Ana por suas linhas
"Não é preciso dizer nada, basta olhar pela janela: o tempo esconde tudo. Nuvens brancas enfeitam o céu que, um ano atrás, era o mais estrelado, o mais limpo, mais profundo e mais feliz".
Essas eram as palavras que piscam no viso do celular enquanto ele lia aquela mesma mensagem pela enésima vez.
Golpe baixo, pensou, em todo caso, ela sabia o que dizia, sabia fazê-lo sentir-se um lixo completo. Não, na verdade, não era bem um lixo... Tratava-se da putrefação presente no lixo velho e amontoado ou, quem sabe ainda, pior que isso.
Nunca mais sorrisos entre cortantes, nunca mais mãos entrelaçadas. Se já não se viam, falavam ou tinham qualquer outro tipo de contato que não fosse as frustrantes e ignoradas tentativas da parte dela, a culpa era toda dele. Culpa e indiferença resumiam tudo.
Ela era inocente, ele tinha certeza disso. Quando finalmente colocou o celular de lado, lembrou-se que deixara alguma panela queimando no fogo. Bingo: o cheiro de queimado empesteava a cozinha quando Jorge entrou nela. Há pouco mais de um ano que morava sozinho e ainda fazia esse tipo de coisa. Burrice. Mais cedo ou mais tarde acabaria se matando acidentalmente num incêndio ou coisa que o valha.
Há pouco menos de duas semanas esquecera a torradeira ligada ao sair para o trabalho. A mesa da cozinha exibia uma enorme mancha negra causada pelo superaquecimento do aparelho em contato com a madeira. Estava sempre comentando enganos, a toda hora.
Enquanto limpava a sujeira causada pela panela em ebulição, quis lembrar-se de uma passagem que lera na última carta enviada por Ana.
Preferiu deixar a limpeza para mais tarde e prontificou-se a mergulhar fundo na gaveta bolorenta da cômoda, onde abrigava velhas cartas, fotos e lembranças, tudo o que ainda restava de um passado feliz, ou seja: Ana, Ana, Ana, Ana e Ana.
Encontrou ali, não só a mais recente carta dela, como todas as anteriores e muitos papéis por ela escritos com divagações ou simplesmente bilhetes de recados do tempo em que ainda moravam juntos.
Ele costumava grifar nas cartas, as frases que mais lhe agradavam ou então os trechos que tinha uma certeza interior de que viria querer lê-los no futuro.
"Linhas pedem preenchimento, bem como braços pedem abraços e lábios pedem beijos, sejam dados por outros lábios ou mesmo por algum olhar" dizia um parágrafo avulso na primeira carta que sua mão escolheu. "Quantas vezes somos obrigados a conter os desejos mais brutais de nosso íntimo afim de zelarmos por uma imagem inexistente remetida a uma posição invisível que conta com favores ingratos e inclinações indiferentes? A resposta não pode ser formulada em números dado o seu incontável conteúdo. Extensão somada à suposição resulta sempre em dúvida".
Jorge colocou a carta aberta sobre a cama. datava de seis ou sete anos anteriores. Voltou-se a gaveta e sorteou outra carta para a próxima leitura.
Essa era mais recente, penas alguns meses após o triste incidente que os distanciara. Podia-se analisar a rigidez com que ela dirigia-lhe suas colocações: estava estampado em sua caligrafia.
"Existem coisas pessoais. Outras coisas são intransferíveis. Outras ainda, são pessoais e intransferíveis. Quase como cartões de crédito, talões de cheque ou carteirinhas de associações em geral, bem como um quarto ou mesmo uma agenda. Assim são as memórias e as lembranças, como fotografias nossas e unicamente nossas, pregadas num quadro na parede ou até além disso. Difícil entender porque é que há aqueles que tratam TUDO com descaso. Isso é egoísmo, ingratidão. Falso, falso, tudo muito falso. Falsos diálogos entre eu e eu mesma".
Para qualquer outra pessoa cuja sensibilidade fosse mínima, aquilo pareceria poético e mesmo interior. Para Jorge, era uma facada: descarada e merecida.
