Notas
Miguel,
Já ia deitar-me quando lembrei de escrever-lhe.
Peço desculpas por não ter sido assim tão clara em minhas idéias no último telefonema, os dias passados por aqui têm me deixado um bocado confusa.
Obviamente eu já esperava um certo estranhamento ou coisa que o valha, afinal, passado tanto tempo não seria de se admirar, na verdade seria hipocrisia da minha parte acreditar que nossos gestos e mesmo convivência continuaria a mesma.
Na verdade, tudo está exatamente em seu devido lugar. Logo que cheguei encontrei os mesmos bancos na praça, o mesmo jardim bem cuidado e as mesmas casas, uma ou outra com uma nova mão de tinta pelas paredes e qualquer inovação em se tratando de portas e janelas e todo o resto.
O mercado continua igualzinho ao dia em que parti, assim como o clube com o grande gramado de futebol e o velho parquinho com as balanças de pneu. Os mesmos velhos com suas bicicletas enferrujadas e suas cartas amassadas sentados próximos à granja tomando qualquer coisa e jogando dominó.
As conversas são as mesmas variando apenas nos assuntos do escasso noticiário regional que fala sempre sobre a mesma decadência das fazendas da região e do gado e esse tipo de coisa.
Porém, ainda assim sinto-me deslocada. É como se houvesse um lapso no tempo que se torna responsável por essa insalubridade nas relações.
Não sei se fui eu quem envelheceu primeiro ou então se ainda continuo deveras jovem para adaptar-me ao meio em que todos por aqui vivem.
Você já devia imaginar o quanto ele mudou. Desde a última vez, nos tornamos ainda mais distantes e formais, não há maior cumplicidade em nossas atitudes tampouco nos nossos sentimentos. Sentimentos? Quais sentimentos? Sim, ele já deve ter percebido que meu coração pertence à outro.
Contudo, ainda almejo perseverar, estou realmente, realmente me esforçando se quer saber, mas não adianta, lugares pequenos sempre vão estar acompanhados da mediocridade estrutural. Não a considero uma mediocridade assim condenável, ela é apenas fruto do meio em que todos foram condicionados a viver. Não são capazes de aceitar que existe algo além daqui, tampouco o serão em um milhão de anos.
Nota-se claramente quando passamos frente à igrejinha próximo ao trevo da cidade, todos fazem o sinal da cruz num movimento mecânico e ao mesmo tempo automático, assim como seus olhares condenam-me por não fazê-lo. É muito difícil para as pessoas aceitarem que sou judia, isso é desagradável.
Para ser sincera, eu não estou nada bem. Em duas semanas ele fará aniversário e é estranho pensar que eu não faço a mínima idéia do que poderia agradá-lo no prezado momento, uma vez que, pouco tempo atrás eu saberia exatamente com o que deveria presenteá-lo. Isso soa pungente, mas é a mais clara verdade.
Somos dois estranhos numa mesma casa e isso é irritante. Sei que ele tem a mesma opinião, assim como sei que nunca será capaz de dar o braço a torcer, e nem poderia: ele pediu por isso.
Eu só voltei por pena, simplesmente isso. Sim, é um bocado triste, mas me abstenho disso quando olho para o céu. Se algo aqui que me faz muito feliz é toda essa natureza ainda virgem que nos rodeia.
Todos os dias, ela pinta todas as coisas de lindas, e ninguém repara nisso. Se você perguntar para as pessoas se o pessegueiro da praça está seco ou carregado, ninguém saberá responder. Fico incrédula com esse tipo de coisa.
Mas acredito que ninguém resiste ao céu daqui. Hoje no fim da tarde, quando saí para varrer a calçada, fazia o frio típico do principio da noite, e o céu estava embranquecido de nuvens altas e o sol mais parecia uma bola de fogo alaranjado estampado no meio delas do que um astro incandescente.
Diego disse que não é o verdadeiro sol, é apenas reflexo dele, que o verdadeiro já se pôs, caso contrário não conseguiríamos mirá-lo com tanta facilidade. Não acredito muito, gosto de pensar que ele apenas está cansado, cansado de estar sempre brilhante e a pino. Talvez o sol deseje sumir algumas vezes, parar de aquecer e iluminar a vida de tanta gente ingrata que depende dele e não se lembra. Quem sabe se algum dia ele nos der um susto desse, as coisas não mudem um pouco?
Veja só o que estou dizendo... Asneiras como de costume!
Estou num universo solitário, sinto-me como o sol algumas vezes, estão todos sempre questionando pelo meu bom humor e empolgação de antes. Ninguém notou que cresci e mudei. Mesmo depois de adultos podemos crescer, acho que temos esse direito, não?
Enfim... Peço desculpas por ser assim tão prolixa. O fato é, já não fazem quinze dias e eu já sinto saudades. Ninguém disse que iria ser fácil - sei que é o tipo de coisa que você me diria (quem sabe não dirá?) mas é o que sinto, portanto não escondo.
Sabe que não escondo nada de ti.
Agora vou dormir finalmente, senão acabo perdendo o sono de vez e será mais uma noite em claro contando todos os trens da madrugada. Isso aqui é um nicho de calmaria.
Na verdade minha insônia se deve ao desconforto em ter de dividir uma cama com um homem que mal conheço, ou então, se é assim que o termo se aplica, que não reconheço mais, uma vez que trata-se da pessoa que mais amei em toda minha vida, mas que atualmente já não me representa muito mais do que um fardo a carregar.
Um beijo grande, cuide-se sempre e, por favor, não deixe de escrever-me.
Acredito que não tardarei a voltar, por mais que insistam, não pretendo estender muito mais essa visita, os dias estão esgotando-me a sanidade.
