Lilian

Queridos mamãe e papai,

Por favor, perdoem a demora em escrever-lhes, reconheço que já passou meses desde que recebi sua última carta, as coisas andaram um bocado tumultuosas, confesso com franqueza, mas podem ficar descansados uma vez que tudo já está em seu devido lugar (ou pelo menos caminhando para isso).
Admito que eu poderia ter-lhes enviado um e-mail ou pelo menos telefonado mais periodicamente nos últimos tempos, porém devo ressaltar que sou totalmente contra qualquer espécie de contato limitado por alguma instância (no meu caso de recessão, o custo da tarifa telefônica e mesmo a impessoalidade contida numa narrativa que não foi escrita por meu próprio punho, mas sim pela ponta de alguns dedos - um bocado vagarosos, aliás - pressionando teclas sujas de qualquer computador de qualquer café ou coisa que o valha já que, há algumas semanas, vendi o note book que trouxe comigo quando mudei-me para cá).

Enfim, como é que vocês estão? Espero que tudo esteja bem e que todos estejam felizes, apesar de tudo soar um pouco cretino dado o longo tempo que não escrevo-lhes (sei que pareço alheia quanto à existência de todos, mas por favor tenham paciência e compreendam que nesse intervalo de quase seis meses, coisas absurdas e não absurdas aconteceram explicarei uma por uma nas linhas abaixo).
Suponho que Alex voltou do Canadá! Ele escreveu-me contando, há pouco mais de três meses, que pretendia voltar em meados de junho e, pelas minhas contas, já deve estar em casa há algum tempo, o que significa que vocês continuam tão solitários quanto antes, isto é, se ele continua se comportando da maneira com que costumo me lembrar...
Bem, tenho grandes novidades para contar-lhes e tenho também, quase certeza e um grande receio de que não aprovariam muitas delas, mas devo adiantar que a cada dia que passa vejo-me mais feliz e realizada.
Continuo a mesma atrapalhada e deveras desorganizada de sempre, na verdade, numa escala ainda um pouco maior já que estou morando sozinha...
Não se assustem, por favor! Pensei um bocado no assunto, juro para vocês que realmente pensei e as escolhas que fiz são, para mim, indiscutíveis. Vendi muitas coisas que trouxe e/ou comprei desde que cheguei e isso talvez tenha me rendido um bom dinheiro para tentar o aluguel de um pequeno ateliê algumas ruas acima da casa de Tereza e Rafael.
Sempre tive em mente que precisava de um espaço assim, afinal não poderia crer que teria sido em vão todos os cursos referentes à moda que fiz ainda no Brasil. Enquanto não o fizesse, não sossegaria.
Devo confessar agora que, foi um bocado precipitado, compreendo agora que foi um grande tiro no escuro (que saiu literalmente pela culatra) e que serviu apenas para acentuar o quanto a minha teimosia consegue ser impertinente e mesmo irrefreável.
A vida em Londres é um jogo de azar e eu, como alguém que não tem nada, nada tenho a perder se apostar cegamente como desejo. Desisti do ateliê, mas ainda assim não pude abandonar outras idéias que já estavam amadurecendo desde que o avião pousou.
Tranquei a matrícula na faculdade. Na verdade, fui além disso. Não só tranquei a matrícula como usei todo o dinheiro do curso para comprar um flat próximo ao centro de Londres, que sempre foi onde eu almejava estar.
Comprei ainda em partes, há boas parcelas para serem pagas, mas nada que eu não consiga anular em alguns meses (para não dizer um ou dois anos).Antes de tudo, preciso ressaltar que ele é maravilhoso!
Não é lá muito grande e está longe de ser novo ou estar imune a umidade e todo o resto mas é (será) meu e isso já basta por hora.Trata-se de um apartamento com basicamente um cômodo só, um quarto-sala amplo e simpático com uma janela imensa por onde é possível ver o Big Ben ao longe e mesmo o London Eye e tudo.