Depositou religiosamente a carta amassada ao lado da que lera minutos antes e foi em busca de outra. Essa era agora, tão antiga quanto a primeira, dificilmente Ana poderia imaginar que passariam por tudo aqui quando escreveu essa carta que ele tinha em mãos. Parecia-lhe uma espécie de confissão.
"Se eu abandonei as cores? Não digo isso.
É apenas um modo radical de fazer entender que as criações do imaginário nem sempre são tão práticas assim. É preciso certa dose de humor e uma habilidade casual de distanciar dos olhos aquilo que pode ferir o coração. A porta da alma precisa ficar trancada quando se está lidando com personalidades obtusas e até sentimentais em determinadas situações. Ficar bem pode ser bem mais cansativo, acredite".
Foi com um pesar maior que Jorge expôs a carta com as demais e voltou-se para a gaveta afim de pescar outra coisa. Funcionava daquela maneira: ele nunca tivera tanto ardor para ler aquelas cartas anteriormente. O que antes transbordava carinho e saudade, agora era semelhante a tortura. Começara, não? Estava então, disposto a ir até o fim.
Sua próxima leitura não foi qualquer parágrafo grifado nalguma carta amarelada, datada e endereçada à ele, mas sim um pedaço bem pequeno de papel. Sem maiores descrições, não havia data e nem outro coisa que o valha, somente um poeminha entristecido e a floreada caligrafia de uma Ana juvenil.
"Escreve, escreve, Florentina.
Se duvida, vai e melhora.
O que é que tem?
O que é que há?
Em pouco tempo tudo acaba, some.
Fica lembrança e fica saudade.
De resto, o que não presta é realidade
Não perde a razão, agarra o perdão
Ser feito de terra firme não adianta na hora chuva
Espera que melhora, senão melhora, estoura.
Sai sol! Some, some! Deixa chuva.
Deixa o frio.
A dor fica esquecida.
A esperança já está perdida".
Jorge não fazia idéia de quando ou com que propósitos Ana teria escrito aquilo, muito menos o que aquele poema estava fazendo ali, em sua gaveta.
A próxima escolhida, tinha um número bem grande de trechos grifados.
"Sabe aquele silencio que inspira uma tranqüilidade nunca vista? Aquele silencio reconfortante que serve de auxílio ao discernimento das escolhas. O silencio que precede grandes decisões e também as maiores falhas. Um silencio gratificante de um pouco caso infeliz onde somos nós e unicamente nós: os melhores do mundo. Não é mentira. É só um dia comum, mas são os dias comuns que fazem de nós as pessoas mais importantes do mundo inteiro".
Logo abaixo: "Fuga, fuga. Tudo parece ser fuga. Eu acho que é. Umas polainas sujas. Um chapéu amassado. Pra que tanta melancolia? Não há temos. Não há rancor. Só pressão. A pressão mutila, mas é simples, e é cega. Esquivo-me dela como bom jogador. Quem não está satisfeito, que faça melhor".
Em seguida: "Chove, chove em roda, pequeninos. Chove gotas grandes e médias em pequenos intervalos. nada pelo quê divagar. Tivemos nossa dose de vida, acabou. A expectativa pode parecer simples e banal, mas não chega a ser clichê: é sincera. A cada minuto começa uma nova hora e nesse tempo a cabaça vai e vem num mar de jogos e idéias além da nossa realidade".
Jorge, com a vista embaçado devido ao esforço da leitura, levantou-se por alguns instantes e perpassou o olhar pelo quarto mal arrumado à procura dos óculos. Encontrou-os ao lado do livro que estivera lendo na noite anterior, jogados no tapete ao lado da cama (quem é que precisava de um criado mudo?!)
A carta que ele agora tinha em mãos, era a penúltima que Ana enviara-lhe. datava de apenas alguns meses antes.