Sua,
Luíza
Já ia deitar-me quando lembrei de escrever-lhe.
Peço desculpas por não ter sido assim tão clara em minhas idéias no último telefonema, os dias passados por aqui têm me deixado um bocado confusa.
Obviamente eu já esperava um certo estranhamento ou coisa que o valha, afinal, passado tanto tempo não seria de se admirar, na verdade seria hipocrisia da minha parte acreditar que nossos gestos e mesmo convivência continuaria a mesma.
Na verdade, tudo está exatamente em seu devido lugar. Logo que cheguei encontrei os mesmos bancos na praça, o mesmo jardim bem cuidado e as mesmas casas, uma ou outra com uma nova mão de tinta pelas paredes e qualquer inovação em se tratando de portas e janelas e todo o resto.
O mercado continua igualzinho ao dia em que parti, assim como o clube com o grande gramado de futebol e o velho parquinho com as balanças de pneu. Os mesmos velhos com suas bicicletas enferrujadas e suas cartas amassadas sentados próximos à granja tomando qualquer coisa e jogando dominó.
As conversas são as mesmas variando apenas nos assuntos do escasso noticiário regional que fala sempre sobre a mesma decadência das fazendas da região e do gado e esse tipo de coisa.
Porém, ainda assim sinto-me deslocada. É como se houvesse um lapso no tempo que se torna responsável por essa insalubridade nas relações.
Não sei se fui eu quem envelheceu primeiro ou então se ainda continuo deveras jovem para adaptar-me ao meio em que todos por aqui vivem.
Você já devia imaginar o quanto ele mudou. Desde a última vez, nos tornamos ainda mais distantes e formais, não há maior cumplicidade em nossas atitudes tampouco nos nossos sentimentos. Sentimentos? Quais sentimentos? Sim, ele já deve ter percebido que meu coração pertence à outro.
Contudo, ainda almejo perseverar, estou realmente, realmente me esforçando se quer saber, mas não adianta, lugares pequenos sempre vão estar acompanhados da mediocridade estrutural. Não a considero uma mediocridade assim condenável, ela é apenas fruto do meio em que todos foram condicionados a viver. Não são capazes de aceitar que existe algo além daqui, tampouco o serão em um milhão de anos.
Nota-se claramente quando passamos frente à igrejinha próximo ao trevo da cidade, todos fazem o sinal da cruz num movimento mecânico e ao mesmo tempo automático, assim como seus olhares condenam-me por não fazê-lo. É muito difícil para as pessoas aceitarem que sou judia, isso é desagradável.
Para ser sincera, eu não estou nada bem. Em duas semanas ele fará aniversário e é estranho pensar que eu não faço a mínima idéia do que poderia agradá-lo no prezado momento, uma vez que, pouco tempo atrás eu saberia exatamente com o que deveria presenteá-lo. Isso soa pungente, mas é a mais clara verdade.
Somos dois estranhos numa mesma casa e isso é irritante. Sei que ele tem a mesma opinião, assim como sei que nunca será capaz de dar o braço a torcer, e nem poderia: ele pediu por isso.
Eu só voltei por pena, simplesmente isso. Sim, é um bocado triste, mas me abstenho disso quando olho para o céu. Se algo aqui que me faz muito feliz é toda essa natureza ainda virgem que nos rodeia.
Todos os dias, ela pinta todas as coisas de lindas, e ninguém repara nisso. Se você perguntar para as pessoas se o pessegueiro da praça está seco ou carregado, ninguém saberá responder. Fico incrédula com esse tipo de coisa.
Mas acredito que ninguém resiste ao céu daqui. Hoje no fim da tarde, quando saí para varrer a calçada, fazia o frio típico do principio da noite, e o céu estava embranquecido de nuvens altas e o sol mais parecia uma bola de fogo alaranjado estampado no meio delas do que um astro incandescente.
Diego disse que não é o verdadeiro sol, é apenas reflexo dele, que o verdadeiro já se pôs, caso contrário não conseguiríamos mirá-lo com tanta facilidade. Não acredito muito, gosto de pensar que ele apenas está cansado, cansado de estar sempre brilhante e a pino. Talvez o sol deseje sumir algumas vezes, parar de aquecer e iluminar a vida de tanta gente ingrata que depende dele e não se lembra. Quem sabe se algum dia ele nos der um susto desse, as coisas não mudem um pouco?
Veja só o que estou dizendo... Asneiras como de costume!
Estou num universo solitário, sinto-me como o sol algumas vezes, estão todos sempre questionando pelo meu bom humor e empolgação de antes. Ninguém notou que cresci e mudei. Mesmo depois de adultos podemos crescer, acho que temos esse direito, não?
Enfim... Peço desculpas por ser assim tão prolixa. O fato é, já não fazem quinze dias e eu já sinto saudades. Ninguém disse que iria ser fácil - sei que é o tipo de coisa que você me diria (quem sabe não dirá?) mas é o que sinto, portanto não escondo.
Sabe que não escondo nada de ti.
Agora vou dormir finalmente, senão acabo perdendo o sono de vez e será mais uma noite em claro contando todos os trens da madrugada. Isso aqui é um nicho de calmaria.
Na verdade minha insônia se deve ao desconforto em ter de dividir uma cama com um homem que mal conheço, ou então, se é assim que o termo se aplica, que não reconheço mais, uma vez que trata-se da pessoa que mais amei em toda minha vida, mas que atualmente já não me representa muito mais do que um fardo a carregar.
Um beijo grande, cuide-se sempre e, por favor, não deixe de escrever-me.
Acredito que não tardarei a voltar, por mais que insistam, não pretendo estender muito mais essa visita, os dias estão esgotando-me a sanidade.
Sua,
Luíza
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