Até então

- Vovó, conta uma história?

O pedido ressoou na cabeça de Isabel por muito tempo. Conhecia muita histórias certamente, porém todas as quais já havia enjoado há muito tempo.
Culpa da mania que as pessoas têm de repetir tantas vezes a mesma coisa.

- Que história você quer ouvir, meu anjo?

Angélica pensou por algum tempo. Isabel divertia-se com a inocência esbanjadora da neta.

- Uma história de amor, vovó... Você conhece alguma?


De amor. Aquela singela colocação arrancou um riso de Isabel. Não um riso de desprezo ou desdém, muito menos um riso maduro que os adultos costuma usar para demonstrar como acreditam ser superficial os sentimentos e mesmo opiniões de criaturas infantóides como as crianças, por exemplo.
O riso de Isabel exprimia sua memória acima de qualquer sensibilidade aparente, funcionava como uma máquina do tempo onde ela era livre para ir e vir nas entranhas de um passado tumultuado e distante de sua atual realidade.
A memória de Isabel vagueou então no mundo fundo que suas lembranças compadeciam. História de amor conhecia muitas, todas aquelas que ouvira dizer, que lera em livros vermelhos com capa dura, que assistira nos velhos filmes ou mesmo que presenciara de um modo ou de outro. Cada uma, substancial à sua maneira e simplória, apesar de singular, porém todas elas convergiam num mesmo final pouco dramático e constante.
Todas.
Parou por um momento, endireitou-se na poltrona. Por um momento, reparou que funcionava como ir ao cinema, só que de um modo mais intenso e menos voluntário.
As cenas iam se formando uma a uma vagarosamente e aos poucos ela pode reviver consigo mesma, a maior história de todos os tempos ou, pelo menos, aquela que comprimia maior vivacidade em seu coração.

Três pessoas sentadas numa mesa redonda ao pé de um palco informal. A banda de jazz arrancava silvos maravilhosos dos instrumentos desacompanhados de uma voz. Abandonados. Dilacerando corações com a beleza de suas notas.
Dois deles, acompanham cada movimento no palco como se ali houvesse algum mistério pronto para ser revelado. O rapaz é moreno e tem as mãos bonitas, a moça é pálida e triste.
A outra garota tem olhos sorridentes, luta contra um cansaço maior. Copos semi-cheios mancham a toalha vermelha sobre a mesa. O gelo derreteu há algum tempo.
O dia nasce.
O sol amarelo, antes enevoado, invade o local pela abertura da janela. A brisa matinal ricocheteia as cortinas que parecem dançar ao som da banda. O ar está frio.
Frio como o metal presente no saxofone cujo dourado compete com a luz do sol. Frio como os olhos dele.

O rapaz assume uma postura austera. Parece não se lembrar de nada. A moça pálida chora baixinho, discretamente, com o olhar baixo e taciturno.
Ela o ama. Ele sabe disso. A garota dos olhos sorridentes se levanta, vai ao banheiro. Eles ficam a sós.
A moça chorosa encara-o por alguns instantes. Ele ignora-a, concentra-se no copo a sua frente. Porque diabos está fazendo isso?
Ela continua chorando, mais intensamente, mas ainda assim ele é incapaz de notar. Ele é incapaz de vê-la.
Uma leve sonolência embala todos os movimentos ao redor. Ambos respiram lentamente, perdidos em pensamentos, não se falam.
Não se trata somente do excesso de bebida ou mesmo o esgotamento corporal, mas quem sabe se ela dissesse algo...

- Augusto... Qual é a diferença entre uma orquestra sinfônica e uma filarmônica?

Pela primeira vez durante toda a noite, ele a encara nos olhos, fixamente. Não parece ter compreendido a pergunta, tampouco parece ter ouvido.
Não há resposta.
A garota do lenço amarelo reaparece. Eles querem ir embora. Os três.
A moça pálida usa um cachecol cinza. O cachecol cinza dele. Dói. Dói muito. Uma dor cruel e insana que agregada ao cansaço, chega a ser hipnótica.

Ela ainda pode sentir os braços dele envolvendo-a. Ela desejou estar ali para sempre, ele não sabe disso ainda.
Será que já se esqueceu?
Levantam-se da mesa redonda com a toalha vermelha manchada pelos copos esquecidos. Ele mexe no bolso do paletó, deposita uma quantia sob um dos copos, bem mais do que suficiente.
O som do jazz diminui gradativamente, a cada passo que avançam.
Augusto conversa com a garota do lenço amarelo. A moça pálida com o cachecol cinza, cachecol dele, acompanha-os a uma certa distância.
Porque é que fazem isso?
Ela não acredita ter sido um desastre. Haveria muito para ser dito, mas ele a ignorou.
Augusto faz sinal para um táxi que se aproxima lentamente. Ainda faz frio. A moça pálida será a primeira a partir, ela decidiu isso.
Com dificuldade, a moça desenrola-se do cachecol cinza dele. Despedem-se. Ela tenciona entregar-lhe o cachecol. Ele insiste para que ela não o faça.
Ele faz tudo sempre errado!
Ela queria poder usá-lo, queria acima de tudo poder ficar com o cachecol, mas não ali, não naquela situação. Era assim tão difícil de entender?
Entra no carro, a porta é fechada, ele some.
A moça pálida então segue viagem, com o cachecol cinza. O cachecol cinza dele.
Ela soluça baixinho, escondendo-se do olhar curioso do motorista. Indica-lhe o destino com a voz pastosa e depois, esconde o rosto entre as mãos.
Por que? Por que? Ela não pára de questionar. Apavora. Não pode mais viver assim.
Na noite anterior ela foi a mulher mais feliz do mundo, até o último momento. É o final do filme.
Abre o vidro do carro, o vento revolta-lhe os cabelos. Atira o cachecol pela janela. Já basta de lembranças. Não precisa mais disso.
Os batimentos cardíacos, antes acelerados, por pouco não se anulam: estabilizam. Fez o que deveria ser feito.
Os créditos finais se aproximam.
A última cena, consagra uma mulher compreendida. Quer chorar ainda mais, e vai fazê-lo, mas será consciente.
Caminha até a porta de sua casa, respirando calma. Senta-se no terraço, demora a entrar, o sol aquece sua pele, ela transpira. Sua cabeça dói, mas já não há dúvidas.
Sua palidez aos poucos desaparece.
Créditos sobem, luzes se acendem.
As pessoas saem do cinema em silêncio, lentamente.
cada uma delas carrega a angustia e o contentamento dela. A moça pálida cujo amor não foi correspondido


até então.


Isabel sai de seu transe sem dificuldade, repara que Angélica ainda aguarda a história solicitada.

- Espera só um minuto, querida.

Levanta-se com pressa e dirige-se até o quarto. Remexe em gavetas e prateleiras. Encontra uma antiga caixa de madeira com uma tampa trabalhada. Tudo tem um cheiro ocre, embolorado.
Ali dentro encontra a última presença de Augusto em sua vida. Um bilhete, recebido algumas semanas após a noite do jazz onde se viram pela última vez.
No papel apenas uma linha escrita:
"A diferença está no tamanho. A filarmônica possui um número muito maior de instrumentos".

- Vovó! A minha história! - A voz de Angélica vinha da sala, impaciente.

- Claro, meu bem, claro. Venha escolher um livro aqui na prateleira... Já lemos a Cinderela?

Comentários

Andre_Sa disse…
Oi Flávia, adorei o lirismo. Continuo teu fã de carteirinha.
Abraços.

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