"Não importa onde é que começam ou terminam os defeitos. Há um corte profundo, uma vala de lâminas que nos separa mas não chega a ser pungente, não chega a ser doloroso. Dá pena, muita pena. É um distanciamento ingrato e desnecessário, uma cretinice de nossa parte e só isso. Não darei o braço a torcer, bem como você também não o fará. É quase como desafiar o espelho, quase como apostar com o reflexo quem é que vai se mover primeiro. Os impulsos são idênticos por natureza. Admito: sinto sua falta, mas tiro de letra. Para que, meu querido? Para quê abrigar um sentimento que não é verdadeiro afim tentar calar um outro que é mudo e imutável? Não sou capaz de odiar e digo-lhe que respeitar seria mais agradável. Não vale muito a pena esperar por uma bobagem dessas".
Por fim, nesse mesmo envelope, se encontrava a última carta que Ana enviara-lhe, fazia pouco mais de uma semana.
Era a maior de todas, deveria ter no mínimo umas vinte folhas escritas, linha a linha de cabo a rabo, de cima abaixo, frente e verso.
Nesta carta, Ana fizera um apanhado geral de tudo o que acontecera de acordo com seu ponto de vista e depois iniciava uma seqüência de soluções e propostas para que pudessem esquecer tudo e reatar o laço com o qual nasceram.
Jorge era cético em relação ao perdão. Não importa o que ela dissesse, não importa quantas vezes se pronunciasse ou então quantos votos de perdão ela fizesse. Ana poderia ter-lhe perdoado, mas ele não perdoaria a si mesmo enquanto vivesse.
ntre tantas e tantas palavras, apenas uma linha grifada. Jorge passou os olhos sobre a curta frase borrada de neon esverdeado.
Por um momento ele absorveu aquelas palavras e pensou. Pensou profundamente sobre o assunto excluindo todos os fatos, excluindo os diálogos e injurias que nunca deveriam ter existido. Abstraiu qualquer sensação de pesar ou remorso e concentrou-se somente em Ana.
Ana era sua irmã, mas não era só isso. Ana era uma mulher de fibra, uma mulher decidida e inteligente, independente e sonhadora. Jorge arruinara sua vida no tempo em que moraram juntos, porém Ana lutara contra isso o colocando em sua retaguarda e nunca fechando o cerco sobre ele. Ele lutara pelos dois e agora se redimia em súplicas e súplicas numa tentativa irrefreável de reparar danos, justificar causas e trazer de volta aquele amor há muito adormecido.
Ana era forte e sensata, mas sofria. Sofria por ser vulnerável e bela, por ser delicada e sensível. Ana era uma poetiza nata e isso era evidente em qualquer uma de suas cartas e Jorge nunca lhe dissera isso.
Havia um ano que não mais se viram, não mais se falaram, não mais trocaram uma só palavra. Ana escrevera-lhe praticamente todas as semanas, telefonara-lhe, fora até sua casa, seu trabalho, a cafeteria. Ela, a única pessoa digna de sentir piedade ou mesmo rancor era quem procurava tudo esclarecer, era quem buscava provar que seus sentimentos eram sinceros e que ele estava agindo de forma errônea e egoísta.
Ela tentava abrir-lhe os olhos e ele via-a tentando feri-lo e rebaixa-lo. Como estava sendo frívolo!
Num momento crucial, Jorge sentiu-se envergonhado com todas aquelas cartas, todas aquelas confissões pessoais e verdadeiras feitas por sua irmã, a única pessoa que o amava e não tinha receio em dizê-lo.
Voltou os olhos então para a única frase grifada na última carta de vinte e poucas folhas. De todos os argumentos que Ana usara, esse era o único que foi capaz de convencê-lo:
"Deixar-se sentir. Somente isso. O maior e o menor momento de toda nossa vida. O dia mais bonito, uma pintura solitária. O filme termina, os créditos já vão surgir. Poderia ter durado para sempre. Obrigada e volte sempre".
Escrever um livro com todas aquelas cartas. Essa era a vontade que Jorge tinha ao constatar que durante o último ano vinha agindo como o maior cretino de todos os tempos.
'Não seria tão mais fácil se todas as pessoas se amassem?' Ana perguntara-lhe certa vez. Ele ainda não tinha uma opinião formada.
Agora, já sabia como fazer.
Pegou o telefone. Não precisou hesitar para discar aquele número que pensara ter esquecido.
