à qualquer coisa que amadurecesse dos desejos dele, sendo isso de sua natureza ou não.
Dera-se conta de que privaria a si mesma de suas próprias esperanças e suas próprias perspectivas a fim de acatar somente àquilo que ele considerasse plausível, devido ao temor contrariá-lo e assim, perdê-lo.
O que sentia, já não era amor há muito tempo, era dependência e obsessão. Só ele a fazia sorrir, só ele era capaz de compreender suas aspirações, só ele era capaz de dar-lhe vida aos sentidos.
Culpava-o. Culpava-o antes de tudo.
Culpava-o por ser tão articulado em suas explanações e assim, causar-lhe um fascínio imediato em relação ao enorme senso de persuasão que acabara desenvolvendo, e mesmo por seus sonhos, planos, esperanças estarem todos divinamente interligados e caminhando em conjunto para a realização de ambos, seja esta física ou espiritual.
Mesmo a paixão que tinham pela música e pela arte era dosada em quantidades idênticas, e também o ideal libertário, as polêmicas, incredulidades, angústias e desilusões que vinham carregando desde a juventude eram congruentes.
Até quando raramente discutiam, o choque entre seus pontos de vista servia como plano para novas opiniões, novas angulações de um determinado assunto que despertava determinados sentimentos e assim, um interesse mútuo em entregar-se ainda mais àquilo que os mantinha unidos: um intenso e profundo auto-conhecimento.
Caminhavam juntos por uma estrada onde todos os dias eram diferentes e apesar das dificuldades, eram livres para permitirem-se experimentar novas formas de agir e pensar sendo eternos desconhecidos um para o outro, desconhecidos cuja intimidade só tende a crescer na medida que o descobrimento torna o interesse cada vez maior e mais duradouro.
Ela não poderia desejar outra coisa, não poderia ser mais feliz, não fosse a insegurança que sentia em perdê-lo.
Ele nunca deu-lhe motivos para desenvolver tais sentimentos, mas ela o fizera sozinha, isso admitia.
Eram melhores amigos antes de amantes e os maiores amantes antes de melhores amigos, se me permitir uma colocação um bocado sensível à esse respeito.
Seu problema era, uma pobreza de alma tão forte, que fora capaz de danificar-lhe o senso de cumplicidade, desencadeando um desligamento de seu próprio EU em função da existência DELE.
Essas coisas tendem a acontecer num envolvimento tão intenso e verdadeiro, o problema é que ela era fraca e ele orgulhoso.
Fugiu da situação como quem foge da luz solar quando acaba de despertar. Negou aquilo que sentia com maior ardência do que poderia imaginar, com o único objetivo de criar uma situação onde tivesse motivos suficientes para dilacerar seus sentimentos e maquiar feridas causadas por suas próprias palavras.
Culpava-o afim de não culpar a si mesma. Culpava-o para não enlouquecer.
Ela o abandonara, sabia disso, mas jamais deu razões para sentir-se arrependida de fazê-lo, uma vez que desenhou para si um conformismo antes inexistente e agora inalterável onde acreditaria estar fazendo o melhor por ambos, excluindo qualquer possibilidade de interpretar sua ação como egoísmo ou mesmo hipocrisia.
Ela continuava ainda a mesma pessoa, apesar de agora fingir amar outra pessoa, alguém que, para não ser classificado como inferior, era imparcial ao fervor de seu espírito e imprudência de sua carne.
Alguém indiferente e um bocado distante daquilo que um dia ela teve como seu, eternamente seu.
Tornara-se fiel a concepção de que os opostos se atraem e mesmo sabendo que jamais poderia cobrar daquele novo relacionamento, uma intensidade tal qual desejava, estava no ponto de cogitar o futuro como algo dos dois, o que soava denso se levado em consideração ao futuro cogitado meses anteriores. Já não sentia saudades e tampouco estava interessada ou mesmo disposta a vê-lo ou ter notícias suas.
Se ela pudesse ler a carta, fosse quando fosse, saberia admitir o tamanho de sua negligência.
Deixaria de concordar com o que ele dissera-lhe na tarde em que se viram e falaram-se pela última vez, uma despedida fria e cruel sem dúvidas nada digna do mérito que o relacionamento promovera-lhes até ali, e seria obrigada a fazer tudo diferente do que estava fazendo até então.
Não importa o que acontecesse, a atitude que ela teve seria sempre julgada e a atitude dele questionada, afinal apesar de TUDO ela ainda considerava que pipoca combinava com paçoca e que There is a light that never goes out do The Smiths era a música mais linda já feita.
Se ela pudesse ler, talvez o julgamento e as questões terminassem sendo classificados como desnecessários.
Pena que Camila não leu.
O envelope estava aqui.
Comentários
Estou em analise do que li. depois te digo o que achei!
Desculpe domingo. Não deu pra te dar a tenção que eu queria! mas vc estava fofa nanando de óculos! Pena que as malvadas te acordaram né!
Até o próximo morango branco!