Oh sim, há uma cozinha pequena (quem disse que é preciso muito espaço para uma geladeira cheia de congelados e armários carregados de sopas ou macarrão instantâneo além de chocolate e cereais?!) e um banheiro cujo encanamento é bastante antigo, mas até então nunca deu muitos problemas.
Comprei alguns móveis de segunda mão, muitas coisas ainda estão em caixas mas em breve pretendo colocar algumas prateleiras e um grande guarda-roupa (minhas roupas moram penduradas numa arara comprida que já estava no flat quando eu o comprei).
O carpete é amendoado de modo que, pintei as paredes num tom de vinho bastante aconchegante e mesmo elegante sem deixar de ser moderno, aos poucos estou me ajeitando.
Não tenho telefone, mas Tereza deu-me sua velha vitrola para que eu pudesse ouvir os discos que pedi que vocês enviassem logo que vim pra cá. Ela assumiu um ar de desdém quando eu me mostrei lisonjeada com o presente, disse ser uma coisa velha e que não servia mais para nada a não ser ocupar espaço e juntar poeira... Bobagem! Eu sei que ela adorava a vitrola e que esta funciona perfeitamente, inclusive, de modo que achei realmente adorável o presente.
Minha estimada máquina de costura tem um destaque especial no quarto-sala/sala-quarto bem como todos os quadros e pôsteres pendurados por toda parte.
Rafael disse que eu não deveria ter perdido meu tempo pintando tudo, bastava caprichar no rodapé e as molduras disfarçavam o resto. Comprei dezenas de quadros novos no Hyde Park, pintei alguns também (daquele jeito!) e também preenchi com fotos antigas que me remetem a tempos tranqüilos e saudosos que vivi no Brasil anos antes.
O que realmente precisa ser priorizado, é uma boa cama com estrado de madeira, digamos que foi um luxo do qual ousei abdicar porém, agora sofro as conseqüências, no próximo mês pretendo abandonar o velho colchão de casal no chão por algo mais digno, mas não tenho lá tanta certeza.
Sinceramente, a minha vida dentro do flat tem sido mais um chegar para sair e voltar para sair outra vez.
Trabalho de manhã numa cafeteria no mesmo quarteirão onde moro, portanto saio de casa um bocado cedo. Há dias que volto para almoçar (quando sobra alguma coisa ou quando estou sem dinheiro ou mesmo quando estou inspirada o suficiente para cozinhar) ou então costumo almoçar num restaurante a algumas quadras daqui, onde um amigo costuma me acompanhar.
Oh sim, eu fiz amigos! Bons amigos, aliás! E são todos genuinamente ingleses, o que torna tudo ainda mais especial na cabeça de uma garota boba como eu.
São eles: Edward, Mark, Peter e John. Todos são ótimos! Edward trabalha comigo na livraria (meu emprego durante a tarde) e já era grande amigo de Peter e Mark, a quem apresentou-me. John eu conheci no restaurante que costumo almoçar e apresentei-o aos rapazes. São todos ótimos, apesar de mais velhos e dignamente bem educados (literalmente lordes ingleses) são deveras engraçados e nos divertimos horrores pelas bandas de cá.
No último feriado, fomos para Glasgow na Escócia assistir a um show de uma banda da qual gostamos muito e eu tive oportunidade de conhecer uma das maiores faculdades de Arte do mundo todo! É simplesmente fantástico. Nas férias, pretendemos ir à Bulgária participar de um tal maravilhoso festival de gastronomia (agora, não me perguntem de onde surge dinheiro para tantas viagens! Santa máquina de costura! Santos amigos solteiros e bem nascidos!)
Antes que eu me esqueça, desde janeiro, eu e Peter dividimos a custódia de Marguerite. Ela é simplesmente muito amável e carinhosa.
Roeu o rodapé do carpete na primeira semana que passamos juntas mas foi a primeira e única vez.
Marguerite é uma cadela pastora enorme que encontramos no abrigo de animais de Baltimore e não houve maneiras de reter a paixão na qual nos entregamos!
Como eu já escrevi logo acima, entro em casa para logo mais estar saindo e seria desumano de minha parte, querer abraçar a custódia integral (assim gostamos de chamar) de um animal dócil e inocente.