Quando a voz de Ana do outro lado da linha respondeu ao chamado, Jorge concluiu que amar é como andar de bicicleta: impossível aprender longe da prática.
Essas eram as palavras que piscam no viso do celular enquanto ele lia aquela mesma mensagem pela enésima vez.
Golpe baixo, pensou, em todo caso, ela sabia o que dizia, sabia fazê-lo sentir-se um lixo completo. Não, na verdade, não era bem um lixo... Tratava-se da putrefação presente no lixo velho e amontoado ou, quem sabe ainda, pior que isso.
Nunca mais sorrisos entre cortantes, nunca mais mãos entrelaçadas. Se já não se viam, falavam ou tinham qualquer outro tipo de contato que não fosse as frustrantes e ignoradas tentativas da parte dela, a culpa era toda dele. Culpa e indiferença resumiam tudo.
Ela era inocente, ele tinha certeza disso. Quando finalmente colocou o celular de lado, lembrou-se que deixara alguma panela queimando no fogo. Bingo: o cheiro de queimado empesteava a cozinha quando Jorge entrou nela. Há pouco mais de um ano que morava sozinho e ainda fazia esse tipo de coisa. Burrice. Mais cedo ou mais tarde acabaria se matando acidentalmente num incêndio ou coisa que o valha.
Há pouco menos de duas semanas esquecera a torradeira ligada ao sair para o trabalho. A mesa da cozinha exibia uma enorme mancha negra causada pelo superaquecimento do aparelho em contato com a madeira. Estava sempre comentando enganos, a toda hora.
Enquanto limpava a sujeira causada pela panela em ebulição, quis lembrar-se de uma passagem que lera na última carta enviada por Ana.
Preferiu deixar a limpeza para mais tarde e prontificou-se a mergulhar fundo na gaveta bolorenta da cômoda, onde abrigava velhas cartas, fotos e lembranças, tudo o que ainda restava de um passado feliz, ou seja: Ana, Ana, Ana, Ana e Ana.
Encontrou ali, não só a mais recente carta dela, como todas as anteriores e muitos papéis por ela escritos com divagações ou simplesmente bilhetes de recados do tempo em que ainda moravam juntos.
Ele costumava grifar nas cartas, as frases que mais lhe agradavam ou então os trechos que tinha uma certeza interior de que viria querer lê-los no futuro.
"Linhas pedem preenchimento, bem como braços pedem abraços e lábios pedem beijos, sejam dados por outros lábios ou mesmo por algum olhar" dizia um parágrafo avulso na primeira carta que sua mão escolheu. "Quantas vezes somos obrigados a conter os desejos mais brutais de nosso íntimo afim de zelarmos por uma imagem inexistente remetida a uma posição invisível que conta com favores ingratos e inclinações indiferentes? A resposta não pode ser formulada em números dado o seu incontável conteúdo. Extensão somada à suposição resulta sempre em dúvida".
Jorge colocou a carta aberta sobre a cama. datava de seis ou sete anos anteriores. Voltou-se a gaveta e sorteou outra carta para a próxima leitura.
Essa era mais recente, penas alguns meses após o triste incidente que os distanciara. Podia-se analisar a rigidez com que ela dirigia-lhe suas colocações: estava estampado em sua caligrafia.
"Existem coisas pessoais. Outras coisas são intransferíveis. Outras ainda, são pessoais e intransferíveis. Quase como cartões de crédito, talões de cheque ou carteirinhas de associações em geral, bem como um quarto ou mesmo uma agenda. Assim são as memórias e as lembranças, como fotografias nossas e unicamente nossas, pregadas num quadro na parede ou até além disso. Difícil entender porque é que há aqueles que tratam TUDO com descaso. Isso é egoísmo, ingratidão. Falso, falso, tudo muito falso. Falsos diálogos entre eu e eu mesma".
Para qualquer outra pessoa cuja sensibilidade fosse mínima, aquilo pareceria poético e mesmo interior. Para Jorge, era uma facada: descarada e merecida.
