A única menina perdida

Havia tantas feridas naquele coração, que mais parecia um mosaico turvo em remendos. Um pequeno coração para uma pequena garota: não tinha mais de um metro e sessenta.
Fatalmente magoada, ela vagava o mundo em busca deles.

Eles?
Que eles?
Quem eles?
O quê eles?

Aqueles que a deixaram aqui.

Tudo era um grande jogo infantil e inocente (ou não tão inocente quanto se imagina, mas ainda assim, inocente). Sempre fora uma brincadeira de esconde-esconde. Sua solidão não tinha tempo para durar bem como o jogo não tinha tempo para acabar.
Eles estavam por aí:
os meninos perdidos que ela buscava.

Não sabia quanto ia demorar. Eles estavam, talvez, perdidos não só em sua mente e lembrança, mas também pelo mundo inteiro.
Não havia hora e nem lugar marcados para um encontro.
Tudo seria fruto, não só da sua perseverança mas também do acaso.
Uns ela encontrara facilmente.
Outros ela perdera para sempre.
Poucos era seria incapaz de enxergar.

Besteira, uma coisa dessas, não é? Ou então a mais ingênua verdade (ou não tão ingênua quanto se imagina, mas ainda assim, ingênua). O fato era que seria-lhe muito mais apropriado fugir.
Uma fuga poderia ser muito confortável em se tratando de decepção. Sempre fora insegura em relação ao resto das pessoas, não seria a primeira vez. Alguns chamaram-na mimada.
Talvez fosse assim, um bocado bastante ou suficietemente mimada, mas isso era fruto do auto-conhecimento de seus méritos.

Não valia a pena continuar ali.

Naquela mesma noite, após o jantar, foi se deitar mais cedo. Fez tudo como de costume, a não ser pela carta que escreveu logo que acendeu a luz do quarto. No envelope, palavras manchadas desculpavam-se pelas ausências e desaforos, faziam juras de amor e despediam-se da maneira mais poética existente. Noutros paragrafos, expurgavam todo e qualquer sinal de culpa existente e davam duras deixas de rancor.
Vestiu a camisola e abriu a janela, espiou o céu anuviado, da cor do mar, que uma noite serena de agosto exibia.
Era como se ali, por trás das nuvens azul-marinho, as estrelas narravam o fim de tanta solidão em seu mundo material: a terra do nunca finalmente se dispunha frente aos seus olhos foscos.

Respirou fundo.
Fechou os olhos.
Saltou.

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