Nos finais de semana, tenho feito algumas fotos publicitárias seja para qualquer campanha meia boca que precise de boas tomadas ao ar livre, seja para revistas de arquitetura e esse tipo de coisa. Considero um free-lance válido uma vez que, minha câmera fotográfica e minha máquina de costura são as duas únicas coisas das quais não consigo me imaginar sem.
Mark trabalha num estúdio que faz edição de vídeos e revelação de filmes, de modo que não pago nada pelas revelações e impressões o que, no fim das contas, proporciona-me um lucro muito superior ao pré-calculado em outros casos.
Sinceramente, não vou voltar à faculdade se querem saber, dois anos e meio já foi tempo suficiente para provar que o jornalismo definitivamente é algo que eu considero mais detestável possível e não há nada capaz de mudar essa minha atual concepção.
Estou feliz, já disse, e cada vez mais realizada. Não vivo em grande estilo, tampouco estou crescendo horrores em se tratando de lado profissional, mas não há outro lugar no mundo que consegue me fazer sentir mais completa e satisfeita.Tenho saudades de todos, isso é verdadeiro, muitas saudades aliás, mas tudo consegue ser tão maravilhosamente encantador a ponto de me fazer esquecer as perdas e danos afim de abraçar uma causa verdadeira e fundamentada naquilo que eu desejo com maior ferocidade dentro de mim. Estou onde deveria estar e ponto.
Sei que há aqueles que devem chamar-me monstruosa ou qualquer termo pejorativo que justifique a minha ausência, o meu abandono àquilo que um dia já foi tudo o que eu tinha, não os culpo.
Fui criada assim. Foram vocês, meus pais, que fizeram de sua filha um ser livre e vivente, que não busca nada a não ser a aventura de uma vida sem muitas regras ou barreiras, um mundo de rostos desconhecidos onde cada dia passe com novas descobertas e novos aprendizados por menores que sejam.
Desenvolvi, graças a maneira singular e fantástica com que vocês me cultivaram, uma independência fora do comum, que tem por conseqüência uma maneira solitária de encarar o futuro e mesmo a morte, há um total desapego àquilo que pode ou não remeter amor ou segurança.
Por mais que boas almas estejam em meu caminho, eu sempre vou tomar a dianteira em alguma etapa da estrada e ultrapassa-las até perderem-me de vista, eis uma forma mecânica e até mesmo egoísta de crescimento interior e mesmo de alusão à felicidade.
Eu não preciso de nada ou de ninguém para sentir-me querida ou mesmo bem protegida, os meus instintos me protegem e a sorte acaba sendo minha guia quando estou perdida (como acontece na maioria das vezes) em algum lugar por aí.
Gosto dos rapazes por perto porque todos têm algo a acrescentar, uma personalidade única e complexa, que instiga uma amplitude do universo em que vivo, há uma expansão de idéias e mesmo de ideais a cada dia que passamos juntos, isso para mim é vital.
Não suporto viver rotinas.

Bom, meus queridos mamãe e papai, receio estar chegando ao fim de mais uma carta que envio-lhes. Confesso que cada ida ao correio para postar-lhes algo funciona para mim como um tiro de orgulho nas entranhas, trata-se da confirmação de que eu realmente estou aqui e que finalmente eu posso ser aquilo que sempre sonhei em ser.
Por favor, mandem lembranças minhas à todos, ninguém em especial, simplesmente à todos.
Um beijo apertado para Alex e uma boa coçada nas orelhas de Falcor (por falar nisso, adorei a ultima foto que enviaram-me!)
À vocês, meus eternos ídolos, todo o meu amor e minhas mais sinceras desculpas pela negligente demora em escrever-lhes, prometo (tentar) ser mais organizada e menos atrasada de agora em diante. (Inclusive há vinte minutos eu deveria ter encontrado Edward na cafeteria!)

Sempre sua,

Lilian

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