Depositou religiosamente a carta amassada ao lado da que lera minutos antes e foi em busca de outra. Essa era agora, tão antiga quanto a primeira, dificilmente Ana poderia imaginar que passariam por tudo aqui quando escreveu essa carta que ele tinha em mãos. Parecia-lhe uma espécie de confissão.
"Se eu abandonei as cores? Não digo isso.
É apenas um modo radical de fazer entender que as criações do imaginário nem sempre são tão práticas assim. É preciso certa dose de humor e uma habilidade casual de distanciar dos olhos aquilo que pode ferir o coração. A porta da alma precisa ficar trancada quando se está lidando com personalidades obtusas e até sentimentais em determinadas situações. Ficar bem pode ser bem mais cansativo, acredite".
Foi com um pesar maior que Jorge expôs a carta com as demais e voltou-se para a gaveta afim de pescar outra coisa. Funcionava daquela maneira: ele nunca tivera tanto ardor para ler aquelas cartas anteriormente. O que antes transbordava carinho e saudade, agora era semelhante a tortura. Começara, não? Estava então, disposto a ir até o fim.
Sua próxima leitura não foi qualquer parágrafo grifado nalguma carta amarelada, datada e endereçada à ele, mas sim um pedaço bem pequeno de papel. Sem maiores descrições, não havia data e nem outro coisa que o valha, somente um poeminha entristecido e a floreada caligrafia de uma Ana juvenil.
"Escreve, escreve, Florentina.
Se duvida, vai e melhora.
O que é que tem?
O que é que há?
Em pouco tempo tudo acaba, some.
Fica lembrança e fica saudade.
De resto, o que não presta é realidade
Não perde a razão, agarra o perdão
Ser feito de terra firme não adianta na hora chuva
Espera que melhora, senão melhora, estoura.
Sai sol! Some, some! Deixa chuva.
Deixa o frio.
A dor fica esquecida.
A esperança já está perdida".
Jorge não fazia idéia de quando ou com que propósitos Ana teria escrito aquilo, muito menos o que aquele poema estava fazendo ali, em sua gaveta.
A próxima escolhida, tinha um número bem grande de trechos grifados.
"Sabe aquele silencio que inspira uma tranqüilidade nunca vista? Aquele silencio reconfortante que serve de auxílio ao discernimento das escolhas. O silencio que precede grandes decisões e também as maiores falhas. Um silencio gratificante de um pouco caso infeliz onde somos nós e unicamente nós: os melhores do mundo. Não é mentira. É só um dia comum, mas são os dias comuns que fazem de nós as pessoas mais importantes do mundo inteiro".
Logo abaixo: "Fuga, fuga. Tudo parece ser fuga. Eu acho que é. Umas polainas sujas. Um chapéu amassado. Pra que tanta melancolia? Não há temos. Não há rancor. Só pressão. A pressão mutila, mas é simples, e é cega. Esquivo-me dela como bom jogador. Quem não está satisfeito, que faça melhor".
Em seguida: "Chove, chove em roda, pequeninos. Chove gotas grandes e médias em pequenos intervalos. nada pelo quê divagar. Tivemos nossa dose de vida, acabou. A expectativa pode parecer simples e banal, mas não chega a ser clichê: é sincera. A cada minuto começa uma nova hora e nesse tempo a cabaça vai e vem num mar de jogos e idéias além da nossa realidade".
Jorge, com a vista embaçado devido ao esforço da leitura, levantou-se por alguns instantes e perpassou o olhar pelo quarto mal arrumado à procura dos óculos. Encontrou-os ao lado do livro que estivera lendo na noite anterior, jogados no tapete ao lado da cama (quem é que precisava de um criado mudo?!)
A carta que ele agora tinha em mãos, era a penúltima que Ana enviara-lhe. datava de apenas alguns meses antes.
"Não importa onde é que começam ou terminam os defeitos. Há um corte profundo, uma vala de lâminas que nos separa mas não chega a ser pungente, não chega a ser doloroso. Dá pena, muita pena. É um distanciamento ingrato e desnecessário, uma cretinice de nossa parte e só isso. Não darei o braço a torcer, bem como você também não o fará. É quase como desafiar o espelho, quase como apostar com o reflexo quem é que vai se mover primeiro. Os impulsos são idênticos por natureza. Admito: sinto sua falta, mas tiro de letra. Para que, meu querido? Para quê abrigar um sentimento que não é verdadeiro afim tentar calar um outro que é mudo e imutável? Não sou capaz de odiar e digo-lhe que respeitar seria mais agradável. Não vale muito a pena esperar por uma bobagem dessas".
