Pena

E de repente, as pessoas perdem tudo simplesmente por não serem capazes de engolir o orgulho evidentemente exacerbado presente em sua personalidade ou mesmo fruto da própria teimosia que as lidera como um piloto-automático.
Obviamente, eu não cheguei a essa conclusão por mim mesma. Ele me ajudou nisso tudo.
Há alguns dias reli todas as cartas endereçadas por ele à mim. Elas estavam todas lá: amontoadas numa pasta larga de elástico vermelho, remexidas solenemente pelas mesmas mãos e perpassadas pelos mesmos olhos, porém talvez ainda um pouco imaturos ou muito sonhadores.
Fiquei admirada que, por muito pouco, eu não reconheci a caligrafia, e depois dizem por aí que somos incapazes de esquecer determinadas coisas, isso é relativo.
É evidente que pode ser quase impossível desligar-se de alguma lembrança por vontade própria ou simplesmente por excesso de sensibilidade a respeito, ou mesmo falta de.

O fato é: as coisas só ficam de lado verdadeiramente quando encontramos algo para colocar em seu lugar, ponto.
Talvez foi pelo ritmo dos meses e anos que sucederam-se, ou simplesmente pela rejeição interior que aqueles L's ou J's floreados causavam-me.
O modo como ele escreve, continuava claramente inabalável em minha percepção, de longe pude constatar que ali estava sua opinião grosseira e suas colocações pouco amigáveis à respeito dos meus sentimentos e das minhas atitudes. O que é que eu poderia fazer?


É a mesma coisa que reconhecer uma voz ao telefone, ou um perfume no ar. Algo muito mais físico do que psicológico (a propósito, adoro essa colocação).
Reli linha após linha daquilo que recebi em resposta aos meus apelos, o ar ao meu redor se encheu de melancolia. Droga! Continuo a mesma mulher frágil e indecisa de anos anteriores, mas quer saber? Dane-se.
Confesso que aquilo tudo me abalou como um tiro certeiro, mas foi longe de parecer mortal como já aconteceu. É uma cretinice para não dizer crueldade da parte dele, se expressar daquela forma, expurgando toda sua culpa no enxerto de minha impulsão. Idiota!


Ainda não sei porque fiz aquilo. Não sei porque cheguei tarde da noite em casa, desviei-me da sujeira que o gato fizera na cozinha durante minha ausência, subi as escadas com convicção, sentei-me no assoalho empenado do escritório e aventurei-me por aquelas linhas insanas que escondem um passado denso e ao mesmo tempo claro e exposto.
Um amor deixado na sarjeta, entregue aos marginais do senso comum, zombeteiros da ingenuidade alheia, causadores da infidelidade, do sarcasmo e do cinismo.


Cínico. Além de cretino e cruel, ele conseguiu ser cínico o suficiente para granjear a si mesmo com uma imagem intensamente lapidada de bom-caráter e altas intenções. Fez-me acreditar que seu riso inconstante não era uma referência maldosa aos meus receios desengonçados ou à minha entrega infantil.
Gracejando comigo, como todas as outras vezes, foi desse modo que ele assinou aquelas linhas, enviando em anexo seu novo endereço e número de telefone, dados que eu fiz questão de nunca dar conhecimento, pudera ter tido coragem de queimá-los. Não me arrependeria.

Chorei suavemente, aliviando irritação e angústia ao mesmo tempo. Ele fora o único capaz de fazer-me sentir culpada e remoída por meu suposto egoísmo.
O único capaz de fazer-me esquecer todas as funções objetivas de minha vida e canalizar minhas idéias, expectativas e pensamentos para um único pólo fantasioso e invisível que me impulsionou ao fracasso, mas deu-me uma perspectiva de sucesso muito mais ampla do que ele poderia sonhar.

Ouço o apito do trem: é hora de partir.
Minha única constatação é que ele perdeu a mim, assim como eu perdi a ele, simplesmente por ambos não termos peito o suficiente para nos fazermos melhor entendidos mutuamente.


Uma pena.
Decididamente uma pena.

Não tenho mais o que dizer-lhe Miguel, a não ser que, espero de coração que essa viagem seja realmente rápida. Sofro de enjôos terríveis em viagens longas e demoradas.
Desejo vê-lo em breve, assim que voltar, escrevo-lhe.

Um beijo imenso e toda a minha consideração,

Luíza

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