Por fim, nesse mesmo envelope, se encontrava a última carta que Ana enviara-lhe, fazia pouco mais de uma semana.
Era a maior de todas, deveria ter no mínimo umas vinte folhas escritas, linha a linha de cabo a rabo, de cima abaixo, frente e verso.
Nesta carta, Ana fizera um apanhado geral de tudo o que acontecera de acordo com seu ponto de vista e depois iniciava uma seqüência de soluções e propostas para que pudessem esquecer tudo e reatar o laço com o qual nasceram.
Jorge era cético em relação ao perdão. Não importa o que ela dissesse, não importa quantas vezes se pronunciasse ou então quantos votos de perdão ela fizesse. Ana poderia ter-lhe perdoado, mas ele não perdoaria a si mesmo enquanto vivesse.
ntre tantas e tantas palavras, apenas uma linha grifada. Jorge passou os olhos sobre a curta frase borrada de neon esverdeado.
Por um momento ele absorveu aquelas palavras e pensou. Pensou profundamente sobre o assunto excluindo todos os fatos, excluindo os diálogos e injurias que nunca deveriam ter existido. Abstraiu qualquer sensação de pesar ou remorso e concentrou-se somente em Ana.
Ana era sua irmã, mas não era só isso. Ana era uma mulher de fibra, uma mulher decidida e inteligente, independente e sonhadora. Jorge arruinara sua vida no tempo em que moraram juntos, porém Ana lutara contra isso o colocando em sua retaguarda e nunca fechando o cerco sobre ele. Ele lutara pelos dois e agora se redimia em súplicas e súplicas numa tentativa irrefreável de reparar danos, justificar causas e trazer de volta aquele amor há muito adormecido.
Ana era forte e sensata, mas sofria. Sofria por ser vulnerável e bela, por ser delicada e sensível. Ana era uma poetiza nata e isso era evidente em qualquer uma de suas cartas e Jorge nunca lhe dissera isso.
Havia um ano que não mais se viram, não mais se falaram, não mais trocaram uma só palavra. Ana escrevera-lhe praticamente todas as semanas, telefonara-lhe, fora até sua casa, seu trabalho, a cafeteria. Ela, a única pessoa digna de sentir piedade ou mesmo rancor era quem procurava tudo esclarecer, era quem buscava provar que seus sentimentos eram sinceros e que ele estava agindo de forma errônea e egoísta.
Ela tentava abrir-lhe os olhos e ele via-a tentando feri-lo e rebaixa-lo. Como estava sendo frívolo!
Num momento crucial, Jorge sentiu-se envergonhado com todas aquelas cartas, todas aquelas confissões pessoais e verdadeiras feitas por sua irmã, a única pessoa que o amava e não tinha receio em dizê-lo.
Voltou os olhos então para a única frase grifada na última carta de vinte e poucas folhas. De todos os argumentos que Ana usara, esse era o único que foi capaz de convencê-lo:
"Deixar-se sentir. Somente isso. O maior e o menor momento de toda nossa vida. O dia mais bonito, uma pintura solitária. O filme termina, os créditos já vão surgir. Poderia ter durado para sempre. Obrigada e volte sempre".
Escrever um livro com todas aquelas cartas. Essa era a vontade que Jorge tinha ao constatar que durante o último ano vinha agindo como o maior cretino de todos os tempos.
'Não seria tão mais fácil se todas as pessoas se amassem?' Ana perguntara-lhe certa vez. Ele ainda não tinha uma opinião formada.
Agora, já sabia como fazer.
Pegou o telefone. Não precisou hesitar para discar aquele número que pensara ter esquecido.
Quando a voz de Ana do outro lado da linha respondeu ao chamado, Jorge concluiu que amar é como andar de bicicleta: impossível aprender longe da prática.
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